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Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Em 2010, o diretor e roteirista Daniel Ribeiro lançou o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, contando a história de um garoto cego que descobre, de forma singela, a sua sexualidade. Ribeiro tratou o tema com naturalidade e cuidado raros no cinema brasileiro, conquistando fãs e boas críticas, além de muitos prêmios. Não fosse apenas o seu bom trabalho, o curta ainda revelou talentos jovens em seus respectivos papéis. Quatro anos depois, o curta transformou-se em longa, expandindo a história do garoto Leonardo e de seus amigos, encorpando mais uma simples história de amor adolescente. Simples, mas não ingênua.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

O que se vê, então, em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, é uma ampliação da história de Leonardo. Não podendo enxergar desde que nasceu, o garoto consegue realizar suas tarefas de maneira normal, precisando de auxílio para apenas algumas coisas, tendo aí ajuda de sua melhor amiga, Giovana. Sua rotina na escola e em sua casa segue normalmente até um novo aluno chegar, Gabriel. A partir daí, Leonardo passa a experimentar as sensações da adolescência: a impaciência por uma independência própria, questionamentos sobre seu futuro, possibilidades de viajar para o exterior para fugir das pessoas conhecidas e, claro, o amor. A chegada do novo colega também serve de base para balançar a velha amizade do protagonista com Giovana, que nutre um amor pelo amigo e que o vê cada vez mais distante por causa de Gabriel.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

O grande trunfo de Daniel Ribeiro ao registrar esses momentos tão conhecidos por qualquer um que passou pela adolescência (ou que ainda está passando) é a forma como trata seus personagens: não existe ingenuidade ou maniqueísmo nas relações apresentadas, fato demonstrado na cena em que o protagonista conta para os pais o seu desejo de fazer intercâmbio e, imediatamente, percebemos que, enquanto a mãe nega veementemente a possibilidade por causa da deficiência visual do filho, seu pai tenta apaziguar os ânimos que afloram com a discussão e, mais tarde, em uma outra cena muito bem dirigida e composta, decide conversar racionalmente com seu filho, perguntando antes o porquê de Leonardo querer ir para outro país, conseguindo um resultado totalmente diferente da discussão anterior. É nesse ritmo que o diretor e roteirista guia a história para os espectadores, demonstrando que não é preciso baixar ao nível do dramalhão para conseguir um bom enredo ou boas atuações. Homeopático também em sua trilha sonora, o filme deixa os momentos certos para as músicas certas, apresentando momentos importantes com uma trilha que abrange Belle and Sebastian, Cícero, David Bowie, Beethoven, Bach e Tchaikovsky.

Outro mérito do filme são seus atores. É nítido na tela que Ghilherme Lobo, que interpreta o protagonista, passou por uma composição de personagem muito intensa, apresentando um Leonardo convincente não apenas em relação aos olhos que não enxergam (é possível desconfiar do ator, às vezes não sabemos realmente se ele está atuando ou se é cego de verdade), mas principalmente com as reações e trejeitos adolescentes: o questionamento e indignação com o tratamento superprotetor dos pais, a insegurança e tristeza em relação ao sentimento amoroso que passa a nutrir… o mais envolvente em sua atuação é a capacidade de exprimir, através dos olhos, ao mesmo tempo, uma deficiência e uma sensação física, algo que com toda a certeza poucos atores seriam bem sucedidos tentando.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Para Tess Amorim, que interpreta a melhor amiga Giovana, ficou a responsabilidade de evocar as melhores piadas e alívios cômicos do longa; é impossível não sorrir ou rir da forma como a garota trata praticamente todos os colegas de sala, que considera de pessoas estúpidas para baixo: as cenas em que “conversa” com o cão da colega Karina e quando descreve para Leonardo o que a menina está fazendo para “conquistar” a atenção de Gabriel são cenas gostosas e divertidas, conferindo um ponto positivo a mais no roteiro. Já Fabio Audi, apesar de mostrar um Gabriel um tanto quanto inseguro no começo (é preciso se mostrar de tal maneira, afinal, entrar em uma escola totalmente nova não é algo fácil para um criança, ainda menos para um adolescente), seu personagem vai se desenvolvendo junto com os demais de maneira natural, ao mesmo tempo dando para Leonardo um escape de seus questionamentos (quando ambos saem escondidos, pela madrugada, para ver um eclipse) e transformando alguns momentos em quase oníricos (a cena da dança e uma cena principal ao final da projeção). O mesmo serve para os personagens secundários, como o engraçadinho da turma, Fabio, responsável por fazer piadas constantes com a deficiência visual de Leonardo e, depois, com sua aproximação com Gabriel, e também para os pais de Leo, interpretados na medida certa, sem exageros e dramatizações desnecessárias, por Lucia Romano e Eucir de Souza. Talvez a decisão do diretor de escalar atores totalmente desconhecidos pelo público ajude muito na soma final, não abrindo expectativas positivas ou negativas diante de rostinhos conhecidos.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

