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12 Anos de Escravidão

Em um dado momento de 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, 2013), Solomon Northup encontra-se no meio de uma mata, isolado, sentado em um tronco velho, com seu violino novo em mãos. A câmera do diretor Steve McQueen enquadra cirurgicamente as cordas do instrumento, enquanto o homem as estica o máximo que pode. Depois de alguns segundos, as cordas estão tão tensas que não suportam mais aquela condição. Solomon ainda insiste, esticando-as mais. Por fim, o material cede e as cordas estouram, produzindo um ruído semelhante a um grito rápido e seco.

Imagem: Regency Enterprises, 2013

Imagem: Regency Enterprises, 2013

Apesar de apresentar uma história que o Oscar adora premiar para fazer uma média sociopolítica, o filme ganhador da estatueta mais importante na cerimônia deste ano representa diversos pontos. Não só pelo fato de ter sido dirigido e produzido por um negro, a história real de Solomon Northup é importante nessa visão de McQueen primeiramente porque nos convida a conhecer os sofrimentos pelos quais um ex-homem-livre é obrigado a passar durante um pouco mais de uma década; depois, faz questão de apresentar as atrocidades que os negros foram submetidos na América sulista da época para, no fim, dizer “essas pessoas passaram por tudo isso, e não foi por causa de uma condição maior e intransponível, mas por outras pessoas que, através de diversas desculpas infundadas, se achavam no direito de subjugá-las e torturá-las”.

É por meio desse veio que 12 Years a Slave narra como Solomon Northup passa de um homem livre, que possui família, emprego e casa próprios, a um reles objeto, condenado a trabalhar quando bem desejarem – e a apanhar também… e muito. Nesse ponto, a edição do filme escolheu misturar as épocas, cortando entre o presente como escravo e o passado como homem de direitos, dando de pouco em pouco o material necessário para que o público entenda todas as condições que Solomon perdeu e “ganhou” ao tornar-se uma propriedade. Deixando, assim, o relato mais dinâmico, o diretor Steve McQueen consegue abrigar um público maior, que vai invariavelmente se surpreender do meio para o fim do filme, quando as escolhas visuais do diretor se misturam ao mostrar a aurora crescente entre as árvores da Louisiana e as costas de carne aberta, sangrando, de uma escrava (como se a aurora, fruto de uma natureza cruel, mas também bela, não se misturasse com a crueldade produzida pelo ser humano, capaz de destruir, por motivos esdrúxulos, o próprio corpo que sustenta um semelhante).

Imagem: Regency Enterprises, 2013

Imagem: Regency Enterprises, 2013

É nesse ambiente que os espectadores poderão conferir as belas atuações agrupadas por um elenco afinado, desde o protagonista, vivido por Chiwetel Ejiofor, passando por antagonistas (o principal, Edwin Epps, interpretado brilhantemente por Michael Fassbender, ganha praticamente todas as cenas em que aparece) e culminando em atuações coadjuvantes que visivelmente foram além do esperado, como a de Adepero Oduye, que interpreta uma pobre escrava chamada Eliza, separada dos filhos no ato de sua compra e lamentando-se eternamente por não vê-los mais; e, principalmente, a de Lupita Nyong’o, que entregou a alma ao dar vida para a escrava Patsey (uma bela atuação justamente reconhecida nas diversas premiações que aconteceram no começo de 2014).

Imagem: Regency Enterprises, 2013

Imagem: Regency Enterprises, 2013

Com um bom roteiro adaptado da obra do próprio Solomon, um elenco dotado de novos e conhecidos talentos (Brad Pitt aparece por alguns minutos, em um personagem essencial à trama) e uma edição fluida, seria estranho se McQueen não fotografasse uma história tão necessária de ser divulgada de forma tão lúcida e consciente de sua condição – a prova disso são diversas cenas, entre elas uma que, enquanto os escravos estão cortando cana, a câmera do diretor britânico adentra a plantação como um intruso, como se afastasse as folhas das plantas; outra, quando certa escrava vai ser açoitada até perder os sentidos, a lente sai de seu conforto da grua para os ombros do diretor, que filma a cena também como um intruso, meio que pedindo perdão para seu público mas, não tem outro jeito, é preciso mostrar porque a humanidade cometeu aquilo, e não há volta para os fatos.

O diretor, assim, não realiza concessões, não afasta sua câmera do que ocorreu, mostrando ao público que decidiu conhecer melhor a história de Solomon Northup que os acontecimentos foram brutais, e que, para isso, não existem maneiras dóceis de se contar: um recurso interessante que Steve McQueen também faz uso é de ligar o áudio de uma cena anterior com o visual da próxima, deixando, por exemplo, que o canto trocista de um capataz sirva de pano de fundo para a fala dócil do dono da fazenda (interpretado por Benedict Cumberbatch), misturando os discursos opostos mas, ao mesmo tempo, indicando que, apesar do dono ser amigável com seus escravos, ele ainda é o dono deles, não o excluindo da condição de escravocrata – condição que Eliza faz questão de lembrar Solomon em uma cena simples, mas carregada de teor dramático.

Imagem: Regency Enterprises, 2013

Imagem: Regency Enterprises, 2013

Da mesma forma que as cordas do violino do protagonista estouram ao serem submetidas a uma tensão que supera suas forças, o público pode terminar 12 Anos de Escravidão com a mesma sensação. Se alguns responderão com lágrimas e outros apenas com reflexão, não importa; o que vale é a consciência lúcida e crua que, entre recursos cinematográficos, Steve McQueen prepara e mostra para que tenhamos apenas uma vaga noção do que ocorreu na época e o que ainda ocorre em muitos cantos do mundo. Se o filme servir de bom exemplo e incutir uma reflexão válida naqueles que o assistem, o esforço de sobrevivência de Solomon Northup dentro desses doze anos, seu relato em livro depois e, agora, sua história passada para as telas e atingindo mais público foram frutos também válidos e importantes ao mostrar que, em muitos momentos, é preciso suportar uma força superior para que a tensão não ceda e tudo não se perca em um estouro sem volta.

Pôster: Ignition Print, 2013

Pôster: Ignition Print, 2013

12 Years a Slave, dirigido por: Steve McQueen; escrito por: John Ridley (baseado na obra 12 Anos de Escravidão, de Solomon Northup).

Com: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch, Sarah Paulson, Brad Pitt.

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