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O Lobo de Wall Street

Apesar de muitas qualidades, o novo filme de Martin Scorsese, com toda a certeza, se sustenta com a estonteante interpretação de Leonardo DiCaprio. O ator, que deslanchou em Hollywood justamente com os papeis interpretados em vários filmes do diretor veterano, prova que amadureceu não apenas como sujeito, mas também como profissional do cinema – e de um cinema de classe.

O Lobo de Wall Street conta a história de Jordan Belfort, um jovem que deseja se tornar um grande corretor em Wall Street e, com isso, enriquecer. Logo em seu primeiro dia como corretor oficial, Belfort tem o azar de iniciar sua carreira quando acontece a Black Monday, episódio histórico em que as bolsas de valores de diversos países caíram drasticamente, algo que não acontecia desde o crack da Bolsa de Nova York, em 1929. Desanimado com sua falta de sorte, Jordan acaba encontrando uma pequena firma com corretores que trabalham fora das altas ações do chamado “pregão” de Wall Street, telefonando para clientes que investem em empresas pequenas e medíocres. A diferença, no entanto, é que a comissão paga para os corretores é de 50%. Quando Jordan recebe essa informação, imediatamente sua ambição faz o dois mais dois necessário para entender que ele pode enriquecer muito… enganando os clientes.

Imagem: Paramount Pictures, 2013

Imagem: Paramount Pictures, 2013

Seria um filme comum se não estivesse nas mãos de Scorsese. Experiente como narrador da sétima arte e à vontade para trabalhar principalmente com um ator com quem já possui muitas colaborações, o diretor chega a escarnecer do público através do protagonista interpretado por DiCaprio. Em certos momentos, enquanto explica a função de um corretor de ações, Jordan, dirigindo-se diretamente para a câmera e ignorando completamente a quarta parede, interrompe o que está dizendo para rir da nossa cara e falar: “deixa pra lá, vocês não vão entender mesmo!”. Isso e diversos outros detalhes podem ser notados durante toda a projeção, provando que Martin Scorsese deseja contar a história através dos elementos que compõem seu filme, seja com o protagonista, seja com o uso de slowmotion ou seja com a montagem dinâmica, irônica e, na maioria das vezes, engraçada que o diretor emprega paralelamente com narrações em off, especialmente as de Jordan.

Aliás, se a interpretação de Leonardo DiCaprio é a base para O Lobo – tendo os demais personagens e até as próprias situações que girar em torno do protagonista, tornando-o o buraco negro que engole todos os detalhes ao redor (em um bom sentido, é claro) -, as narrações que o ator faz durante as três horas de filme são as responsáveis em guiar o público através da loucura que se torna a vida de Jordan Belfort depois que este enriquece devido às suas falcatruas. E essas narrações não apenas contarão literalmente o que está se passando na tela, mas também fazer ilustrações, observações, apontamentos e críticas (ácidas, em sua maioria). É, consequentemente, o que torna O Lobo de Wall Street um filme engraçado. Mas atente: sua intenção não é ser uma comédia. A todo instante, Martin Scorsese faz questão de enfatizar ao público as situações absurdas que são responsáveis pelo humor que atinge os espectadores.

Imagem: Paramount Pictures, 2013

Imagem: Paramount Pictures, 2013

E, da mesma maneira que Belfort vai se tornando um sujeito esgotado fisicamente devido às constantes farras que promove, todas regadas com muito sexo e com muitas (mas MUITAS) drogas, o público vai, em um paralelo, se cansando. Não que as três horas de O Lobo de Wall Street demorem pra passar, pelo contrário: a história e a edição do filme são tão alucinógenas e desvairadas, que em um piscar de olhos os 180 minutos de projeção se vão. Mas é fisicamente possível sentir um cansaço mental após acompanharmos a história de Belfort. É como se, por três horas, o público tomasse uma quantidade absurda de drogas e, após tudo consumado, voltasse à realidade, sentindo o peso do mundo e das pessoas à sua volta. Exatamente como Jordan se sente quando está sóbrio, fato que o leva a afirmar, a certo ponto do filme, que a realidade é horrível, fazendo-o sentir vontade de se matar. E é assim, mais uma vez, que os espectadores experimentam o filme, e não apenas o assistem, sendo tragados pelos truques cinematográficos infalíveis de Martin Scorsese. E é assim que se leva um certo tempo para digerir tantas informações exploradas de maneira tão certeira e criativa.

