Filmes

Garota Exemplar

Entre todos os cinismos disparados por David Fincher em seus diversos filmes, Garota Exemplar (Gone Girl, 2014) talvez seja o filme que toma para si diferentes tipos de cinismos e os reúne, em um aglomerado de situações e complicações, deixando para o espectador a responsabilidade de fazer parte de um voyeurismo quase doentio, mas com toda a certeza arrebatador. É um desafio escrever sobre o filme não só contando com sua apurada e refinada parte técnica, mas também por possuir um roteiro afiado, surpreendente e revelador.

Muita gente vai dizer que é filme pretensioso, óbvio e decepcionante. É complicado também rotular Gone Girl com todos esses adjetivos pejorativos quando, após um tempo remoendo e refletindo sobre a última obra de Fincher, você entende que ela é, assumidamente, pretensiosa. Não por um esnobismo próprio e gratuito, mas pela história criada pela americana Gillian Flynn ser um produto de nossos tempos, revelador de uma sociedade extremamente preocupada com a questão da imagem e de que forma ela pode colocar um indivíduo em um pedestal entre holofotes ou, com a mesma força e poder, derrubá-lo deste palco para soterrá-lo com acusações e baixarias. Afinal, as famigeradas selfies que poluem toda rede social atualmente seriam o quê? Humildade?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Dessa forma, o primeiro choque recebido já está na primeira tomada do filme, uma simples e reveladora exposição formada por um close nos fios louros de Rosamund Pike, atriz britânica exigida por Fincher para que interpretasse Amy, uma das personagens mais intrigantes e instigantes da filmografia do diretor – e que talvez esteja no mesmo nível de complexidade psicológica de Lisbeth Salander, a anti-heroína mais hardcore e inescrupulosa já vista em uma refilmagem americana. Mas voltemos à tomada inicial de Garota Exemplar: a câmera segue dissecando Amy enquanto Nick, seu marido, surge na forma de narração em off, dizendo, em uma voz macia, que seu maior desejo é conhecer os segredos da esposa. Seria comum se a forma de dizer não fosse “gostaria de esmagar seu crânio e desenrolar seus pensamentos”.

Nick, afinal, será o objeto de manipulação tripla: das linhas do roteiro de Flynn, da câmera intrusa de Fincher e dos olhos e julgamento do espectador, aquele que entrará na sala de cinema já ressabiado e observando com cuidado cada movimento e ação de Nick. Não é à toa que David Fincher escolhe Ben Affleck e sua incapacidade – nesse caso, de forma positiva – de expressar o que sente diante de situações dramáticas. Nick é o personagem presente no tabuleiro de xadrez que se vê no meio de um quase xeque-mate e que precisa se defender, e sua neutralidade em meio a tantos acontecimentos estranhos irá colocá-lo em foco: fora Amy, o que Nick também omite? Se esmagássemos seu crânio, o que sairia de lá? O que seria preciso desenrolar?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

A equipe altamente competente de Fincher, então, irá brincar com o mote da história (o desaparecimento de Amy), preparando créditos iniciais que desaparecem antes da plateia poder ler os nomes. As escolhas estéticas de David Fincher irão seguir pelo mesmo caminho, optando por fade in e fade out toda vez que a história exige uma transição, seja essa de espaço ou de tempo. A fotografia, essencialmente fria, torna-se mais ainda nos constantes flashbacks proporcionados pela narração (também em off) de Amy, recitando as linhas de seu diário. Sai, dessa maneira, o Fincher experimentalista de Quarto do Pânico e entra o diretor clínico, cínico; aquele que irá operar suas lentes desejando contar uma história manipulada que irá ser manipulada e que também manipulará. Une-se, ao fim, todo esse cuidado cinematográfico ao humor involuntário de Gillian Flynn e seu roteiro.

E esse humor vem de forma catártica, no último e revelador ato de Garota Exemplar. A partir desse ponto da história, o público é brindado com a brilhante atuação de Rosamund Pike, provável ganhadora de muitos prêmios nas cerimônias de 2015. E se, com ela, vemos uma explosão de dramaticidade – seja essa manipulada, seja essa manipuladora -, o oposto está na impassividade irritante de Ben Affleck e sua cara de peixe morto, opostos que se atrairão em algum momento, promovendo mais um estranhamento no espectador e adicionando mais tensão à trama. Uma tensão sublinhada pela excelente trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, com direito a um ápice na melhor, mais impactante e, por consequência, mais inacreditável cena de Gone Girl, deixando um espectador desacreditado no que vê lá do conforto de sua poltrona de cinema.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

O tempo, por fim, será o juiz definitivo para Garota Exemplar. Daqui a alguns anos ainda iremos discuti-lo? Nem penso em tocar no ponto “misoginia” aqui pois uma semana e alguns dias ainda não foram suficientes para me decidir se Fincher está brincando com o assunto, se está rindo da possibilidade ou se está realmente disposto a expor, em seu mais recente filme, que não só ele, mas toda uma sociedade pode construir e moldar a imagem de uma mulher… assim como destruí-la da forma mais inesperada. É estar preparado para o pior e ser pego de surpresa com algo mais arrebatador ainda.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Gone Girl, dirigido por: David Fincher; escrito por: Gillian Flynn (baseado em sua obra, Garota Exemplar)

Com: Rosamund Pike, Ben Affleck, Neil Patrick Harris, Carrie Coon, Tyler Perry.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s