Filmes

Magia ao Luar

Coube a Colin Firth a responsabilidade de assumir, em Magia ao Luar (Magic in the Moonlight, 2014), a persona que consolidou não só a figura de Woody Allen no cinema contemporâneo, mas também a carreira do cineasta, atualmente lançando um novo longa a cada ano. Esperar uma boa atuação de Firth não é se antecipar erroneamente; neste ponto, o novo filme de Allen está seguro. O que surpreende, porém, é a temática escolhida. Ou melhor, não só a temática, mas de que forma ela é conduzida.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

Belamente fotografado em locações da Riviera Francesa visivelmente escolhidas a dedo, Woody Allen primeiramente parece querer convidar o público para se ambientar não apenas aos seus novos personagens, mas, usando os cenários – sejam eles externos ou internos -, assentar um clima que evoca tanto a dúvida como mistério e fascinação, quanto como a preparação para uma derradeira realidade, brusca e aterradora como ela só. Afinal, observar o universo através da Lua e das estrelas mais brilhantes parece ser uma ideia romântica e reconfortante, mas analisá-lo cirurgicamente pela lente de um grande observatório pode revelar uma imensidão assustadora e, nas palavras de Stanley, o protagonista, “ameaçadora”. A dúvida, dessa forma, é manter-se na fria e dura realidade do cinismo quando ele se depara com uma provável nova charlatã que se auto-intitula médium ou, na melhor das hipóteses, ceder ao que todos parecem concluir: a bela e dócil Sophie (interpretada de forma leve e, ao mesmo tempo, impressionante, por Emma Stone) realmente possui um dom que a possibilita ver através das pessoas e se comunicar com aqueles que já faleceram.

Se os cenários contribuem para a fluidez do roteiro, a década de 20, juntamente com a trilha-sonora, vem colaborar para instituir a principal reflexão da história: nós, em nossa condição limitadamente humana, estamos propensos a sermos felizes apenas quando vivemos sob mentiras que nos confortam? Allen vai brincar com a questão brindando o público com diálogos inspirados entre Stanley e sua “antagonista”: desmascarar o provável (em sua opinião, claro) charlatanismo da moça é o objetivo para o qual seu amigo, Howard (interpretado por Simon McBurney), o convence a desistir de uma viagem para ir à França. Quando ambos se conhecem, a doçura e expressão facial etérea de Sophie entra em um choque delicioso com o semblante rabugento de Stanley – e é engraçado notar como o figurino de Colin Firth vai se alternando durante o filme: primeiramente sóbrio em seus ternos escuros à moda da época, Stanley vai se “clareando” conforme se rende aos encantos mágicos da médium, culminando, inclusive, em um traje leve e totalmente branco, em determinada cena, para logo depois voltar ao seu cientificismo monocromático. Esses detalhes vão sendo colecionados à medida que o filme corre, compondo núcleos temáticos que irão preencher com riqueza o longa.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

E, depois de ser aclamado por Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), criticado por Para Roma, Com Amor (To Rome with Love, 2012) e novamente aplaudido por Blue Jasmine no ano passado, Woody Allen volta a acertar seu bom e velho timing tanto para um tema bem manejado, como para a construção de personagens que seduzem a curiosidade do espectador, gerando um cena pós cena de diálogos que vão e voltam na comédia, no drama e no romance, criando uma sequência de acontecimentos dentro de uma história redondinha, mas que surpreende: a certo ponto, somos também convidados a criar uma nuvem pesada de dúvidas sobre nossas cabeças, assim como Stanley, fazendo com que tentemos desvendar os mistérios de Magia ao Luar e, ao mesmo tempo, nos rendamos ao conforto de aceitar as previsões e adivinhações de Sophie como dogmas confortáveis.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

O mais novo longa escrito e dirigido por Woody Allen é uma obra que não só diverte e emociona, como sugere reflexões ao público por meio de contrastes: Stanley é um mágico famoso, então seu dever é treinar os truques para que pareçam mágica; Sophie se diz médium, possui um dom – não precisa de uma disciplina laboral para impressionar quem a cerca. E enquanto Stanley deseja, mais do que tudo, provar para os outros que a moça não passa de uma farsa, Sophie faz questão de dizer, em certo momento, que há uns anos assistiu ao show de Stanley e ficou impressionada com sua performance… mas a crítica vem certo tempo depois: sua estupefação se desmoronou ao saber que as mágicas do ilusionista não passavam de truques, de simples treino para enganar os olhos das pessoas. Então quem é o mais errado nessa história toda: o mágico que ilude o público? Ou a médium que ilude o povo? Ou ninguém?

Woody Allen vai deixar essa pulga atrás de nossas orelhas.

Pôster: Gravier Productions, 2014

Pôster: Gravier Productions, 2014

Magic in the Moonlight, dirigido e escrito por: Woody Allen.

Com: Colin Firth, Emma Stone, Simon McBurney, Hamish Linklater, Eileen Atkins.

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