A metáfora

Se para Daniel Ribeiro compor Leonardo como um adolescente cego foi arbitrário ou não, o fato é que, ao assistirmos Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, a deficiência visual do protagonista transforma-se em uma bela metáfora. Em nenhum momento do longa é erguida qualquer bandeira social. Leonardo, ao entender que está gostando do colega de sala, não se importa em se questionar ou se sentir mal e excluído por ter se apaixonado por alguém do mesmo sexo que o seu. Suas preocupações, como para qualquer adolescente, são naturais e óbvias: será que Gabriel sente alguma coisa por ele também? Ou será que ele está realmente ficando com a piriguete da sala? Essa dúvida, inclusive, é retratada em uma bem pensada sequência de sonho que o protagonista tem. São composições realizadas por Ribeiro que enriquecem a trama e também a expressão do filme em si, através de cenas bem compostas (como a que apresenta Gabriel, fazendo a ligação de sua voz com o ouvido do protagonista, em um plano sintético, mas elegante; assim como a simetria da cena do beijo no vidro do box do banheiro e aquela que mostra o beijo em si).

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Em suma, o cinema nacional precisa de mais exemplares como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Não é preciso forçar a barra para apresentar uma história. Não é preciso recorrer ao drama fácil para defender uma causa. Não é preciso de efeitos especiais milaborantes e atores famosos para provar que o roteiro funciona. É preciso entregar a história para atores que visivelmente abracem seus personagens, criando um filme que mostre a verdadeira estupidez que é o preconceito e a rejeição sexual, demonstrando-a de forma simples e singela. Se os próximos longas de Daniel Ribeiro continuarem nessa linha, teremos mais um profissional da área para admirar e homenagear nos anos que virão.

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, dirigido e escrito por: Daniel Ribeiro.

Com: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano, Eucir de Souza, Pedro Carvalho, Isabela Guasco.

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A Dança dos Dragões

Nota preliminar acerca de possíveis SPOILERS: para todos aqueles que acompanham, mesmo que superficialmente, o furor que As Crônicas de Gelo e Fogo se tornaram ao longo dos anos – principalmente com a popularização da série televisiva Game of Thrones -, não é novidade encontrar revelações importantes e cruciais sobre o enredo dessa história épica e interminável em qualquer canto da Internet. Portanto, não é possível escrever uma resenha a contento sobre o último livro publicado por George R. R. Martin sem comentar passagens que provavelmente você ainda não sabe, caso ainda esteja perambulando por Westeros.

Dado o aviso, continue lendo o texto por sua conta e risco.

