Filmes

Trapaça

A primeira cena de Trapaça (American Hustle, 2013) começa com uma tomada peculiar. Nela, encontra-se o ator Christian Bale, arrumando seu cabelo ralo e já caracterizado como o caloteiro Irving Rosenfeld. Seria algo comum se o diretor David O. Russell não passasse sua lente por toda a extensão da barriga do ator, quase que sublinhando para seu público que aquela barriga protuberante é real, e não um artifício preparado pela equipe de maquiadores do filme. Pode ser um momento breve e sem significado algum à trama que vai se desenrolar dali pra frente, mas, ao concluir o longa, fica evidente uma coisa em comum desde essa primeira cena: o diretor e roteirista de American Hustle é um cineasta ambicioso e, infelizmente, pretensioso demais.

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Apesar de não ser um filme péssimo, contando com boas atuações aqui e ali e com uma direção de arte cuidadosa com os detalhes que recriaram a década de 70, Trapaça tenta alcançar diversas características ao mesmo tempo, chega a tocá-las por um instante e, subitamente, tropeça e volta ao comum. O roteiro, em um estilo Scorsese demais, pega como muletas criativas diversos recursos narrativos: tem-se ali as narrações em off dos personagens, comentando as ações; uma edição rápida em alguns momentos, acompanhada por uma música instigante; e o vai-e-vem no tempo da narrativa, começando pela metade, voltando para o começo e seguindo em frente a partir desse ponto. São recursos que poderiam deixar o filme interessante, não há dúvida, e em certos momentos até contribuem mesmo para o andar da carruagem… porém, lá na frente, David O. Russell nos deixa com a sensação de que não conseguiu ser convincente.

Em certo momento, em um diálogo aparentemente despretensioso, a personagem de Jennifer Lawrence comenta que é viciada em um finalizador para suas unhas, pois ele possui um aroma doce, mas que, ao mesmo tempo, tem algo de podre por baixo: “dizem que todos os perfumes devem ser assim, bons, mas com cheiro de ‘lixo’ junto”; e complementa: “Irving é viciado nele, não consegue parar de cheirá-lo”. O fato do protagonista “apreciar” um finalizador de unhas é algo simples, besta, mas para aqueles que já estão desconfiados das intenções de O. Russell lá pela metade do filme, esse dado é suficiente para compreendermos o que o novo filme do diretor almeja.

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Se a discussão principal da trama é refutar sobre o que é mais válido – a obra original ou uma falsificação bem feita -, a direção e o roteiro do filme deixa isso claro em todos os aspectos possíveis, talvez até sem ter a intenção. O personagem de Bradley Cooper, por exemplo, é movido por sua ganância dentro de uma ilusão arquitetada até chegar ao ponto de não ter mais por onde escapar; a de Lawrence simplesmente não mede as consequências de suas decisões precipitadas e, quando algo dá errado, ela encontra uma forma de se livrar da culpa, iludindo a si mesma… ou seja, Trapaça joga com essa contraposição a todo tempo: o que é verdadeiro e o que é falso? E, com isso, acaba se mostrando para o público como um filme que também não consegue distinguir o que é um filme verdadeiro do que é uma cópia bem feita de um ótimo filme de um ótimo diretor (oi, Scorsese). Se os bons perfumes devem ter algo de podre em suas camadas mais inferiores, American Hustle acaba exagerando nessas notas, errando a equação e, no fim, mostrando que quer ser um ótimo filme, mas acaba passando a imagem de apenas uma boa imitação da obra original.

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Imagem: Columbia Pictures, 2013

É por esse caminho, então, que voltamos à barriga de Christian Bale. O ator poderia ter utilizado maquiagem e a mágica ilusória do próprio cinema para compor o físico de seu personagem. Mas, optando pela verdade que ilude, Irving Rosenfeld aparece na tela como deve ser segundo o roteiro. Uma decisão interessante e genuína, é claro; o que incomoda, no fim da sessão, é como a primeira cena é apresentada: ali, David O. Russell não se contenta em ser elegante e discreto, deixando que seu próprio público se deixe iludir (o diretor também não sabe ser elegante em sua fotografia), ele precisa MOSTRAR para os espectadores que existe sim uma barriga de verdade no corpo do ator e que ela está ali para fazer você acreditar que Trapaça se compromete em ser um bom filme. E é. Mas não é excelente, como David O. Russell provavelmente acreditou enquanto o filmava.

Pôster: BLT Communications, 2013

Pôster: BLT Communications, 2013

American Hustle, dirigido por: David O. Russell; escrito por: Eric Warren Singer, David O. Russell.

Com: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Louis C. K.

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