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O Homem Duplicado

“O caos é uma ordem por decifrar.”

Imagem: Mecanismo Films, 2013

Imagem: Mecanismo Films, 2013

A já conhecida citação, de autoria do escritor português José Saramago, abre o filme do canadense Dennis Villeneuve de forma a preparar o público para a sucessão de imagens que o diretor escolhe para o início de O Homem Duplicado (Enemy, 2013). Um clube de voyeurismo, uma mulher nua prestes a esmagar uma aranha, uma gestante (também nua) sentada em uma cama. É um caos que desafia o espectador a entender o que cada corte significa, o que cada cena importa para a trama que irá se desenrolar, enrolando-nos.

E a primeira característica que se mostra é sua fotografia. Enemy retrata o interior de cômodos fechados, pequenos e claustrofóbicos, como o apartamento do protagonista, o quarto de hotel ou o próprio clube mostrado no começo da projeção, em contraste com os planos abertos que contemplam o perfil da metrópole da história – mas que ainda é, a seu modo, claustrofóbica, sempre carregada com nuvens pesadas, poeira e poluição; e esses elementos ressaltam ainda mais conforme o diretor de fotografia, Nicolas Bolduc, resolve suplantar as imagens sob um amarelo desértico, poeirento e sufocante. É um modo de dizer ao espectador que nada ali será confortável.

Imagem: Mecanismo Films, 2013

Imagem: Mecanismo Films, 2013

As personagens são prova disso. Enquanto Jake Gyllenhaal anda empertigado e desconfiado como um gato quando interpreta Adam, o professor de História, ou quando explode em auto-confiança (uma insegurança por si só, diga-se de passagem) ao encarnar o aspirante a ator Anthony, Mélanie Laurent (a Shosanna de Bastardos Inglórios, 2009), sua namorada, transmite com os próprios olhos a insegurança que sente em relação ao namoro que mantém com o protagonista. O mesmo ocorre com Helen, a esposa do ator Anthony, interpretada na medida certa por Sarah Gadon. Combinando, então, a sensação de desconforto que vem das imagens, contanto aí a montagem e a fotografia, com a composição de personagens – nenhuma está satisfeita com suas respectivas vidas –, tem-se o clima de constante tensão resultante dessa soma ingrata. A economia de personagens, inclusive, é um fator que colabora, e muito, para o andar da trama.

E se a história principal nos lembra de filmes sobre o duplo, como o famoso Cisne Negro, naquela já batida trama do protagonista que não sabe se ele é um ou mais pessoas, Villeneuve faz questão de entregar um filme caótico, seguindo a regra principal de Saramago, fonte sábia e segura para o roteiro de Javier Gullón. Mas caótico, deve-se frisar, não no sentido negativo, promovendo mais confusão no público, e sim na forma de provocar reflexões naqueles que o assistem com cuidado, querendo entender – de verdade – as pistas e o simbolismo que preenchem as tomadas de O Homem Duplicado. Porque assisti-lo esperando que as respostas surjam de maneira mastigada é invariavelmente rotulá-lo de filme “sem sentido”, no mínimo. E esse é o último, senão inexistente, resultado que Villeneuve, sua equipe e o elenco trabalham com muito êxito para compor um filme que não debate apenas a dúvida crucial de Adam / Anthony sobre a dualidade do ser, mas também sobre suas vontades reprimidas e as decorrentes reações que surgem a partir do momento em que tais vontades são atendidas.

Imagem: Mecanismo Films, 2013

Imagem: Mecanismo Films, 2013

Há, aí, por fim, a aranha. Ah, a aranha. Em três momentos cruciais ela aparece (pode-se contar um quarto, de forma indireta, quando o carro sofre um acidente brutal e o vidro do acompanhante trinca, criando a ilusão óbvia de uma teia cuidadosamente artesanal), e para os desavisados ou desacostumados com esse tipo “caótico” de cinema, ela irá trazer mais reações negativas, dando a certeza para esse espectador de que o filme realmente não possui sentido algum. Mas não. Nada é gratuito em O Homem Duplicado, nem mesmo a imagem – ou o símbolo, se preferir – da aranha. O mesmo se dá para os diversos planos que Dennis Villeneuve recorre para surtir reações, como o que compõe a tomada aérea que espia um grande edifício, criando uma ilusão desconfortante, ou o talvez melhor apresentado na trama: em um dos sonhos (ou pesadelos) do protagonista, o diretor fixa a câmera no teto, acompanhando uma mulher nua, esguia e sensual, mas que possui um rosto aracnídeo. Terrível e completamente eficaz para os significados e simbolismos da história.

