Filmes

A Culpa é das Estrelas

Para Hazel Grace Lancaster, a vida será curta. Para Augustus Waters também. Ambos têm câncer e ambos irão morrer a qualquer momento. Vivendo em um tempo em que a doença se alastra por famílias, matando planos e destruindo felicidades, Hazel e Augustus precisam encarar os fatos por não poderem fugir deles. É uma questão tão lógica quanto verdadeira aceitar que o ponto final está por vir.

Baseado no best-seller de John Green, A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars, 2014) trata do tema juntando clichês e momentos de quebra inesperados, levando o espectador às lágrimas no mesmo momento em que as corta com um alívio cômico repentino. É verdade que os personagens criados pelo autor americano e levados para a tela pelo roteiro da dupla responsável por (500) Dias Com Ela ((500) Days of Summer, 2009) são quase planos: os pais extremamente cuidadosos, os jovens conscientes de suas vidas breves por causa da doença, o escritor amargurado e exilado e a assistente do escritor que age de maneira contrária, auxiliando os protagonistas. Mas são esses mesmos personagens que irão desenrolar uma trama cujo final já sabemos, de certa forma, de maneira leve e descontraída, pontuando a história com momentos engraçados e tratando a morte como mais uma etapa a ser transposta – mesmo com seus momentos cruéis e inevitáveis.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Sobre o comando de Josh Boone (diretor de Ligados Pelo Amor, 2012), é notável que os atores estão à vontade em seus respectivos papéis. Shailene Woodley compõe uma Hazel carismática, criando uma protagonista que demonstra estar plenamente consciente de sua doença terminal, sentindo-se deprimida de início e invertendo essa caracterização quando tromba, literalmente, com Gus (esse clichê, assim como o câncer dela, seria inevitável para uma historinha de amor adolescente). Já Ansel Elgort fica responsável por vestir a pele daquele que irá transformar, aos poucos, a rotina de Hazel, mostrando um Gus Waters sensível, engraçado e atencioso (o namorado perfeito para qualquer leitora ou espectadora adolescente, ainda sonhando com o príncipe encantado). Apesar da composição básica e quase estereotipada de seus personagens, o casal protagonista conta com o apoio de veteranos, como é o caso de Laura Dern (a simpática paleobotânica de Jurassic Park), que interpreta a mãe de Hazel, e Willem Dafoe, se divertindo no papel do amargurado escritor favorito de Hazel. São atuações fluidas, que ajudam na composição da trama e deixam o filme mais leve, criando mais uma camada de eufemismo para o final inevitável.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

E, tendo como base uma obra literária atual e que arrebanhou uma considerável quantidade de fãs, os roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber adaptam A Culpa é das Estrelas para o cinema de maneira tranquila e segura, incluindo maneirismos já vistos em (500) Dias Com Ela, como os grafismos na tela quando o casal adolescente troca mensagens pelo celular. Essas adições, apoiadas pelas piadas dos personagens em quase todas as cenas com carga dramática maior, compõem um filme que não se transforma em uma obra de arte cinematográfica, mas que trata a fonte de sua história como ela realmente é: uma história de amor entre adolescentes que não terão uma vida longa para desenvolver esse sentimento, ou seja, apesar de uma conclusão ruim, o seu decorrer é leve, divertido e emocionante dentro de seus limites.

Sendo assim, o tratamento dado pelo diretor Josh Boone é básico: não ousando em nenhum momento, o que vemos é uma filmagem que preza por planos simples e diretos, usando câmera na mão quando a cena é composta por uma situação tensa e closes quando é preciso dramatizar. Boone, inclusive, se entrega a clichês, seguindo os passos da composição dos personagens, como o fatídico momento em que, quase no final da projeção, a saudosa sequência de flash-backs acontece, mostrando os “melhores momentos” dos protagonistas, com direito a música sensível na trilha e narração em off melosa. Ah, sim, também há a cena em que as mãos do casal apaixonado se tocam “sem querer”, mesmo sendo rápida.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

A Culpa é das Estrelas é, no entanto, um filme que incita pequenas reflexões em seu público. Mesmo que estejam soterradas por diálogos que causam estranhamento às vezes (a cena com o garçom contando a lenda sobre a criação da champagne é uma delas), em alguns momentos é possível pensar mais aprofundadamente nas consequências geradas pelo câncer e como essa doença é responsável por tanta dor, seja ela física, mental ou metafórica. E, falando em metáfora, a criada por Gus e seu maço fictício de cigarros demonstra tal fato: é necessário criar metáforas para enfrentar a doença porque, diferentemente do cigarro que não é aceso, o câncer vai se alastrar e tomar conta de tudo em algum momento. E, quando chega, a piada que antes quebrava o drama, agora se vai junto com ele.

Pôster: Gravillis Inc., 2014

Pôster: Gravillis Inc., 2014

The Fault in Our Stars, dirigido por: Josh Boone; escrito por: Scott Neustadter, Michael H. Weber (baseado na obra A Culpa é das Estrelas, de John Green).

Com: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Sam Trammell, Willem Dafoe, Nat Wolff.

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