Se o ápice da megalomaníaca série criada pelo escritor americano George R. R. Martin acontece em seu terceiro volume, A Tormenta de Espadas, e, logo depois, vem o marasmo de narração em O Festim dos Corvos, este quinto volume de As Crônicas de Gelo e Fogo surge como uma promessa distante no horizonte para os fãs do jogo de tronos mais sanguinário já visto na literatura fantástica como aquele que traria a emoção e o roer de unhas constantes causados pela tensão crescente desde quando Lorde Eddard Stark preconizou que o inverno estava chegando, lá no primeiro livro. A impressão final, porém, não é essa.

Talvez seja por seu tamanho – a edição brasileira tem mais de 800 páginas -, talvez seja justamente pelo desenrolar dos fatos e consequências, A Dança dos Dragões é sim uma narrativa mais dinâmica e propensa a surpresas do que a sua anterior: O Festim dos Corvos, focando a atenção em personagens menos interessantes, apesar de ter ali pontos de vistas novos na série, como os de Jamie e Cersei Lannister, acabou diminuindo a velocidade da narração mostrada em A Tormenta de Espadas, apresentando acontecimentos necessários à história, mas desinteressantes em sua maioria. Mas estendendo tanto o enredo neste quinto volume, George Martin mais uma vez deixa as reviravoltas e segredos revelados para as últimas páginas, preparando (ou seria torturando?) seus leitores, em busca de alguma ação memorável, durante centenas de páginas, até finalmente dar alguma centelha do que a série um dia mostrou: seu poder de desarmar o leitor e cuspir em sua cara, provando que nós, aqueles que acompanham as peripécias de Westeros, realmente não fazemos a menor ideia de quem estará vivo até o fim de cada livro.

O projeto do autor, no entanto, era diferente. Quando finalizou o terceiro livro, George Martin iniciou a escrita do seguinte e, depois de um bom tempo na labuta, percebeu que a história tinha criado tentálucos gigantescos demais para caber em um único volume. Após uma conversa decisiva com seus editores – que enfatizaram a impossibilidade de publicar um livro tão extenso -, o escritor botou um ponto final no lenga-lenga e concluiu que a melhor decisão seria dividir a história em duas: portanto, o quarto livro focaria em personagens alocados em Porto Real e seus arredores, além de Dorne, e o quinto volume contaria, simultaneamente ao anterior, o que acontecera na Muralha, com Jon Snow, e na Baía dos Escravos, com Daenerys Targaryen; além, é claro, de mostrar para onde fora e o que acontecera com Tyrion Lannister, um dos personagens mais cultuados entre os fãs dos livros e de Game of Thrones. Foi nessa época, então, que os fãs mais ardilosos criaram a fama de velho-lerdo-e-torturador para o autor, incriminando-o por demorar tanto em sua escrita e acusando-o de não se importar com a espera longuíssima dos fãs pelo próximo livro d’As Crônicas. George Martin seguiu com sua decisão e, após seis anos a publicação de O Festim dos Corvos, publicou finalmente A Dance with Dragons.

Se o livro atende às expectativas? Provavelmente sim. Com o seu estilo de escrita detalhado, George Martin não se acanha em contar para o leitor o que cada personagem vai comer naquele determinado dia. Então, como nos livros anteriores, as descrições longas e detalhadas de cada banquete continuam da mesma forma, assim como a composição de cenários, mostrando o que há em cada canto de uma construção ou qual é o tipo de vegetação encontrada em determinado local onde um personagem acaba caindo. A ação, porém, está de volta por mais vezes, superando a paradeira de O Festim dos Corvos, mas devendo para o turbilhão de acontecimentos e choques de A Tormenta de Espadas. Para chegarmos em um momento como esses, é preciso passar por muitos capítulos, a maioria deles apresentando finais comuns e, alguns, até desestimulantes. Não que o livro deveria ser uma sucessão sem fim de traições, guerras, assassinatos e vira-casacas sendo revelados a cada segundo e, sim, é preciso também contar quais são os caminhos percorridos por cada núcleo de personagens antes de alguma consequência crucial acontecer, ou leríamos apenas uma narração de ações prontas, e não preparadas cuidadosamente ao longo da história. O problema principal de A Dança dos Dragões não é esse, mas sua extensão. Como exemplo, há os capítulos reservados para Arya Stark. Ela passa por diversos testes e situações completamente desinteressantes. Quando se termina o livro, a indagação vem: será que tudo isso lido será importante lá na frente? Ou será que George Martin apenas encheu linguiça pra dar volume?

