Filmes

Ela

Em 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968), o computador HAL 9000 era inteligente e avançado em sua tecnologia o bastante para realizar julgamentos e cometer crimes. O autor Arthur C. Clarke, inclusive, contou em entrevista que discordava de Stanley Kubrick quanto à capacidade de HAL fazer leitura labial – enquanto ele não enxergava tal possibilidade para os computadores, mesmo no futuro, o visionário diretor continuou a insistir na ideia até incluir tal cena no roteiro do filme, mostrando que HAL conseguia saber o que os astronautas andavam sussurrando uns aos outros em sua presença. “Stanley estava certo”, constata Clarke, rindo. Se lá nos idos dos anos 60, prevendo o que explodiria no final do século XX, início do XXI, Stanley Kubrick foi capaz de deixar plateias inteiras arrebatadas pelo roteiro intricado, pelos efeitos visuais vanguardistas e pela assustadora presença de HAL, hoje estamos diante de um filme bem diferente de 2001, mas que traz consigo um personagem parecido para mexer com as filosofias do espectador: Samantha.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Roteiro e do Oscar de Melhor Roteiro Original, Ela (Her, 2013) nos faz refletir, em primeiro lugar, sobre nossa existência e as relações (amorosas, principalmente) que possuímos com as outras pessoas ao colocar o protagonista, Theodore (interpretado por Joaquim Phoenix), diante de uma situação inusitada: ao comprar um sistema operacional inteligente e intuitivo, o escritor se apaixona por ele. É cômico observar como a ideia em si, separada de qualquer contexto, é de uma estranheza e ridicularização simples. Mas é compreensível ver como Theodore vai se perdendo cada vez mais na voz doce de Samantha, inteligente o bastante para fazê-lo contente com as coisas exatas, levá-lo para lugares ideais e ajudá-lo em qualquer situação, desde na revisão dos textos de seu trabalho, até na escolha do presente de aniversário da afilhada. Tendo como companhia a voz de uma mulher que o auxilia em qualquer situação e sussurra, em seu ouvido, o quanto ele a faz feliz, resultaria, no mínimo, em uma felicidade instantânea para o escritor que ainda se encontra em processo de divórcio da única mulher que verdadeiramente amou. E comparar a diferença entre a voz modelada de Scarlett Johansson, que dá vida à Samantha, e a frieza monocórdia de HAL é constatar como a evolução tecnológica pode muito bem ocorrer a ponto de diluir os limites entre o que é humano e o que é máquina.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Se a relação do escritor com Samantha é algo ideal devido à intuição codificada do sistema, que se expande conforme Theodore vai realizando pedidos e tarefas, era também de se esperar que essa relação amorosa sempre se mantivesse em um bom estado. Esse bem-estar hipotético seria uma expectativa inversamente proporcional ao relacionamento passado de Theodore, que se apaixonou por Catherine com a mesma intensidade que tudo ruiu de um momento para o outro, conduzindo-o para a solidão e depressão. E, mesmo quando Samantha aconselha Theodore para que este aceite a sugestão de um encontro com uma amiga de um amigo, o desastre impera a partir do momento em que a exigência de relacionamento sério surge e o protagonista, ainda perdido em seus sentimentos, sente que a única certeza de se sair bem sucedido é em sua própria solidão. Essa leva de acontecimentos e lembranças serve para reforçar ainda mais os laços que o personagem de Phoenix cria com Samantha, levando-o a assumir o relacionamento publicamente e finalmente se sentir feliz e realizado por estar com alguém – mesmo que esse alguém não exista fisicamente e, ainda mais, seja gerado por linhas de códigos escritas por programadores visando o bem-estar de um público-alvo através de um produto. Se for deprimente analisar por esse lado, Theodore não perde suas energias tentando encontrar sentido racional em algo que ele sente de maneira genuína e emotiva, transformando tudo o que sente por Samantha em algo simples e puro.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Com um roteiro que se baseia nos diálogos entre Theodore e Samantha para construir um clima e um ambiente de romance que não soam piegas, além de jogar com imagens em flashback que apenas sugerem – não precisando, assim, de diálogos -, o diretor Spike Jonze cria uma obra que discute uma das relações mais debatidas por poetas, escritores e artistas em todos os tempos dentro da era em que vivemos, a que preza pela velocidade e evolução das tecnologias e que exige, a cada segundo, mais informações sobre cada vez mais coisas. A principal questão que se evoca em Ela não é o fato de Theodore estar apaixonado por uma máquina, mas o por que dele ter se apaixonado por algo que não é humano (algo que se expressa através de certa indignação por sua ex-mulher em determinada cena). Por que Samantha é capaz de fazê-lo sorrir feito bobo e se sentir vivo enquanto um encontro com uma moça aparentemente legal e interessante o faz se sentir inseguro, deslocado e confuso? E, quando a primeira desilusão com o sistema operacional acontece, é interessante ver como Jonze brinca com a questão de que seria fácil para Theodore “se livrar” daquele relacionamento: quando o protagonista discute com Samantha, o diretor dá close em um bueiro fumegante, quase contando para o espectador o real desejo de Theodore naquele momento, mesmo que este seja passional e efêmero.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

O que também encanta em Ela é sua fotografia: prezando por ambientes banhados pela luz solar, a lente de Spike Jonze sempre está contra o sol ou, quando o contrário, mostrando o protagonista envolto em uma escuridão azulada. É irônico notar, a partir daí, como a casa de Theodore é confortável, espaçosa e arejada, assim como sua mesa de trabalho lhe dá liberdade para criar, por exemplo; todos os ambientes são propícios para que o protagonista se sinta bem e realizado, mas nada disso é relevante enquanto Theodore não encontrar uma parceira ou, mais ainda, enquanto ele não se encontrar. E a ironia torna-se maior quando é acompanhada pela trilha sonora recheada de pianos e cordas. “Tocar música melancólica“, aliás, é um dos primeiros comandos que ouvimos Theodore dizer para seu computador portátil antes de comprar Samantha. Depois, ela mesma faz questão de mostrar as canções que compõe, dizendo se inspirar na relação de ambos.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Ela, então, merece os louros pela inventividade ao retratar uma relação amorosa. É com certa preocupação, porém, que podemos ver essa história de amor escrita por Spike Jonze. O diretor reúne ali os elementos necessários para que a reflexão ocorra depois da sessão. Entre cenas cômicas e situação embaraçosas, o público acaba com um gosto amargo embaixo da língua quando a ficha verdadeiramente cai. Pois a probabilidade de relacionamentos com sistemas operacionais acontecer é grande. E a solidão advinda da já escassa comunicação pessoal entre nós pode contribuir ainda mais para a realização dessa “ficção” bem orquestrada pela câmera e texto de Spike Jonze, pela voz cativante de Scarlett Johansson e pelos olhos melancólicos de Joaquim Phoenix. É ir procurar lã e voltar tosqueado.

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Her, dirigido e escrito por: Spike Jonze.

Com: Joaquim Phoenix, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Amy Adams, Chris Pratt.

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