Relevante também comentar a pequena participação de Matthew McConaughey, que interpreta o primeiro chefe de Jordan em Wall Street. Em apenas uma cena, o ator consegue ofuscar a presença de Leonardo DiCaprio, entregando uma interpretação afiadíssima, carregando todo o personagem que deve interpretar apenas com sua voz e ganhando as risadas sinceras do público em questão de segundos. O mesmo se diz de Jonah Hill, comediante carismático que aproveita seu timing excelente com piadas para transformar as cenas em que está presente em situações absurdas, embaraçosas e, em alguns momentos, até dramáticas.

Imagem: Paramount Pictures, 2013

Imagem: Paramount Pictures, 2013

Seria difícil não elogiar tanto um filme como O Lobo de Wall Street quando este é visivelmente realizado com cuidado em todos os seus aspectos, mostrando que uma obra cinematográfica não deve ser composta apenas por um texto bom ou atuações marcantes, mas que tenha um conjunto sólido e harmonioso entre todas as camadas, tornando-se uma experiência genuína para o público. Não é surpreendente se algumas pessoas não suportarem a metralhadora de informações, imagens e atuações que o filme dispara de dentro da tela. Ao fim, é preciso ter consciência que O Lobo de Wall Street não é apenas um filme, mas uma experiência sensorial excelente.

Pôster: BLT Communications

Pôster: BLT Communications

The Wolf of Wall Street, dirigido por: Martin Scorsese; escrito por: Terence Winter (baseado na obra de Jordan Belfort).

Com: Leonardo DiCaprio, Matthew McConaughey, Jonah Hill, Margot Robbie.

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Frozen: Uma Aventura Congelante

É engraçado notar que, após a venda da Pixar, a Disney passou a produzir animações com personagens cativantes, visual técnico rico e enredos consistentes. Começou com Enrolados (Tangled, 2010), passou por Detona Ralph (Wreck-It Ralph, 2012) e agora culmina em Frozen: Uma Aventura Congelante, que já se tornou um grande sucesso nos EUA.

Baseada no livro de Hans Christian Andersen, famoso escritor de contos de fada, o filme conta a relação entre duas irmãs, filhas de um rei. Anna, a caçula, adora brincar e sempre convida a irmã mais velha, Elsa, para seus jogos. As duas crianças são diferentes em um ponto, porém: enquanto Anna é uma criança comum, Elsa possui poderes mágicos. Quando quer, ela consegue soltar raios das mãos, criando estalagmites e estalactites de gelo, congelando o chão e as paredes, e, se quiser, consegue transformar um cômodo inteiro em um ringue de patinação. Em uma dessas brincadeiras, Elsa atinge a cabeça da irmã com um de seus raios. O rei e a rainha, preocupados com a saúde da filha, conseguem a ajuda especial de trolls das montanhas, que curam Anna, mas com a condição de que ela esquecesse o que havia acontecido, além da irmã possuir poderes. O rei, então, decide isolar as irmãs, separando-as em quartos diferentes. Quando os pais falecem, Elsa torna-se a rainha: é justamente quando seus poderes voltam à tona.

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

O triunfo de Frozen é sua estrutura simples de conto de fada, que não ousa ir além e, exatamente por essa escolha, acaba não se complicando. O filme, afinal, é visivelmente direcionado para o público infantil, apesar de inserir piadas que agradam os adultos. Mas é também pela presença de personagens que, apesar de não escaparem dos estereótipos típicos de um conto fantástico, conseguem ter um desenvolvimento no desenrolar da história que Frozen captura a atenção do público, mesmo sendo interrompido, a todo instante, por uma música-tema (praticamente todos os personagens cantam uma canção própria, mas esse ponto comento mais pra frente).

Contando com uma equipe encabeçada pela produção de nada menos que John Lasseter, a qualidade técnica da animação surpreende: o uso do 3D apenas beneficia os cenários construídos no computador, criando camadas que começam desde uma profundidade realista até objetos que se projetam para fora da tela (as pontas das estalagmites geladas criadas por Elsa constantemente escapam do cenário, furando os olhos de quem usa os óculos especiais pra ver o filme). É um uso interessante, pois a terceira dimensão foi pensada juntamente com o desenvolvimento do filme, e não depois, criando um efeito orgânico. O 3D também deixa mais real os vários flocos de neve, neblina, galhos e manifestações naturais dos ambientes, proporcionando uma experiência agradável para as crianças, principalmente.

