Filmes

Chef

Vivemos atualmente em uma sociedade que trabalha. Mais do que isso, uma sociedade que preza e cobra por trabalho. Desde crianças, somos acostumados (e até condicionados) a realizar trabalhos e alcançar objetivos: a professora ou professor do ensino fundamental que exige um trabalho escolar em grupo, o da faculdade que pede aquele seminário problemático para ser apresentado à frente de todos os colegas de sala. Aliás, faculdade é um dos objetivos mais almejados pelos jovens de hoje, e pode-se observar que a ânsia por terminar a escola e ingressar diretamente em um curso universitário torna-se cada vez maior, seja por pressão de familiares, da sociedade em torno do sujeito ou simplesmente pelas circunstâncias. As consequências que surgem dessas pressões podem vir a calhar em um momento crucial da vida de qualquer pessoa, levando-a a se questionar se sua escolha de formação acadêmica foi a correta ou, na pior das hipóteses, a melhor. Formar-se em uma faculdade, hoje, não quer dizer exatamente sucesso profissional e pessoal.

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Ao se ver Chef (2014), escrito e dirigido por Jon Favreau, essa é a primeira de várias reflexões que surge para o espectador. O diretor e roteirista também interpreta Carl Casper, um chef aclamado no passado por sua irreverência na criação de pratos próprios e que, atualmente, trabalha como responsável em um restaurante de bairro do controlador Riva (interpretado por Dustin Hoffman). Carl, certo dia, espera a visita de um famoso blogueiro gastronômico que irá saborear e, por consequência, avaliar seus pratos. Daí surge uma divisão de águas na vida do protagonista: ele, explodindo em criatividade, desejando criar novos pratos mais do que nunca, prefere mudar o menu costumeiro do restaurante para surpreender o convidado; seu chefe, ao contrário, não quer arriscar a reputação (boa e segura) do estabelecimento e ordena que Carl mantenha as coisas como estão. Bate-boca de um lado, luta de egos de outro, a situação acaba por culminar em uma decisão raivosa de Carl: se Riva deseja estabilidade, que faça bom proveito: ele se demite.

Divorciado e pai de um filho que não possui sua atenção, Carl vê-se em uma encruzilhada. Por um lado, sua criatividade pulsa constantemente, exigindo dele tempo, dedicação e isolamento do mundo e das pessoas a seu redor; por outro, a ex-mulher Inez (interpretada por Sofía Vergara) volta a insistir em um conselho: abra um food truck, seja seu próprio patrão, busque seus sonhos. A mensagem escondida também é, paradoxalmente, clara: dê atenção para as pessoas que gostam de você. Se Carl viajar de cidade em cidade, vendendo as próprias criações gastronômicas e, de quebra, conhecendo novas experiências – novos sabores -, ele também pode ter a chance de se conhecer e conhecer melhor seu filho, por exemplo. Discussão aqui, reflexões ali, Carl cede às investidas de Inez e cai na estrada.

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Chef, no entanto, não vai se limitar a dar breves e bonitas lições de vida, mostrando como o mundo é feito de oportunidades e como você, sendo espectador, pode também se identificar com a história e passar a buscar os próprios objetivos. Ele vai além ao criar núcleos de personagens com diversas características. Apesar da participação de Dustin Hoffman prezar por uma personagem plana, aquele que apenas vê o lado comercial da coisa e que almeja apenas estabilidade, o filme nos mostra, com bons exemplos cinematográficos, as relações entre pai e filho: em determinada sequência, Carl fica responsável por passar um tempo com o filho. Como o chef não tem tempo para esse tipo de coisa, à época, o filme faz questão de mostrar esse sentimento de desatenção ao resumir o dia pai-e-filho em quadros rápidos, com cortes métricos, em menos de dez segundos. É o filme dizendo que o filho não tem importância para a história, assim como não tem para Carl – mesmo que ele negue isso.

O filme também irá incluir, de forma interessante e bem aproveitada, a presença da tecnologia e as relações rápidas – e virais – que surgem com a Internet: é o blogueiro que critica os pratos, criando uma repercussão gigantesca e irrefreável, é o Twitter que irá auxiliar tanto na queda, como na ascensão de Carl (e as animações dos tweets sendo enviados, na forma de um pequeno pássaro azul que bate asas para fora das cenas são simples, pensadas na medida certa), é o filho que, ao ser aceito finalmente como filho pelo pai, ajuda seu novo negócio ao viralizá-lo através do Twitter, do Facebook, do Vine e de tantas outras redes sociais que disseminam informação em questão de segundos. A associação, então, entre a itinerância da food truck de Carl – aquela que constantemente se muta, se muda e se faz presente em um lugar, ao passo que dali um tempo já não o é mais – e a onipresença da Internet impulsiona o ritmo e a fluidez do roteiro, trazendo o espectador para perto e segredando em seu ouvido: viu, as coisas na vida tem seus enroscos, mas você pode analisar melhor a situação e escrever um objetivo novo.

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Afinal, a proposta de Chef parece ser além de apenas um filme food porn, dedicado a encher nossos olhos com uma fotografia ginecológica em diversos pratos culinários e gastronômicos – mas sim, claro, ele também faz esse papel, ou não haveria propósito -; o filme dirigido por Jon Favreau também quer mostrar aos duvidosos em relação à sua formação, escola, trabalho, vida, enfim, àqueles que se encontram segurando uma faca de dois gumes como Carl se encontrou, que obter determinação é um caminho tortuoso, recheado de conflitos e temperado com alfinetadas. Porém, se o foco é claro e a determinação é conseguida, servir um bom prato não só aos outros, mas também a si mesmo, torna-se um grand finale para qualquer um, independente das escolhas que cozinharam no caminho até aqui.

Pôster:  InSync + BemisBalkind, 2014

Pôster: InSync + BemisBalkind, 2014

Chef, dirigido e escrito por: Jon Favreau.

Com: Jon Favreau, John Leguizamo, Emjay Anthony, Sofía Vergara, Oliver Platt, Dustin Hoffman, Scarlett Johansson, Robert Downey Jr.

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