Livros

A Menina que Brincava com Fogo

Por um lado, o fato do sueco Stieg Larsson ter falecido logo depois de entregar os originais de sua trilogia literária é assustadoramente misterioso. Por outro, sendo obra do destino ou de uma mórbida coincidência, Larsson não pôde, obviamente, usufruir do sucesso das histórias que criou, contando aí os três livros publicados em todo o mundo – e sendo sucesso de vendas – e as adaptações ao cinema, também com sucesso de bilheteria. Dizem as bocas aleatórias que o escritor tinha planos de continuar as tramas envolvendo os personagens que ganharam a atenção de um público vasto e diversificado, já possuindo um quarto volume quase totalmente escrito. Recentemente, inclusive, a editora sueca revelou que o quarto livro será escrito por outras mãos. Mas isso é pano pra mangas diferentes.

Picuinhas e discussões judiciais à parte, o sucesso da trilogia publicada e autorizada pelo autor vem, primordialmente, de suas tramas policiais e aventurescas que impedem a separação do leitor de seu exemplar; mais – o sucesso das histórias está sobre os ombros de uma personagem: Lisbeth Salander. Complicado classificá-la como uma heroína ou anti-heroína, Lisbeth consegue chamar a atenção do leitor não por possuir as características clássicas de um protagonista de romance, mas por ser alguém à margem de uma sociedade moderna que preza pela sociabilidade e etiqueta das pessoas em qualquer situação. Ela não faz questão, não se importa e não se preocupa com os seres humanos que a cercam, sabendo muito bem se virar em qualquer tipo de situação e, de quebra, possuindo conhecimentos precisos sobre informática. Esse conjunto desconexo de qualidades faz de Lisbeth Salander um ponto que se destaca instantaneamente no romance. E Larsson, sabendo da personagem em potencial que tem em mãos, faz deste segundo capítulo da trilogia Millennium um livro dedicado a ela, vasculhando seu passado e, com isso, usando-o como estopim para os acontecimentos que se desenrolam pelas três partes e trinta e dois capítulos.

O sueco, apesar de ser um bom narrador – ele sabe como contar uma história, envolver seu leitor e ir dando pistas homeopáticas ao longo do livro -, não é um escritor exímio. Mas, diferente de autores que fazem uso de uma fórmula específica para todas as histórias que cria, Larsson também sabe criar uma trama que não soa repetitiva, deixando as relações entre o primeiro livro e este segundo apenas para os personagens principais (afinal, a maioria ainda participa aqui) e suas ligações básicas: Lisbeth, claro, conhece Mikael Blomkvist por um motivo que está no volume anterior e etc.  Os pecados que Stieg Larsson comete ao longo de sua narração são em detalhes: em alguns momentos, soa verborrágico demais, fazendo explicações um tanto óbvias em cenas que não exigem atenção nesse ponto e, em outros, faz questão de relembrar o leitor o porque de determinados personagens se conhecerem e qual é a relação entre ambos, parecendo ignorar que quem está acompanhando o segundo capítulo da trilogia provavelmente se inteirou dos fatos existentes no anterior. São minúcias que ocorrem com frequência durante A Menina que Brincava com Fogo, mais concentradas nos primeiros capítulos e se espalhando conforme a história toma um ritmo maior.

Outro recurso bem abusado pelo autor são as interrupções que ocorrem ao longo dos capítulos. É uma escolha de narração que contribui para o tipo de história que Larsson conta, deixando pontas soltas a todo instante para que o leitor volte, movido pela curiosidade mórbida, e tente descobrir para qual rumo a trama será levada. Tal opção, porém, não funcionaria se a obra não tivesse um elenco de personagens variados, contando com os principais, esféricos, que permitem uma exploração maior – principalmente no campo psicológico -, e os demais, em maior número, que apesar de apresentarem uma configuração plana, servem de sopro para diversos momentos em que a trama cai em uma calmaria mais expositiva e / ou descritiva. Fragmentar a trama em interrupções sugestivas acaba culminando, no fim, em pontas soltas, com a possibilidade de retomá-las apenas no terceiro volume.

Já a edição publicada aqui no Brasil pela Companhia das Letras, apesar da versão econômica (capa sem orelhas e confeccionada com um material mais mole), preza por uma leitura confortável, apresentando uma diagramação espaçada e contando com fonte agradável e papel amarelado, não cansando os olhos, caso o leitor queira estender mais um pouco naquele capítulo crucial. O que pode deixar o leitor mais exigente e informado com o pé atrás, em um primeiro momento, é a tradução: a editora optou pela tradução da tradução – Dorothée de Bruchard verte para o português a versão francesa do livro. Mas, conforme se dá a leitura, fica claro que não há problemas de distanciamento exagerado do original em sueco, pois a narrativa em português possui fluência (além de não se encontrar problemas de revisão).

Deixando seu leitor mais a par dos segredos de Lisbeth Salander e colocando a protagonista como alvo principal dentro do olho do furacão que vai se revelando pouco a pouco, Stieg Larsson mostra fôlego suficiente para criar mais uma trama de mistérios, crimes e vinganças e ainda deixar um gancho para que diversos pontos se concluam em A Rainha do Castelo de Ar. O segundo volume da trilogia Millennium não está acima da qualidade da trama vista em Os Homens que Não Amavam as Mulheres, mas consegue se manter interessante, mesmo construindo um momento de transição entre os primeiros anos em que Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist se conhecem e se aproximam, e os próximos que virão, provavelmente com mais segredos e revelações chocantes para animar o leitor sedento por dramas, conflitos e sangue.

Capa: Retina 78

Capa: Retina 78

Flickan som lekte med elden, de Stieg Larsson. Publicado pela Companhia das Letras.

Tradução de Dorothée de Bruchard, 608 páginas.

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