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Frozen também conta com dois personagens que servem de alívio cômico em diversas situações e que são imediatamente carismáticos: Sven, a rena de Kristoff, um rapaz que ajuda Anna, que, apesar de não falar, consegue expressar muito bem suas opiniões (seja através de Kristoff, seja por si mesmo); e Olaf, um boneco de neve mágico, criado por Elsa: simplesmente um dos melhores personagens de animação desde, talvez, a esquecida Dory (também beneficiado pela boa dublagem brasileira, sempre competente nas produções da Disney – quando não resolve escalar o Luciano Huck (!) para o trabalho).

Contando uma história agradável de acompanhar, com personagens bem entrosados e desenvolvidos, um visual muito bem construído e ainda dando-se a liberdade de incluir uma reviravolta no roteiro, Frozen: Uma Aventura Congelante é um bom filme Disney. As músicas, que a todo momento entram pra ajudar a contar a história, quebram um pouco o ritmo em alguns momentos da narrativa, mas compensam por suas composições emocionantes e divertidas. Não seria um filme da Disney sem a presença delas, afinal.

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Nota: seguindo a tradição Pixar, antes de Frozen há um divertido curta-metragem intitulado Get a Horse! e protagonizado pelo Mickey das antigas. No entanto, é um curta que precisa ser assistido em 3D pra ser cem por cento aproveitado.

Pôster: Proof

Pôster: Proof

Frozen, dirigido por: Chris Buck e Jennifer Lee; escrito por: Jennifer Lee (baseado na obra de Hans Christian Andersen).

Originalmente com as vozes de: Kristen Bell, Idina Menzel, Jonathan Groff, Santino Fontana, Josh Gad.

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Os 10 Melhores de 2013

Não faz muito sentido escolher os dez melhores filmes e colocá-los em posições determinadas sendo que, entre todos que vi em 2013, os que se destacaram mais são de gêneros muito distintos: drama, terror, aventura e até biográfico. Então aí vai uma pequena e humilde lista dos dez filmes que mais gostei, com todos lançados aqui no Brasil em 2013, e em ordem alfabética para não sugerir erros e controvérsias de classificação. Bons filmes!

To The Wonder (Pôster)Amor Pleno (To The Wonder, dir.: Terrence Malick, 2012)

Terrence Malick cria obras que não são de fácil assimilação. Sempre prezando pela fotografia, contando suas histórias através de imagens e não de diálogos, a narrativa de Amor Pleno acompanha as idas e vindas de um casal, mostrando suas alegrias, suas discussões, seus momentos de felicidade e os de tristeza. É difícil aguentar as quase duas horas do longa, mas vale a pena o esforço pela recompensa cinematográfica que Malick nos presenteia até o final.

Pôster: Cardinal Communications USABlue Jasmine (Blue Jasmine, dir.: Woody Allen, 2013)

Seguindo com o seu costume de lançar um filme por ano, Woody Allen trouxe em 2013 a história da problemática Jasmine e sua meta de renovação de vida. A protagonista, interpretada magistralmente pela bela e talentosa Cate Blanchett, consegue o feito de ter o carinho do público mesmo sendo uma mulher antipática, egoísta e cheia de problemas. Um ótimo salto na qualidade de Allen depois do mediano Para Roma Com Amor. Você pode conferir a resenha do filme clicando aqui.

Pôster: Le Cercle Noir

A Espuma dos Dias (L’écume des jours, dir.: Michel Gondry, 2013)

Com efeitos especiais às antigas e atuações divertidas, o filme baseado no romance de Boris Vian traz uma história fantasiosa, mas com críticas ácidas e problemáticas atuais. Destaque para os inventivos efeitos em stop motion e para as pernas longas e destoadas dos personagens quando vão dançar, tudo lembrando um bom e velho desenho animado. Leia a resenha do filme aqui.

