Filmes

Interestelar

Tempo.

Misterioso, desafiador, irreversível.

Amor.

Misterioso, desafiador, irreversível.

Há alguns anos, seria possível falar sobre as questões do tempo e suas implicações na filmografia de Christopher Nolan. A Origem (Inception, 2010) teve como escopo o sonho e suas transformações na realidade – e todas as dúvidas que surgiam a partir daí. O tempo também se configurava como vilão em alguns momentos da trilogia Batman. Mas se em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) ele era mais um aliado do Coringa, pressionando o protagonista a fazer suas escolhas, agora o tempo transforma-se em algo muito mais aterrorizador, muito mais palpável. E toma esferas de significações para si de forma inerente: enquanto vilão para o piloto e engenheiro Cooper, assim como protagonista para o filme em si. O tempo, afinal, estica-se e comprime-se, mas nunca volta atrás.

E se os detratores das obras de Nolan usavam como principal argumento o fato do diretor e roteirista tratar seus personagens e as relações entre eles de forma altamente cerebral, realista, agora ele decide arriscar questionamentos e filosofias particulares logo no campo do amor, ironicamente em seu filme que irá retratar a dura e devastante realidade da Teoria da Relatividade. É um desafio, sem dúvida, conciliar aspectos tão opostos – a abstração e subjetividade de se falar sobre amor (e o que este é capaz de transformar na realidade de cada um) e a precisão e objetividade exigida pela ciência -, ainda mais quando estes polos serão postos em xeque, justamente por dois cientistas, em uma cena surpreendente para quem acompanha os filmes do diretor e entende que, em sua odisseia pessoal, Nolan está buscando expandir os horizontes de seus personagens não só de forma literal, ali, na tela, mas também de dentro para fora, expondo seus medos e receios para o público de forma que também passe pelas tormentas sentimentais de quem, enfim, ama.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Não será à toa, portanto, que iremos acompanhar escolhas estéticas que irão ressaltar esses aspectos emocionais. Quando a Dra. Brand (interpretada por Anne Hathaway), até então reclusa e mostrando-se neutra a contatos emocionais, decide discutir sobre o amor, Christopher Nolan posicionará sua câmera bem de frente, em uma longa tomada, fechando o plano em seu rosto de forma vagarosa e paciente, aumentando a dramaticidade e objetivando suas intenções: o foco, agora, é o que ela sente, e não o que ela calcula como probabilidade. Em contrapartida, seu interlocutor, Cooper (interpretado por Matthew McConaughey), merecerá apenas um plano comum, sem zoom, sem drama. É um primeiro passo para Nolan em tal campo, mas isso já demonstra uma preocupação em tornar os personagens em algo mais do que peças em um gigantesco xadrez narrativo.

E a sua narrativa continua tão boa quanto em anos anteriores. Valendo-se de uma montagem que aborda vários acontecimentos ao mesmo tempo e que consegue dar conta de todos, emulando uma sensação de harmonia entre os eventos, Interestelar possui elipses elegantes: na partida de Cooper para sua viagem espacial, vemos Matthew McConaughey dirigindo a camionete entre os milharais, afastando-se de sua casa e deixando a família para trás, enquanto ouvimos a contagem regressiva para o lançamento da nave, um recurso que economiza tempo e deixa a narrativa mais fluida para aqueles que ainda irão acompanhar mais de duas horas de diversos eventos, exposições científicas e consequências provenientes das leis da Física. O mesmo vale para uma cena em que Cooper sofre um grande impacto físico e, com um corte brutal, voltamos para a Terra, em meio a um incêndio nas plantações, como se ambos os momentos fossem resultados do tempo, mesmo a relatividade nos lembrando que cada personagem está em seu tempo particular.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

A montagem e seus eventos concomitantes lembrará o ritmo de Inception, o que cria um crescendo em Interestelar, deixando o público mais apreensivo a cada minuto restante de projeção. Essa tensão será pontuada pela inspiradíssima trilha sonora composta por Hans Zimmer, colaborador constante de Nolan, recheada de tique-taques, órgãos cavernosos e batidas metálicas. E se, em planos-gerais que contemplam a vastidão e, ao mesmo tempo, o vazio do espaço, Hans Zimmer irá tocar notas tímidas em seu piano, nos momentos de ação e impacto, o músico nocauteia o público com suas batidas estrondosas, acompanhadas de metais que preenchem tanto o filme, quanto a sala do cinema.