Imagem: Mecanismo Films, 2013

Imagem: Mecanismo Films, 2013

Se O Homem Duplicado responde às questões triviais impostas pela própria trama, cabe a cada espectador procurar pelas pistas – e são muitas – e tentar decifrá-las. Ao final, esses detalhes, claro, importam, mas não estão acima da experiência estética que Dennis Villeneuve apresenta através de suas trucagens cinematográficas. A duração mediana de noventa minutos ajuda a condensar de maneira prática os vários elementos dispersos no caos, mas torna-se suficiente para se ter uma ordem e, consequentemente, conseguir decifrar o que tudo ali quer dizer. Ou, pelo menos, a sua maioria.

Pôster: Mecanismo Films, 2013

Pôster: Mecanismo Films, 2013

Enemy, dirigido por: Dennis Villeneuve; escrito por: Javier Gullón (baseado na obra O Homem Duplicado, de José Saramago)

Com: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini.

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Guardiões da Galáxia

Nos anos 90, Joel Schumacher foi responsável por destruir o legado de Batman nos cinemas. Trazendo à tona o Homem-Morcego em dois filmes, o diretor apresentou filmes sem um pingo de seriedade, repleto de cores e mamilos em placas peitorais (sem contar os constrangedores closes nas regiões pélvicas dos heróis enquanto estes mudavam de roupa). Alavancando as vendas dos bonecos licenciados após o lançamento de Batman EternamenteBatman & Robin, Schumacher foi alvo dos fãs até Batman ser resgatado na década seguinte por Christopher Nolan. Construindo um personagem praticamente “novo” no cinema, Nolan acreditava que aquela fase colorida e engraçadinha de um dos heróis mais famosos da DC Comics precisava ser revista, compondo uma nova trilogia realista, introspectiva e sombria. O que nos traz a esse novo exemplar de filme baseado em uma HQ. A pergunta que pode pairar sobre nossas cabeças após uma sessão de Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014) é: por que Guardiões da Galáxia, assim como os dois Batman de Joel Schumacher, não é sério e, mesmo assim, funciona?

Dirigido por James Gunn, que também escreveu o roteiro (ao lado de Nicole Perlman), o novo filme dos estúdios Marvel realmente não se leva a sério. A sua primordial diferença com os Batman felizes de Schumacher é essa. Ao contrário destes, que pretendiam ser um filme íntegro, destacando as qualidades heróicas e nobres de Batman, Guardiões da Galáxia foi feito baseado na piada. A cena que mostra os créditos iniciais já preconiza isso: enquanto entra em um lugar totalmente sombrio e ameaçador, composto por paredões rochosos escuros e pouca luz natural, o protagonista Peter Quill (interpretado por Chris Pratt) coloca fones de ouvido, aperta o play de um velho Walkman, e dança. Dança em um lugar que dá dicas, desde o início, de que algo ali vai dar errado. A música que toca nos fones de Peter preenche a tela também como trilha-sonora, enfatizando ainda mais essa quebra de imagem: enquanto vemos o protagonista se infiltrar cada vez mais entre as cavernas do lugar em busca de um artefato valioso, ao mesmo tempo não nos preocupamos com algum tipo de risco, pois a música pop oitentista tocando alegremente não permite um desconforto.

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

E essa ideia vai se repetir por todo o longa, mostrando cada vez mais cenas que vão contra qualquer tipo de seriedade. Aí, portanto, reside o triunfo de Guardiões da Galáxia. Diferentemente de outros filmes, fazer piada de si mesmo e de todas as situações envolvidas faz parte de sua estrutura e história, apresentando para o público um grupo de personagens principais que são desajustados com os outros e com eles mesmos. É daí, portanto, que virão todas as cenas com piadas promovidas pelo uso de cortes (como na cena da fuga da prisão, quando acompanhamos o guaxinim Rocket estraçalhar inimigos com sua arma e, após um corte milimetricamente pensado, vemos Peter tentar convencer um colega presidiário a lhe entregar sua perna mecânica), ou através do próprio visual (enquanto personagens conversam no primeiro plano, outro faz, em segundo plano, exatamente o que os primeiros dizem para não ser feito).