Gravity (Pôster)

Gravidade (Gravity, dir.: Alfonso Cuarón, 2013)

A agradável surpresa do ano veio com Gravidade. Apesar da história simplória e da economia dos personagens, Cuarón criou uma obra cinematográfica de encher os olhos de qualquer cinéfilo, provando que sabe contar uma história que tem como base uma gama diversa de efeitos visuais e de que sabe fazer uso legítimo do 3D. Acompanhar os minutos desesperadores da astronauta interpretada por Sandra Bullock é testar os nervos do começo ao fim da sessão. Assista quando estiver disposto a encarar o filme!

Pôster: Art Machine

Pôster: Art Machine

Hobbit: A Desolação de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug, dir.: Peter Jackson, 2013)

Apesar de esticar muito a simples história contada por J. R. R. Tolkien, Peter Jackson parece ter acertado um pouco melhor a mão na segunda parte da trilogia cinematográfica que decidiu fazer para O Hobbit. Vale pagar um ingresso mais caro pra assistir o filme em high frame rate e curtir um 3D menos agressivo aos olhos. Mesmo com Jackson não sabendo utilizar muito bem a ferramenta ainda. Leia a resenha sobre o filme e saiba mais o que significa assisti-lo em 48 quadros por segundo aqui.

Man of Steel (Pôster)

Homem de Aço (Man of Steel, dir.: Zack Snyder, 2013)

Renovando a franquia do Superman, Zack Snyder entregou um filme que passeia pelos problemas da infância e adolescência de Clark Kent, além de criar uma luta entre Superman e o vilão que lembrou muito a pancadaria de Dragonball Z, o desenho. Fôlego retomado para mais filmes, com certeza. Boa atuação de Henry Cavill, além de que, claro, teve uma mãozinha do Tio Nolan pra dar um tapa na franquia.

The Conjuring (Pôster)Invocação do Mal (The Conjuring, dir.: James Wan, 2013)

Há muito tempo um filme de terror não me assustava de verdade. Acostumados a ver mais e mais capítulos de franquias como Atividade Paranormal nos cinemas, James Wan trouxe o verdadeiro terror de volta às telas contando a história de uma família que sofre com possessões, aparições e companhia limitada em sua própria casa. É a velha história dos filmes, mas com um tratamento renovado e sustos que vão fazer você pular, literalmente, da cadeira. Boa sorte se for assistir! Destaque para a ótima atuação de Vera Farmiga e a aparição da horrorosa boneca Annabelle.        

The Hunger Games - Catching Fire (Pôster)

Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, dir.: Francis Lawrence, 2013)

Jennifer Lawrence voltou pra encarnar Katniss Everdeen nos cinemas e provar que merece toda a atenção que recebe por sua atuação. Mais político que o primeiro, Em Chamas mostra o sofrimento de Katniss e Peeta, forçados a jogar novamente os Hunger Games, além de protagonizarem um romance midiático falso para atrair a atenção dos espectadores famintos por sangue. Depois da lamentação sem fim e vazia de cinco filmes d’A Saga Crepúsculo, é um alívio assistir uma franquia voltada para o público jovem que realmente respeita a inteligência de seus espectadores (e também leitores).

Evil Dead (Pôster)A Morte do Demônio (Evil Dead, dir: Fede Alvarez, 2013)

Na onda de remakes hollywoodianos, A Morte do Demônio surpreendeu ao mostrar uma versão repaginada do clássico trash dirigido por Sam Raimi nos anos 80 de forma gráfica, violenta e nada engraçada. O filme deve ser conferido pelos fãs de terror. Aos que não são, é melhor dar um chance quando estiverem bem do estômago…

Renoir (Pôster)

Renoir (Renoir, dir: Gilles Bourdos, 2012)

O filme conta uma parcela da vida do pintor francês Pierre-Auguste Renoir. Estão no longa a relação do pintor com uma de suas musas, a bela Andrée, o problema sério de artrite que torturava o artista e as suas opiniões sobre política, guerra, pintura, arte, entre outras. Destaque máximo para as belas paisagens francesas, vivamente fotografadas. Uma boa pedida para quem gosta de filmes franceses.

Algumas menções: além dos dez principais filmes, vale indicar mais alguns: V/H/S 2, Jobs, Universidade Monstros e Círculo de Fogo.

Boa escolha, boa pipoca e boa sessão!

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