Livros

A Dança dos Dragões

Nota preliminar acerca de possíveis SPOILERS: para todos aqueles que acompanham, mesmo que superficialmente, o furor que As Crônicas de Gelo e Fogo se tornaram ao longo dos anos – principalmente com a popularização da série televisiva Game of Thrones -, não é novidade encontrar revelações importantes e cruciais sobre o enredo dessa história épica e interminável em qualquer canto da Internet. Portanto, não é possível escrever uma resenha a contento sobre o último livro publicado por George R. R. Martin sem comentar passagens que provavelmente você ainda não sabe, caso ainda esteja perambulando por Westeros.

Dado o aviso, continue lendo o texto por sua conta e risco.

Se o ápice da megalomaníaca série criada pelo escritor americano George R. R. Martin acontece em seu terceiro volume, A Tormenta de Espadas, e, logo depois, vem o marasmo de narração em O Festim dos Corvos, este quinto volume de As Crônicas de Gelo e Fogo surge como uma promessa distante no horizonte para os fãs do jogo de tronos mais sanguinário já visto na literatura fantástica como aquele que traria a emoção e o roer de unhas constantes causados pela tensão crescente desde quando Lorde Eddard Stark preconizou que o inverno estava chegando, lá no primeiro livro. A impressão final, porém, não é essa.

Talvez seja por seu tamanho – a edição brasileira tem mais de 800 páginas -, talvez seja justamente pelo desenrolar dos fatos e consequências, A Dança dos Dragões é sim uma narrativa mais dinâmica e propensa a surpresas do que a sua anterior: O Festim dos Corvos, focando a atenção em personagens menos interessantes, apesar de ter ali pontos de vistas novos na série, como os de Jamie e Cersei Lannister, acabou diminuindo a velocidade da narração mostrada em A Tormenta de Espadas, apresentando acontecimentos necessários à história, mas desinteressantes em sua maioria. Mas estendendo tanto o enredo neste quinto volume, George Martin mais uma vez deixa as reviravoltas e segredos revelados para as últimas páginas, preparando (ou seria torturando?) seus leitores, em busca de alguma ação memorável, durante centenas de páginas, até finalmente dar alguma centelha do que a série um dia mostrou: seu poder de desarmar o leitor e cuspir em sua cara, provando que nós, aqueles que acompanham as peripécias de Westeros, realmente não fazemos a menor ideia de quem estará vivo até o fim de cada livro.

O projeto do autor, no entanto, era diferente. Quando finalizou o terceiro livro, George Martin iniciou a escrita do seguinte e, depois de um bom tempo na labuta, percebeu que a história tinha criado tentálucos gigantescos demais para caber em um único volume. Após uma conversa decisiva com seus editores – que enfatizaram a impossibilidade de publicar um livro tão extenso -, o escritor botou um ponto final no lenga-lenga e concluiu que a melhor decisão seria dividir a história em duas: portanto, o quarto livro focaria em personagens alocados em Porto Real e seus arredores, além de Dorne, e o quinto volume contaria, simultaneamente ao anterior, o que acontecera na Muralha, com Jon Snow, e na Baía dos Escravos, com Daenerys Targaryen; além, é claro, de mostrar para onde fora e o que acontecera com Tyrion Lannister, um dos personagens mais cultuados entre os fãs dos livros e de Game of Thrones. Foi nessa época, então, que os fãs mais ardilosos criaram a fama de velho-lerdo-e-torturador para o autor, incriminando-o por demorar tanto em sua escrita e acusando-o de não se importar com a espera longuíssima dos fãs pelo próximo livro d’As Crônicas. George Martin seguiu com sua decisão e, após seis anos a publicação de O Festim dos Corvos, publicou finalmente A Dance with Dragons.