Essa atmosfera de brincadeira também é reafirmada com o design de produção, compondo lugares, paisagens e imagens com muitas cores fortes – até berrantes, em alguns casos -, fazendo com que essa característica esteja presente desde os detalhes dos espaços, até a composição dos próprios personagens. Aliada ao design, a fotografia irá prezar por enquadramentos que expõem essas imagens coloridas, fazendo jus aos grandes filmes de aventura e ficção científica (sim, Star Wars). Aliás, o quinteto principal lembra muito os antológicos personagens criados por George Lucas, influência que se nota desde o material de divulgação – o pôster que mostra os protagonistas evoca imediatamente o do primeiro Star Wars, com laser saindo das armas e as posições de combate dos heróis em destaque, todos em um cenário cósmico.

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

Tanto seu design, quanto sua fotografia não completariam a experiência se o elenco não estivesse afinado com seus respectivos personagens. A escolha de Chris Pratt para encabeçar Guardiões da Galáxia foi certeira: criando um Peter Quill engraçado (e desajustado ao mesmo tempo), Pratt é dono das melhores piadas do roteiro, apenas perdendo, de quando em quando, para Rocket e seu humor ranzinza. Aliás, a produção está de parabéns pela computação gráfica empregada ao criar o guaxinim, extremamente realista e assustadoramente humano na tela. Seu companheiro desde início, o humanóide / planta Groot é responsável pelo humor físico do filme – não seria um blockbuster de verão estadunidense sem humor físico para as criancinhas -, enquanto a perigosa e escorregadia Gamora (interpretada por Zoe Saldana) traz mais uma forte personagem feminina que não se deixa levar por embalos amorosos. O guaxinim Rocket foi dublado por Bradley Cooper, assim como Vin Diesel emprestou a voz para Groot (seu melhor papel até então, afinal, ele fala menos de dez palavras o filme todo), singelos detalhes que se perdem com uma sessão dublada, mesmo que o trabalho dos dubladores brasileiros seja ótimo e todos aqueles mesmos argumentos de sempre que vão tentar nos convencer de que a dublagem é a melhor opção para uma sessão de cinema…

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

Mas não, Guardiões da Galáxia não é só êxito, e devo apontar aqui duas coisas que incomodam demais no filme (principalmente se você assiste filmes atentando-se aos detalhes): em uma determinada cena, Rocket desliga a gravidade do ambiente para salvar a pele dos protagonistas, e isso fica óbvio e claro para qualquer ser humano que está ali, assistindo a cena. No entanto, o roteiro dá uma escorregada e obriga Gamora a dizer “ele desligou a gravidade lá fora, menos aqui dentro!”. Outra falha é a caracterização de Ronan, o vilão. Possuindo uma voz extremamente grave e carregando um semblante sempre sério ou contorcido por ódio, o vilão de Guardiões da Galáxia dá sono em qualquer pessoa: é mais um daqueles clássicos vilões que querem dominar / destruir o mundo e acabar com a alegria da moçada. Sua voz grave e seus trejeitos podem até lembrar vagamente Darth Vader, mas Ronan está longe de se tornar um vilão que se transforme em um ícone da cultura pop. Mesmo com esse personagem totalmente plano na contramão dos protagonistas, o filme se dá o direito de zoar com a cara de Ronan em diversos momentos, alcançando seu ápice de despreendimento com qualquer tipo de seriedade em uma cena específica, ao final da projeção, quando Peter decide distrair o vilão e acaba compondo uma das cenas mais hilárias de Guardians of the Galaxy.

Se a intenção é assistir ao filme esperando um realismo cru e depressivo de uma trilogia The Dark Knight, por exemplo, a melhor opção é se afastar de Guardiões da Galáxia. O filme é sim divertido e merece uma conferida, mas apenas se você se desprender de qualquer seriedade. Afinal, estamos falando de um filme que quer trazer de volta a sensação de ler uma história em quadrinhos leve e engraçada. A diferença, no entanto, que faz de Guardiões da Galáxia um bom filme, é que não deixaram de lado a sua estrutura, muito menos se descuidaram na composição de personagens e na introdução de um novo universo, que desde já é muito bem-vindo.

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

Nota: há duas cenas adicionais após o final, uma no meio e outra no fim dos créditos. A primeira é super engraçada e a segunda revela uma surpresa. Não deixe de conferi-las!

Pôster: BLT Communications, 2014

Pôster: BLT Communications

Guardians of the Galaxy, dirigido por: James Gunn; escrito por: James Gunn, Nicole Perlman.

Com: Chris Pratt, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Dave Bautista, Vin Diesel, Michael Rooker, Benicio Del Toro.

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