Nada, portanto, seria tão contemplativo e passível de admiração se os efeitos visuais de Interestelar não funcionassem em tela. Numa mescla de efeitos práticos com computação gráfica que Nolan sempre prezou em seus filmes (a realidade, por um lado, precisa ser retratada de forma objetiva mais aqui do que nas obras anteriores), o público poderá conhecer lugares inóspitos com suas belezas particulares – e o plano que mostra a nave Endurance girando sobre os anéis de Saturno demonstra e, ao mesmo tempo, resume a sensação de contemplação e medo diante da constatação de que, sim, somos terrivelmente pequenos e insignificantes diante de tantas coisas orbitando a galáxia, afirmação essa expressa de forma inteligente por um dos personagens do filme, batendo na parede metálica da nave e dizendo “milímetros disso aqui e, lá fora, milhões e milhões de quilômetros de nada que pode nos matar em segundos”.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Essa frase, inclusive, resume a principal angústia de Interstellar: somos seres que vivemos em um planeta perfeito, evoluído para nos abrigar e nos proporcionar uma existência aparentemente duradoura. Mas… até quando? Até que ponto seremos capazes de continuar aqui, protegidos por “milímetros” de gravidade diante de milhões e milhões de quilômetros de um vazio capaz de nos matar em segundos? E, se formos capazes de desbravar novos mundos, descobriremos algo devastador? Estamos a um passo de descobrir outros seres de outras galáxias? Ou nosso egocentrismo nato está correto quando afirmamos nossa solidão entre tantos planetas orbitando todo esse vazio?

E se você ainda não viu o filme, pare de ler agora e só volte depois de ter visto e, se possível, revisto Interestelar. Os próximos parágrafos estão repletos de SPOILERS.

Passeando por fóruns e seção de comentários após ver Interestelar pela primeira vez, observei muitas pessoas discutindo o filme e, principalmente, o seu final. Muitos, inclusive, estavam se gabando por ter premeditado a reviravolta principal do longa, entendendo que o “fantasma” de Murph, desde o início da projeção, era o próprio pai, Cooper. Vendo Interestelar pela segunda vez, pude notar que o roteiro realmente dá dicas, a todo instante, de que Cooper está, no futuro, mandando uma mensagem para a filha entender que ele não deve partir para a viagem espacial – daí os livros na estante da menina caírem e ela, espertamente, interpretar aquilo como uma mensagem criptografada em Morse e, após rápidos rabiscos, ver que os intervalos na estante soletram “STAY”, e que a legenda inteligentemente traduziu para “FICA”, errando na gramática, mas acertando na quantidade de letras necessárias para a sincronização com as falas dos personagens. A primeira dica, inclusive, vem logo depois de Cooper acordar de seu pesadelo, logo no início do filme, e a filha entrar no quarto perguntando “você é meu fantasma?”.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Essas mesmas pessoas que observei se auto-intitularem as donas da verdade da Física (e talvez da vida também, já que são incrivelmente inteligentes e maduras) em seus comentários repletos de “eu já sabia o que ia acontecer no final do filme” e “filme previsível, longo e chato”, talvez não perceberam que o paradoxo do tempo criado a partir do momento em que pensamos “mas se Cooper está no futuro mandando uma mensagem para a filha dizer para ele, no passado, não partir” surge porque Cooper, quando vai se despedir da filha e não cede a seus apelos aparentemente apenas infantis, não está no passado, e sim no presente. E, como o próprio personagem constata dentro do hipercubo que cria uma realidade tridimensional, os seres entendidos como extraterrestres são os próprios humanos, vivendo em um espaço-tempo localizado no futuro e que, precisando de um agente para entender e emitir essa mensagem, mandam Cooper para o espaço e, após adentrar o buraco negro, para o hipercubo onde as peças começam a se encaixar. A mensagem “STAY” enviada para Murph é um ato de medo e desespero do personagem, mas a mensagem codificada no ponteiro do relógio irá corrigir isso; as duas, portanto, servirão de esclarecimento para Murph já adulta e para seu consequente eureka! que irá ajudar a humanidade dentro e fora da Terra.

E, como a Dra. Brand afirma em sua confissão emocional, o tempo não volta, mas a gravidade pode ser utilizada como meio para alterações no espaço e, consequentemente, no tempo. Não somente ela, no entanto: Cooper consegue enviar as mensagens através da gravidade não para qualquer pessoa, mas para Murph, sua filha… era preciso de algo a mais para que isso se concretizasse, um vínculo, algo capaz de distorcer leis.

Amor.

Pôster: Concept Arts 2014.

Pôster: Concept Arts 2014.

Interstellar, dirigido por: Christopher Nolan; escrito por: Jonathan Nolan, Christopher Nolan.

Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Jessica Chastain, Ellen Burstyn, Michael Caine.

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Garota Exemplar

Entre todos os cinismos disparados por David Fincher em seus diversos filmes, Garota Exemplar (Gone Girl, 2014) talvez seja o filme que toma para si diferentes tipos de cinismos e os reúne, em um aglomerado de situações e complicações, deixando para o espectador a responsabilidade de fazer parte de um voyeurismo quase doentio, mas com toda a certeza arrebatador. É um desafio escrever sobre o filme não só contando com sua apurada e refinada parte técnica, mas também por possuir um roteiro afiado, surpreendente e revelador.