Algo parecido ocorre com outros personagens: apesar de apresentarem situações importantes e visivelmente cruciais para o desenvolvimento do enredo de cada um, os capítulos de Tyrion, por exemplo, mostram como ele ainda é um dos personagens (senão o mais, depois de Tywin Lannister, que os deuses o tenham) mais inteligentes na série, precisando apenas de sua lábia para conseguir aquilo que os demais precisam conquistar com espadas e sangue. Apesar disso, o leitor precisa passar por 800 páginas e ainda se indagar, depois, se muito do que foi dito sobre o anão foi necessário para o desfecho no final das contas.

Mas, se A Dança dos Dragões possui virtudes, uma delas com certeza é Daenerys Targaryen. Forte, destemida e benevolente, a mãe dos dragões mostra mais uma vez que não está para brincadeiras e prova, a cada capítulo, que está altamente determinada a conquistar os Sete Reinos. Outro ponto interessante deste volume é que ele se dedica a mostrar os bastidores de personagens menores, como os repulsivos Bolton e os lordes de Porto Branco, outro veio menor da história que poderá trazer surpresas interessantes nos próximos livros. Para aqueles curiosos em saber o lado da história da feiticeira vermelha Melisandre, A Dance with Dragons também separa um tempo para demonstrar a inteligência e a perspicácia da personagem, além de revelar segredos pequenos, mas interessantes, sobre ela, demonstrando que nem tudo o que se vê é realmente mágico.

Para o próximo livro, como sempre, a expectativa vai crescendo com o tempo de escrita de George R. R. Martin. Ao fim de A Dança dos Dragões, o leitor vai contar – pela quinta vez na série – com um final repleto de pontas soltas, que poderão ser amarradas nos acontecimentos do ainda inédito Os Ventos do Inverno. Ou não, se George Martin decidir estender mais ainda o enredo e torturar mais um pouco aqueles que ousam se aventurar por Westeros e todos os outros lugares criados por esse brilhante autor, mas que, com o tempo, fica cada vez mais ambicioso e megalomaníaco por quantidade de páginas, detalhes e história. É melhor sentar para não se cansar esperando.

Um adendo: a LeYa Brasil decidiu, a partir deste livro, mudar a tradução. Até O Festim dos Corvos, a editora havia comprado os direitos da ótima tradução do português Jorge Candeias. Agora, porém, o quinto e os livros restantes da série estão nas mãos de Márcia Blasques. É preciso avisar que sua tradução é imensamente inferior à de Candeias, demonstrando que a tradutora não teve o cuidado de conciliar os termos do original com os de nosso português, muitas vezes afirmando, com as palavras de George Martin, que existem cortinas persianas em Westeros, por exemplo, conferindo uma irrealidade para o mundo fictício do livro. A revisão da editora, inclusive, é péssima: muitos erros de digitação, com letras trocadas e falas de personagens que deveriam ter sido jogadas para baixo, mas ficaram em cima, junto com outra fala (confundindo a ordem do diálogo e, consequentemente, o entendimento do leitor) são apenas alguns dos vários exemplos encontrados nas 800 páginas do livro. Mais dedicação e profissionalismo nos próximos volumes não seria uma má ideia para a tradutora e para a editora. Os leitores agradecerão.

Capa: Marc Simonetti

Capa: Marc Simonetti

A Dance with Dragons, de George R. R. Martin. Publicado pela LeYa.

Tradução de Márcia Blasques, 870 páginas.

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