Filmes

A Menina que Roubava Livros

Contar uma história que se passa durante a 2ª Guerra Mundial ou que possui elementos relacionados aos acontecimentos da época já adquire um tom dramático suficiente para tocar o público em diversos momentos. O Nazismo, assunto mais procurado, explorado e debatido entre os filmes que têm a segunda grande guerra como tema ou pano de fundo, demonstra um grande potencial dentro de uma narrativa não só pelo resultado catastrófico que gerou com seu genocídio mundialmente conhecido, mas pelos horrores que foi criando pouco a pouco, desde as crianças, ao instruí-las com mentiras e barbartidades, até destruir inúmeras famílias que se arriscavam a contrariar as regras do Partido Nazista.

É nesse clima de tensão constante e crescente que A Menina que Roubava Livros se situa. Apresentando um drama que se passa durante a Segunda Guerra, a história poderia se limitar a tratar o assunto de forma didática e concessiva, mas o roteiro de Michael Petroni que, por sua vez, tomou o livro best-seller de Markus Zusak como base, caminha por opções mais interessantes, colocando a narração através do ponto de vista da Morte (com a voz amaciada de Roger Allam, o Illyrio Mopatis de Game of Thrones) e acompanhando a difícil adaptação da protagonista que, sendo filha de uma judia, precisa se refugiar na casa de alemães.

Imagem: 20th Century Fox, 2013

Imagem: 20th Century Fox, 2013

O diferencial do filme perante os demais sobre guerras é sua sensibilidade que varia entre situações amenas e leves (até líricas, em determinados momentos), com outras que exploram a crueldade humana em seu estado mais cru (a guerra em si e as consequências que ela traz em uma sociedade). Essa abordagem lembra um pouco, inclusive, O Menino do Pijama Listrado, outro filme que também mostra os horrores do Nazismo através da óptica de uma criança. Operando essa balança de extremos, o roteiro acaba focando em elementos que sempre apontam para um ato principal: o de narrar.

É interessante assistir A Menina que Roubava Livros e perceber que a todo tempo o filme traz alguma situação ou enredo que mostra, discute ou até brinca com a questão de contar uma história. Tem-se, primeiramente, Liesel, a protagonista que não é alfabetizada. Como era esperado, ela passa a ser intimidada com brincadeiras pelos colegas de escola (“Burra! Burra! Burra!”), o que a leva a contar para o pai adotivo que não sabe ler. Este, então, decide ensiná-la e, no porão de casa, mantém um grande quadro negro onde deixa livre para que Liesel escreva todas as palavras diferentes que achar nos livros (interessante notar também que, em algumas tomadas, é possível visualizar apenas palavras escritas que remetem à dor, como “knife” e “pain”, escritas ao longo das paredes).

Imagem: 20th Century Fox, 2013

Imagem: 20th Century Fox, 2013

Aproveitando esse tema de contar e ler histórias, o filme introduz o “hobby” que Liesel adquire durante a grande queima de livros promovida pelos nazistas, em 1933, com o intuito de “limpar” a literatura alemã dos escritores que o regime totalitário considerava como “desvios” ao padrão por ele imposto. O longa, porém, não se prende muito à característica da protagonista que dá nome à história, preferindo explorar mais as várias formas de se contar uma narrativa: o refugiado Max, que está na mesma casa de Liesel, morando no porão, em certo momento pede para que a garota descreva como está o dia lá fora – mas pede para que ela use as palavras que anotou no quadro, tiradas de contextos literários; pela primeira vez, então, Liesel narra a alguém uma pequena história. Quando está acontecendo um ataque aéreo na região e os moradores se escondem em um grande edifício, Liesel também recorre ao ato de contar uma história para que o medo de todos, diante dos assustadores estrondos produzidos pelo bombardeio, se transforme em interesse pela narrativa que ela cria ali, no momento. Quando Max adoece, Liesel também recorre às histórias, roubando mais livros para lê-los à noite, ao lado do moribundo. Sem contar com a própria narração principal, feita pela Morte, sabiamente interferindo pouco e deixando para que o próprio filme mostre os rumos de cada personagem.

Imagem: 20th Century Fox, 2013

Imagem: 20th Century Fox, 2013

Sempre aproveitando os temas já batidos para contá-los de maneira diversa, A Menina que Roubava Livros também debate um pouco a questão racial alienada pelos nazistas na figura de Rudy Steiner (interpretado docilmente por Nico Liersch), primeira amizade de Liesel no novo bairro. Esportista nato, Rudy decide correr, certo dia, “pintado” de preto, fazendo uma referência explícita ao corredor norte-americano Jesse Owens, admirado pelo garoto por ter ganho várias medalhas nas Olimpíadas realizadas em Berlim, em 1936. A homenagem lhe custa caro e, em uma cena simples, mas interessante, Rudy, enquanto é banhado pelo pai, o questiona da forma mais simples e verdadeira possível: “por que as pessoas não podem ser pretas?”.

Apresentando uma beleza inocente e infantil, a atriz Sophie Nélisse interpreta de forma bela a protagonista Liesel. É claro que ela está amparada em cena por atores mais do que veteranos: Geoffrey Rush interpreta o pai adotivo, Hans Hubermann, criando um homem de meia-idade bonachão, de coração doce; Emily Watson é a mãe adotiva, Rosa Hubermann: o oposto do pai, Watson confere características duras para Rosa, criando uma personagem nervosa e preocupada, mas que possui tais elementos por, no fundo, ter um coração bom. Com uma base de atores bons para contar a história, o diretor Brian Percival, que dirigiu diversos episódios da premiada série inglesa Downton Abbey, não ousa. Ele segue o ritmo da narrativa, entregando belas fotografias, principalmente nas tomadas aéreas do início do longa, editadas com transições elegantes e fluidas.

Imagem: 20th Century Fox, 2013

Imagem: 20th Century Fox, 2013

O filme, portanto, não se perde entre os temas que deseja tratar, falando, sim, sobre os horrores promovidos pela guerra e principalmente pelo nazismo, mas também aproveitando o contexto histórico para incluir outras questões relacionadas, como a do menino Rudy que não entende o racismo explícito no movimento nazista (uma singela alegoria da capacidade alienadora que Hitler foi capaz de desenvolver nas gerações mais novas de alemães). O que torna todos esses permeios elegantes é o tema maior apresentado, desenvolvido, discutido e exercitado em todo o filme: a capacidade do humano ser humano ao criar e contar histórias, sejam elas apresentadas por uma criança ou contadas de forma calma e traiçoeira pela própria Morte.

Pôster: Arsonal, 2013

Pôster: Arsonal, 2013

The Book Thief, dirigido por: Brian Percival; escrito por: Michael Petroni (baseado na obra A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak).

Com: Sophie Nélisse, Geoffrey Rush, Emily Watson, Nico Liersch, Ben Schnetzer, Roger Allam.

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