Filmes

Os Boxtrolls

O estúdio Laika surpreende de novo. Não apenas pela temática e pelas críticas que atira sem piedade com Os Boxtrolls (The Boxtrolls, 2014), mas por ser um dos pouquíssimos estúdios que, nessa atualidade efêmera e ansiosa por mais computação gráfica, ainda mantém-se fiel ao modo artesanal e extremamente artístico da animação em stop motion. Cada detalhe dos cenários e personagens exibidos na tela ressaltam esse carinho e – principalmente – paciência dos realizadores em criar, movimento por movimento, um filme que não apenas faz questão de entregar uma animação de primeiríssima qualidade, mas também o faz satisfazendo o público adulto com uma trama encorpada, composta por uma gama de personagens que não se rendem ao apego fácil do público.

Se em 2009 tivemos a oportunidade de ver a negligência de pais e o perigo de se desejar as coisas com muito afinco em Coraline e o Mundo Secreto (Coraline), em 2012 foi a vez de ParaNorman focar o bullying, de maneira inteligente, mostrando que uma animação não deve seguir  um padrão, seja estético, seja temático. Agora, Os Boxtrolls traz à tona uma história antiga e, ao mesmo tempo, extremamente atual: o poder de um soberano sobre seus vassalos e qual a problemática que gira em torno disso. O filme, então, vai abordar questões como a necessidade de tomar o poder apenas por possuí-lo; a subserviência de uma classe social por meio da intimidação e da perseguição; a propaganda mentirosa e manipuladora e, principalmente, a capacidade (ou a falta) de definir um gênero – seja ele no aspecto social ou individual.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Para o antagonista da trama, Archibald Snatcher (dublado origiinalmente por Ben Kingsley), o importante é possuir o chapéu branco de Lord Portley-Rind, símbolo de poder e soberania na cidadezinha de Cheesebridge. O feioso exterminador deseja o poder por desejar, e seu único fim é participar da degustação de queijos promovida pelo Lord, em companhia de seus colegas nobres. A ironia, portanto, é que Archibald não quer ser o principal membro da alta sociedade de Cheesebridge para comandá-la, mas para ter acesso a seus privilégios – assim como Lord Portley-Rind faz. A identidade, para Archibald, se definirá a partir do momento em que seu longo chapéu vermelho for substituído pelo alvo chapéu do lorde.

Lord Portley-Rind (dublado originalmente por Jared Harris), inclusive, é dono das falas que mais expõem as críticas que Os Boxtrolls direcionam ao público: a primeira cena protagonizada pela personagem, por exemplo, já mostra como a negligência é sua principal virtude, tanto para os problemas sociais de Cheesebridge, como para a educação e formação social de sua filha, a mimada Winnie. Os queijos, de variados formatos, tamanhos e sabores, parecem ser a única variedade que interessa a Portley-Rind, e eles são o símbolo de sua riqueza, de seu poder e, consequentemente, de sua ignorância – a ponto de negar um fato, mesmo que ele se apresente, em carne e osso, em sua face. Tal negligência é odiada por Winnie (dublada por Elle Fanning), a filha única que, por meio da indiferença do pai, vai, logicamente, exigir ser o centro das atenções em todas as cenas que aparece.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Ela é, portanto, a que representa a camada social mais manipulada pelas mentiras de Archibald (o agente midiático de Cheesebridge, espalhando aos quatro ventos informações que distorcem a realidade e criam verdades direcionadas para seus interesses) ao afirmar, com todas as forças, o vilanismo e o terrorismo executados pelas pequenas criaturas que dão título ao longa. Winnie, porém, ironicamente, vai se transformar naquela que faz uma ponte entre a verdade sobre os Boxtrolls (e também sobre Ovo, o garoto criado pelos monstrinhos) e a realidade cega da população da cidade, amedrontada com a verdade absoluta de Archibald. É ela que irá ajudar Ovo a contar a verdade para o lorde e, com isso, também irá descobrir – por si só -, como o próprio pai não pode ser considerado um exemplo verdadeiro de paternidade.