Se o livro atende às expectativas? Provavelmente sim. Com o seu estilo de escrita detalhado, George Martin não se acanha em contar para o leitor o que cada personagem vai comer naquele determinado dia. Então, como nos livros anteriores, as descrições longas e detalhadas de cada banquete continuam da mesma forma, assim como a composição de cenários, mostrando o que há em cada canto de uma construção ou qual é o tipo de vegetação encontrada em determinado local onde um personagem acaba caindo. A ação, porém, está de volta por mais vezes, superando a paradeira de O Festim dos Corvos, mas devendo para o turbilhão de acontecimentos e choques de A Tormenta de Espadas. Para chegarmos em um momento como esses, é preciso passar por muitos capítulos, a maioria deles apresentando finais comuns e, alguns, até desestimulantes. Não que o livro deveria ser uma sucessão sem fim de traições, guerras, assassinatos e vira-casacas sendo revelados a cada segundo e, sim, é preciso também contar quais são os caminhos percorridos por cada núcleo de personagens antes de alguma consequência crucial acontecer, ou leríamos apenas uma narração de ações prontas, e não preparadas cuidadosamente ao longo da história. O problema principal de A Dança dos Dragões não é esse, mas sua extensão. Como exemplo, há os capítulos reservados para Arya Stark. Ela passa por diversos testes e situações completamente desinteressantes. Quando se termina o livro, a indagação vem: será que tudo isso lido será importante lá na frente? Ou será que George Martin apenas encheu linguiça pra dar volume?

Algo parecido ocorre com outros personagens: apesar de apresentarem situações importantes e visivelmente cruciais para o desenvolvimento do enredo de cada um, os capítulos de Tyrion, por exemplo, mostram como ele ainda é um dos personagens (senão o mais, depois de Tywin Lannister, que os deuses o tenham) mais inteligentes na série, precisando apenas de sua lábia para conseguir aquilo que os demais precisam conquistar com espadas e sangue. Apesar disso, o leitor precisa passar por 800 páginas e ainda se indagar, depois, se muito do que foi dito sobre o anão foi necessário para o desfecho no final das contas.

Mas, se A Dança dos Dragões possui virtudes, uma delas com certeza é Daenerys Targaryen. Forte, destemida e benevolente, a mãe dos dragões mostra mais uma vez que não está para brincadeiras e prova, a cada capítulo, que está altamente determinada a conquistar os Sete Reinos. Outro ponto interessante deste volume é que ele se dedica a mostrar os bastidores de personagens menores, como os repulsivos Bolton e os lordes de Porto Branco, outro veio menor da história que poderá trazer surpresas interessantes nos próximos livros. Para aqueles curiosos em saber o lado da história da feiticeira vermelha Melisandre, A Dance with Dragons também separa um tempo para demonstrar a inteligência e a perspicácia da personagem, além de revelar segredos pequenos, mas interessantes, sobre ela, demonstrando que nem tudo o que se vê é realmente mágico.

Para o próximo livro, como sempre, a expectativa vai crescendo com o tempo de escrita de George R. R. Martin. Ao fim de A Dança dos Dragões, o leitor vai contar – pela quinta vez na série – com um final repleto de pontas soltas, que poderão ser amarradas nos acontecimentos do ainda inédito Os Ventos do Inverno. Ou não, se George Martin decidir estender mais ainda o enredo e torturar mais um pouco aqueles que ousam se aventurar por Westeros e todos os outros lugares criados por esse brilhante autor, mas que, com o tempo, fica cada vez mais ambicioso e megalomaníaco por quantidade de páginas, detalhes e história. É melhor sentar para não se cansar esperando.

Um adendo: a LeYa Brasil decidiu, a partir deste livro, mudar a tradução. Até O Festim dos Corvos, a editora havia comprado os direitos da ótima tradução do português Jorge Candeias. Agora, porém, o quinto e os livros restantes da série estão nas mãos de Márcia Blasques. É preciso avisar que sua tradução é imensamente inferior à de Candeias, demonstrando que a tradutora não teve o cuidado de conciliar os termos do original com os de nosso português, muitas vezes afirmando, com as palavras de George Martin, que existem cortinas persianas em Westeros, por exemplo, conferindo uma irrealidade para o mundo fictício do livro. A revisão da editora, inclusive, é péssima: muitos erros de digitação, com letras trocadas e falas de personagens que deveriam ter sido jogadas para baixo, mas ficaram em cima, junto com outra fala (confundindo a ordem do diálogo e, consequentemente, o entendimento do leitor) são apenas alguns dos vários exemplos encontrados nas 800 páginas do livro. Mais dedicação e profissionalismo nos próximos volumes não seria uma má ideia para a tradutora e para a editora. Os leitores agradecerão.

Capa: Marc Simonetti

Capa: Marc Simonetti

A Dance with Dragons, de George R. R. Martin. Publicado pela LeYa.

Tradução de Márcia Blasques, 870 páginas.

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