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Como Treinar o Seu Dragão 2

Quatro anos após ter sido destaque entre as animações e ter concorrido pela atenção do público e por um Oscar com Toy Story 3, a DreamWorks agora lança a continuação de um de seus melhores filmes, senão o melhor. Carregando consigo a responsabilidade de apresentar um desenvolvimento de trama e personagens, além de precisar, obrigatoriamente, de um enredo que agrade tanto os pequenos quanto seus pais, Como Treinar o Seu Dragão 2 (How to Train Your Dragon 2, 2014) encanta por sua beleza técnica e pelo humor bem pontuado.

O público, que acompanhou a introdução de Soluço e todos os seus amigos e familiares vikings, cresceu. Nada mais justo e interessante agora reapresentar os personagens mais velhos, com novos interesses e com antigas habilidades aperfeiçoadas. Assistir as novas aventuras do protagonista notando que a equipe técnica teve o cuidado de adicionar uma leve barba em seu rosto é constatar que a nova animação do estúdio de Shrek não está interessada apenas em ação e humor físico, mas também em retrabalhar os detalhes de seus personagens, tanto os físicos, quanto os psicológicos e sentimentais. São características que enriquecem a narrativa e aproximam mais o público da história.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Quanto à história, Como Treinar o Seu Dragão 2 começa da mesma forma que o anterior, com a mesma tomada e a mesma narração em off de Soluço, um recurso utilizado para deixar o espectador confortável, seguro de que ele já conhece aquele espaço e seus habitantes. Basta a câmera focalizar Berk pela primeira vez, porém, que somos apresentados a uma nova sociedade. Aquela que hostilizava a presença dos dragões agora se desenvolve com o auxílio destes, provando, na prática, aquilo que o protagonista defendia desde o seu primeiro encontro com o simpático Banguela. E é esse viés “ativista” de Soluço que irá levá-lo a enfrentar novas dificuldades, agora fora de sua terra natal, encontrando personagens que irão contra a sua linha pensamento e outros que o apoiarão, surgindo aí algumas surpresas – boas e ruins.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

E se a base da animação está com um grupo de personagens mais desenvolvidos como alicerce, as chances de seu enredo funcionar são maiores. É, felizmente, o caso. Estimulados pela possibilidade de enfrentar novas aventuras e dificuldades, Banguela e sua trupe montada em dragões de diversas formas, cores e personalidades acabam por despertar uma antiga ferida na história de Berk e que, é claro, se relaciona com o passado de Estoico, o obstinado pai de Banguela. As relações que se dão a partir daí irão eclodir em um clímax digno de tomadas muito bem realizadas, algumas até lembrando a de filmes épicos: em dado momento, alguns planos aéreos, mostrando uma guerra, são tão bem coordenados que não parecem ser de uma animação infantil.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Em meio a essas questões, há tempo para momentos de humor leve e gostoso de assistir, com destaque para a gêmea Cabeçaquente, dona de falas e momentos extremamente hilários. Se o desajeitado e bonachão Bocão era o alívio cômico do primeiro filme, a viking, neste segundo capítulo, rouba a cena toda vez que deseja conquistar o amor de um novo personagem. Outro personagem que se destaca nesse quesito é o próprio Banguela. Aliás, se os dragões de cada viking falassem, provavelmente o humor físico destes iriam para o ralo. Banguela, agora totalmente seguro da amizade de Soluço e desenvolvendo habilidades de voo até então desconhecidas, torna-se um dos personagens com maior carga dramática do filme, protagonizando cenas-chave para essa nova parte de Como Treinar o Seu Dragão.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

O ponto negativo da animação é justamente o seu vilão, Drago. Totalmente unidimensional, o personagem tenta criar uma tensão que não existe (e a dublagem para o português reforçou ainda mais essa perda, não sendo muito bem executada em relação aos demais presentes em cena), sendo aquele que deseja apenas fazer o mal e ponto, não dando espaço para reviravoltas e surpresas. Há um personagem, inclusive, que cria uma tensão palpável logo em sua primeira cena: vestindo uma máscara rudimentar, talvez irá habitar as noites das crianças mais novas que assistirem ao filme. Não me aprofundarei mais neste personagem para não dar spoilers da trama. Só a introdução dele, porém, é muito melhor dramaticamente desenvolvida do que toda a participação de Drago.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Não contentes com um grupo sólido e interessante de personagens e uma computação gráfica de primeira, a DreamWorks também resolveu caprichar na trilha sonora do filme, presente em quase todas as cenas, indo de uma melodia calma para uma mais urgente conforme o andar da carruagem, conferindo mais um peso positivo para a nova produção do estúdio. Esse conjunto de elementos é ressaltado pelo 3D imersivo, criando camadas em todos os cenários e brincando com o público com cenas que mostram os voos ágeis dos dragões, ou como em uma determinada cena em que Banguela cai na água, deixando as milhares de bolhas fluir pela tela do cinema.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Como Treinar o seu Dragão 2 também prepara o público para o terceiro filme da franquia, já confirmado pela DreamWorks para 2016. Até lá, é possível aproveitar todo o desenvolvimento empregado nesta segunda parte, que veio para complementar e enriquecer o primeiro filme e, assim como Banguela, possui muitas qualidades escondidas para serem exibidas com o tempo. Tomara que a terceira parte, no entanto, apresente um vilão mais digno de estar na franquia. E que não tenha tanto fetichismo por membros amputados.