E Ovo (dublado por Isaac Hempstead Wright – o Bran, de Game of Thrones), por fim, apesar de ser estruturalmente o protagonista d’Os Boxtrolls, acaba tornando-se uma das peças desse grande tabuleiro de xadrez. Isso não é um ponto negativo dentro da narrativa do filme, principalmente porque é ele quem vai simbolizar a busca por uma identidade. E é ele que irá dar uma das várias belas lições promulgadas pela animação: as coisas foram feitas para serem adereços, e não para definir o que as pessoas são ou vão tornar-se. Esse tapa com luva de pelica bate no rosto de um outro personagem, mas seu efeito é sentido por aqueles que estão na plateia, bisbilhotando o filme.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Esses núcleos funcionam em perfeita harmonia com as demais características do filme: a equipe responsável por The Boxtrolls toma todos os cuidados possíveis para entregar uma animação feita muito mais para adultos do que para o público infantil. É difícil, por exemplo, encontrar piadas de humor físico; elas estão lá, mas não para propriamente fazer rir. O que se encontra são gags inteligentes e muito bem adicionadas ao roteiro, dando um toque de sutileza e bom-senso ao longa, meio que dizendo “tomamos cuidado até para fazer piadas”. E esse cuidado acaba transformando uma breve história em algo muito maior, desde a parte imagética (a primeira tomada que mostra os Boxtrolls saindo dos esgotos é a sobreposição das sombras dos monstrinhos sobre um cartaz onde se lê “Cheesebridge”, como se a mensagem inicial dissesse “esses monstros nojentos e obscuros são os responsáveis por lançar uma sombra sobre nossa cidade) até detalhes nas falas das personagens (Archibald não manda seus vassalos atrás dos Boxtrolls com um “pegue-os!”, mas sim com um “adquira-os!”).

Por fim, todas as camadas na narrativa, que suscitam interpretações e simbolismos sem medidas, casam completamente com a estética já estabelecida pelo Laika, importando-se em mostrar personagens animados que não seguem padrões de animações fofinhas; o intuito aqui não é agradar os olhos por meio da modelagem facilitada de um computador, mas através do trabalho servil com a arte: as personagens e tudo o mais que se movimenta dentro dos quadros do filme são frutos do cuidado dos animadores – fato ironizado por um personagem na cena pós-créditos, obrigatória para todo cinéfilo e esclarecedora para os leigos. E esse cuidado irá transparecer em cada cena d’Os Boxtrolls, principalmente nos closes fechados nos rostos das personagens.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Se o filme não agradar completamente as crianças hoje, daqui alguns anos ele poderá ser assistido novamente com um novo olhar. E, daqui mais um longo tempo, as crianças que o viram pela primeira vez talvez sejam adolescentes ou adultos informados o suficiente para captar todas as mensagens e críticas que Os Boxtrolls tem na manga e fora dela. Isso, é claro, se essas pessoas não se deixarem levar pela manipulação de ideias e souberem discernir, individualmente, tudo aquilo que chega por meio de informações, imagens e textos. A ironia fina e final de Os Boxtrolls é essa: só entende as críticas feitas no filme aqueles que estão fora das rédeas mostradas como crítica no próprio filme.

Essa é a diferença abissal entre as animações dos estúdios Laika e um comercial e gratuito Alvin e os Esquilos, por exemplo.

Pôster: Ignition, 2014

Pôster: Ignition, 2014

The Boxtrolls, dirigido por: Graham Annable, Anthony Stacchi; escrito por: Irena Brignull, Adam Pava (baseado na obra Here Be Monsters!, de Alan Snow).

Originalmente com as vozes de: Isaac Hempstead Wright, Elle Fanning, Ben Kingsley, Jared Harris, Nick Frost, Richard Ayoade, Tracy Morgan.

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