Muita gente vai dizer que é filme pretensioso, óbvio e decepcionante. É complicado também rotular Gone Girl com todos esses adjetivos pejorativos quando, após um tempo remoendo e refletindo sobre a última obra de Fincher, você entende que ela é, assumidamente, pretensiosa. Não por um esnobismo próprio e gratuito, mas pela história criada pela americana Gillian Flynn ser um produto de nossos tempos, revelador de uma sociedade extremamente preocupada com a questão da imagem e de que forma ela pode colocar um indivíduo em um pedestal entre holofotes ou, com a mesma força e poder, derrubá-lo deste palco para soterrá-lo com acusações e baixarias. Afinal, as famigeradas selfies que poluem toda rede social atualmente seriam o quê? Humildade?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Dessa forma, o primeiro choque recebido já está na primeira tomada do filme, uma simples e reveladora exposição formada por um close nos fios louros de Rosamund Pike, atriz britânica exigida por Fincher para que interpretasse Amy, uma das personagens mais intrigantes e instigantes da filmografia do diretor – e que talvez esteja no mesmo nível de complexidade psicológica de Lisbeth Salander, a anti-heroína mais hardcore e inescrupulosa já vista em uma refilmagem americana. Mas voltemos à tomada inicial de Garota Exemplar: a câmera segue dissecando Amy enquanto Nick, seu marido, surge na forma de narração em off, dizendo, em uma voz macia, que seu maior desejo é conhecer os segredos da esposa. Seria comum se a forma de dizer não fosse “gostaria de esmagar seu crânio e desenrolar seus pensamentos”.

Nick, afinal, será o objeto de manipulação tripla: das linhas do roteiro de Flynn, da câmera intrusa de Fincher e dos olhos e julgamento do espectador, aquele que entrará na sala de cinema já ressabiado e observando com cuidado cada movimento e ação de Nick. Não é à toa que David Fincher escolhe Ben Affleck e sua incapacidade – nesse caso, de forma positiva – de expressar o que sente diante de situações dramáticas. Nick é o personagem presente no tabuleiro de xadrez que se vê no meio de um quase xeque-mate e que precisa se defender, e sua neutralidade em meio a tantos acontecimentos estranhos irá colocá-lo em foco: fora Amy, o que Nick também omite? Se esmagássemos seu crânio, o que sairia de lá? O que seria preciso desenrolar?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

A equipe altamente competente de Fincher, então, irá brincar com o mote da história (o desaparecimento de Amy), preparando créditos iniciais que desaparecem antes da plateia poder ler os nomes. As escolhas estéticas de David Fincher irão seguir pelo mesmo caminho, optando por fade in e fade out toda vez que a história exige uma transição, seja essa de espaço ou de tempo. A fotografia, essencialmente fria, torna-se mais ainda nos constantes flashbacks proporcionados pela narração (também em off) de Amy, recitando as linhas de seu diário. Sai, dessa maneira, o Fincher experimentalista de Quarto do Pânico e entra o diretor clínico, cínico; aquele que irá operar suas lentes desejando contar uma história manipulada que irá ser manipulada e que também manipulará. Une-se, ao fim, todo esse cuidado cinematográfico ao humor involuntário de Gillian Flynn e seu roteiro.

E esse humor vem de forma catártica, no último e revelador ato de Garota Exemplar. A partir desse ponto da história, o público é brindado com a brilhante atuação de Rosamund Pike, provável ganhadora de muitos prêmios nas cerimônias de 2015. E se, com ela, vemos uma explosão de dramaticidade – seja essa manipulada, seja essa manipuladora -, o oposto está na impassividade irritante de Ben Affleck e sua cara de peixe morto, opostos que se atrairão em algum momento, promovendo mais um estranhamento no espectador e adicionando mais tensão à trama. Uma tensão sublinhada pela excelente trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, com direito a um ápice na melhor, mais impactante e, por consequência, mais inacreditável cena de Gone Girl, deixando um espectador desacreditado no que vê lá do conforto de sua poltrona de cinema.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

O tempo, por fim, será o juiz definitivo para Garota Exemplar. Daqui a alguns anos ainda iremos discuti-lo? Nem penso em tocar no ponto “misoginia” aqui pois uma semana e alguns dias ainda não foram suficientes para me decidir se Fincher está brincando com o assunto, se está rindo da possibilidade ou se está realmente disposto a expor, em seu mais recente filme, que não só ele, mas toda uma sociedade pode construir e moldar a imagem de uma mulher… assim como destruí-la da forma mais inesperada. É estar preparado para o pior e ser pego de surpresa com algo mais arrebatador ainda.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Gone Girl, dirigido por: David Fincher; escrito por: Gillian Flynn (baseado em sua obra, Garota Exemplar)

Com: Rosamund Pike, Ben Affleck, Neil Patrick Harris, Carrie Coon, Tyler Perry.

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