Pôster: Midnight Oil, 2014

Pôster: Midnight Oil, 2014

How to Train Your Dragon 2, dirigido e escrito por: Dean DeBlois (baseado na obra de Cressida Cowell).

Originalmente com as vozes de: Jay Baruchel, Cate Blanchett, Gerard Butler, Craig Ferguson, America Ferrera, Jonah Hill, Kristen Wiig, Kit Harington, Djimon Hounsou.

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A Culpa é das Estrelas

Para Hazel Grace Lancaster, a vida será curta. Para Augustus Waters também. Ambos têm câncer e ambos irão morrer a qualquer momento. Vivendo em um tempo em que a doença se alastra por famílias, matando planos e destruindo felicidades, Hazel e Augustus precisam encarar os fatos por não poderem fugir deles. É uma questão tão lógica quanto verdadeira aceitar que o ponto final está por vir.

Baseado no best-seller de John Green, A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars, 2014) trata do tema juntando clichês e momentos de quebra inesperados, levando o espectador às lágrimas no mesmo momento em que as corta com um alívio cômico repentino. É verdade que os personagens criados pelo autor americano e levados para a tela pelo roteiro da dupla responsável por (500) Dias Com Ela ((500) Days of Summer, 2009) são quase planos: os pais extremamente cuidadosos, os jovens conscientes de suas vidas breves por causa da doença, o escritor amargurado e exilado e a assistente do escritor que age de maneira contrária, auxiliando os protagonistas. Mas são esses mesmos personagens que irão desenrolar uma trama cujo final já sabemos, de certa forma, de maneira leve e descontraída, pontuando a história com momentos engraçados e tratando a morte como mais uma etapa a ser transposta – mesmo com seus momentos cruéis e inevitáveis.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Sobre o comando de Josh Boone (diretor de Ligados Pelo Amor, 2012), é notável que os atores estão à vontade em seus respectivos papéis. Shailene Woodley compõe uma Hazel carismática, criando uma protagonista que demonstra estar plenamente consciente de sua doença terminal, sentindo-se deprimida de início e invertendo essa caracterização quando tromba, literalmente, com Gus (esse clichê, assim como o câncer dela, seria inevitável para uma historinha de amor adolescente). Já Ansel Elgort fica responsável por vestir a pele daquele que irá transformar, aos poucos, a rotina de Hazel, mostrando um Gus Waters sensível, engraçado e atencioso (o namorado perfeito para qualquer leitora ou espectadora adolescente, ainda sonhando com o príncipe encantado). Apesar da composição básica e quase estereotipada de seus personagens, o casal protagonista conta com o apoio de veteranos, como é o caso de Laura Dern (a simpática paleobotânica de Jurassic Park), que interpreta a mãe de Hazel, e Willem Dafoe, se divertindo no papel do amargurado escritor favorito de Hazel. São atuações fluidas, que ajudam na composição da trama e deixam o filme mais leve, criando mais uma camada de eufemismo para o final inevitável.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

E, tendo como base uma obra literária atual e que arrebanhou uma considerável quantidade de fãs, os roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber adaptam A Culpa é das Estrelas para o cinema de maneira tranquila e segura, incluindo maneirismos já vistos em (500) Dias Com Ela, como os grafismos na tela quando o casal adolescente troca mensagens pelo celular. Essas adições, apoiadas pelas piadas dos personagens em quase todas as cenas com carga dramática maior, compõem um filme que não se transforma em uma obra de arte cinematográfica, mas que trata a fonte de sua história como ela realmente é: uma história de amor entre adolescentes que não terão uma vida longa para desenvolver esse sentimento, ou seja, apesar de uma conclusão ruim, o seu decorrer é leve, divertido e emocionante dentro de seus limites.

Sendo assim, o tratamento dado pelo diretor Josh Boone é básico: não ousando em nenhum momento, o que vemos é uma filmagem que preza por planos simples e diretos, usando câmera na mão quando a cena é composta por uma situação tensa e closes quando é preciso dramatizar. Boone, inclusive, se entrega a clichês, seguindo os passos da composição dos personagens, como o fatídico momento em que, quase no final da projeção, a saudosa sequência de flash-backs acontece, mostrando os “melhores momentos” dos protagonistas, com direito a música sensível na trilha e narração em off melosa. Ah, sim, também há a cena em que as mãos do casal apaixonado se tocam “sem querer”, mesmo sendo rápida.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

A Culpa é das Estrelas é, no entanto, um filme que incita pequenas reflexões em seu público. Mesmo que estejam soterradas por diálogos que causam estranhamento às vezes (a cena com o garçom contando a lenda sobre a criação da champagne é uma delas), em alguns momentos é possível pensar mais aprofundadamente nas consequências geradas pelo câncer e como essa doença é responsável por tanta dor, seja ela física, mental ou metafórica. E, falando em metáfora, a criada por Gus e seu maço fictício de cigarros demonstra tal fato: é necessário criar metáforas para enfrentar a doença porque, diferentemente do cigarro que não é aceso, o câncer vai se alastrar e tomar conta de tudo em algum momento. E, quando chega, a piada que antes quebrava o drama, agora se vai junto com ele.

Pôster: Gravillis Inc., 2014

Pôster: Gravillis Inc., 2014

The Fault in Our Stars, dirigido por: Josh Boone; escrito por: Scott Neustadter, Michael H. Weber (baseado na obra A Culpa é das Estrelas, de John Green).

Com: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Sam Trammell, Willem Dafoe, Nat Wolff.

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