Filmes

Godzilla

A cena que abre o filme de Gareth Edwards mostra um helicóptero sobrevoando montanhas cobertas por florestas nativas. O helicóptero é branco e azul, e a câmera o acompanha em um plano geral que contempla seu voo sobre as inúmeras árvores. Para qualquer pessoa que passou as tardes de domingo da infância assistindo as infindáveis reprises de Jurassic Park na TV, a referência é assustadoramente repentina. Logo depois, temos cenas de diálogos em meio a uma descoberta que remete mais uma vez ao filme de 1993 dirigido por Steven Spielberg. Aliás, a estrutura de roteiro e a forma como Edwards lida com a construção e dramatização de personagens nesse novo Godzilla prestam diversas homenagens ao diretor que iniciou diversas formas de assustar e encantar seu público lá nos idos dos anos 70.

Para estabelecer a principal característica do filme – a tensão -, o monstrengo se mostra apenas através de sugestões até metade da projeção. O que o público é capaz de ver, até então, são pedaços (muito grandes) do corpo de Gojira, quando este mostra suas enormes placas incrustadas nas costas por cima da água ou quando a câmera é capaz de captar apenas parte de seu corpo, enquanto ele caminha através da escuridão, iluminado fracamente por pequenos focos de luz. Com o andar da história, Edwards começa a revelar o visual e a proporção assutadora de Godzilla em doses homeopáticas, jogando com a expectativa do público que se iniciou lá no começo da campanha de divulgação do filme, quando pôsteres e trailers davam o tom da obra, mas não revelavam quase nada do astro principal. Esse jogo de esconde-esconde é essencial para o último ato de Godzilla, quando o gigante toma conta da tela para brigar. E para valer.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Se desvencilhando da tentação de ser um filme que apenas contemple a força gigantesca dos monstros como personagens centrais da história, o novo filme preocupa-se em desenvolver os dramas pessoais dos personagens humanos também. Desde o começo, Edwards estabelece o arco dramático que acompanha a família Brody, quando Joe (interpretado por Bryan Cranston) é obrigado a tomar uma decisão que muda completamente o decorrer de sua vida, culminando em uma elegante elipse feita pelo diretor quando este mostra o filho de Joe, Ford (interpretado por Aaron Taylor-Johnson), já adulto, voltando para sua casa. E este arco caminhará lado a lado com a ação primordial de Godzilla que, como já citado, explode de vez no ato final. Desenvolvendo os personagens logo de início, o filme aproxima o público que, inicialmente, foi para ver a destruição promovida por Godzilla (um legado gerado por décadas de filmes dedicados ao personagem e pela adoração dos fãs, sempre dispostos a contemplar o poder colossal de Gojira). Esta “adição” que a nova refilmagem propõe é totalmente benéfica pois, além de ditar um tom diferente para um filme-catástrofe, ela diferencia esse exemplar de qualquer filme dirigido por Michael Bay, por exemplo.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

E, falando sobre personagens, o elenco selecionado para dar vida a todos eles é outra peça positiva no tabuleiro de Godzilla. Apesar de uma certa inexpressividade caracterísica do personagem, o “Kick-Ass” Aaron Taylor-Johnson se esforça o bastante para compor um herói que vai trilhar passos paralelos aos do monstrão – a cena de ambos caindo, ao mesmo tempo, evidencia essa ideia; outro ator que se destaca é Bryan Cranston: famoso por seu personagem na série televisiva Breaking Bad, Cranston demonstra ter um poder dramático – principalmente facial – muito forte, criando uma presença de cena que ofusca os demais personagens desde sua primeira cena. Os dois são apoiados pela jovem Elizabeth Olsen, que interpreta a mulher de Ford, sendo o terceiro ponto do arco dramático principal e estabelecendo uma personagem que não tem muito destaque, mas que é satisfatória para o funcionamento da história quando aparece em cena. Ken Watanabe também é um destaque, compondo o cientista que prevê os passos de Gojira – legado do filme original de 1954 – e que faz uma cena rápida, mas especialmente emotiva e de teor histórico pesado, elegantemente sintetizado em um relógio de bolso antigo.

Se os personagens de carne e osso são compostos pelas boas atuações do elenco, a equipe técnica do filme é a responsável pela verossimilhança dos monstrengos: tanto Godzilla quanto os outros monstros possuem uma textura e uma naturalidade de movimentos muito satisfatórias, não parecendo seres gerados por computação gráfica – algo que é auxiliado pelo fato dos monstros possuirem uma escala muito grande e, com isso, parecerem ter movimentos “lentos” diante da escala de um ser humano. Esse detalhe, porém, é o melhor ponto das cenas protagonizadas por eles, filmadas com planos gerais e com movimentos lentos da câmera de Edwards, evidenciando que o diretor não deseja perder nenhum detalhe do principal atrativo do filme se escolhesse filmá-lo com câmera tremida, por exemplo. Filmar dessa maneira seria benéfica para o 3D, se este não fosse uma simples conversão realizada por questões mercadológicas, o que, no entanto, não prejudica a experiência que o filme proporciona – mas também não sendo nenhuma vantagem visual.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Sendo um novo filme, mas respeitando a fonte, Godzilla é um dos melhores filmes lançados até então neste ano. Talvez seja a inspiração nos primeiros filmes de Spielberg, talvez seja pela adoração da equipe pelo Gojira japonês, a verdade é que este exemplar do monstro é eficaz a ponto de atingir o público com surpresas de diversas formas, possuindo boas cenas dramáticas e também ótimas cenas de ação. Godzilla voltou para Hollywood, e voltou com força total. A sorte é que ele encontrou um estúdio consciente de que o público, além de querer ver ação, deseja principalmente reconhecer ali uma estrutura boa e convincente em termos de roteiro e desenvolvimento de personagens. Não se esperava menos da equipe que tirou Batman do limbo e o recolocou no pedestal. Agora foi a vez de Gojira.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Nota: os fãs terão sua recompensa pela espera quando assistirem uma determinada cena em que Godzilla se ilumina repentinamente. Ali é a certeza de que valeu a pena pagar para ver o filme.

Pôster: Ignition, 2014

Pôster: Ignition, 2014

Godzilla, dirigido por: Gareth Edwards; escrito por: Max Borenstein, Dave Callaham.

Com: Bryan Cranston, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Ken Watanabe, Sally Hawkins, Juliette Binoche.

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