Filmes

O Hobbit: A Desolação de Smaug

O Hobbit nasceu como um projeto de adaptação cinematográfica problemático. Desde as brigas entre Warner e MGM, passando por dificuldades na concepção dos detalhes dos filmes e terminando na mudança de diretor (de Guillermo del Toro para Peter Jackson), os filmes não começaram bem sua carreira na sétima arte. Por fim, depois de todos os acertos realizados, Peter Jackson assumiu o posto de diretor, deixando o seu anterior – o de produtor executivo – para cair de cabeça, mais uma vez, na Terra-média criada por J. R. R. Tolkien.

Os problemas dos filmes, então, começam por aí. Apesar de ser um fã assumido das obras do escritor sul-africano e de ter realizado a árdua tarefa de transportar para a telona um dos livros mais complexos de Tolkien de uma forma bela e muito bem reconhecida, Peter Jackson parece ter desenvolvido uma certa tendência à megalomania. É óbvio para todos que conhecem minimamente a bibliografia de Tolkien que O Hobbit não tem o mesmo tom de narrativa de O Senhor dos Anéis. Enquanto o primeiro possui um narrador divertido, que intervém a todo momento na história para palpitar com o seu leitor, o segundo veste uma voz épica, suntuosa, criando descrições magníficas e demoradas sobre cada canto dos reinos, montanhas e florestas pelos quais Frodo e Sam precisam passar.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

É dessa diferença que nasce o problema principal, talvez, desses novos filmes de Jackson: não há necessidade de esticar tanto a narrativa de Bilbo Bolseiro em busca do tesouro dos anões escondido na Montanha Solitária. A megalomania recente do diretor fica evidente, em um primeiro momento, no roteiro de A Desolação de Smaug, este segundo filme da nova trilogia situada na Terra-média: escrito por quatro pessoas (o próprio Jackson e suas constantes colaboradoras, Fran Walsh e Philippa Boyens, além de Guillermo del Toro), ele está encharcado de adições provenientes dos anexos que Tolkien foi escrevendo conforme ia expandindo o universo que criou. Não contentes em inchar uma história que deveria ser breve e divertida, os roteiristas criaram, para esse capítulo, uma nova personagem e “trouxeram de volta” outro personagem que havia dado as caras na trilogia de O Senhor dos Anéis.

A parte técnica do longa, no entanto, está magnífica. Todas as equipes responsáveis pelos efeitos visuais e especiais, além de todo o trabalho com a computação gráfica, visivelmente deram duro para criar do zero e mostrar na tela do cinema diversos cenários e seus incontáveis detalhes, que muitas vezes podem passar direto pelos olhos de espectadores menos atentos. Esse aspecto também é notável com os personagens: os wargs que servem de montaria para os orcs, as aranhas monstruosas que estão tomando conta da Floresta das Trevas e também Beorn, que infelizmente tornou-se um personagem plano na visão adotada pelos roteiristas.

O destaque, porém, fica para Smaug, como todos esperavam. Escondido desde a divulgação do primeiro longa, o grande dragão não dá as caras até precisar necessariamente fazer isso, o que aumenta a expectativa de quem está acompanhando a saga de Bilbo e, por fim, é recompensado com a magnitude do lagartão criado em computação gráfica e interpretado por Benedict Cumberbatch, que emprestou movimentos, expressões e voz (e que voz!) através da tecnologia em motion capture. Tentar encarar a face carrancuda e poderosa de Smaug, em 3D, em uma sala escura, é realmente vivenciar a história contada ali na tela diante do público.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Assim como As Duas Torres ou qualquer capítulo de transição de outra saga cinematográfica, A Desolação de Smaug começa do ponto em que Uma Jornada Inesperada terminou e termina sem conclusão. A duração desse capítulo poderia ser muito menor do que acabou sendo finalizada, ou mesmo poderia ser o segundo e último capítulo de O Hobbit nos cinemas, deixando a sensação, mais uma vez, de que Peter Jackson desaprendeu sua habilidade de cortar elementos que não são essenciais à trama e priorizar os destaques, como fez com os três filmes de O Senhor dos Anéis. Criar personagens que não estão no material de origem não é ruim, mas o problema é conceber uma nova elfa, Tauriel (interpretada por Evangeline Lilly), que não tem espaço nem tempo suficientes para ser desenvolvida e, ainda por cima, é colocada no filme justamente para servir de lado de um triângulo amoroso cafona e simplório, inchando mais ainda a já longa duração do filme.

Outro problema significativo são os anões. O que já ocorria em Uma Jornada Inesperada volta a acontecer nesse novo longa: para o espectador, não há importância quem é Balin, Dwalin, Bifur, Bofur e companhia limitada… no fim das contas o que resta para o público é um desfile de personagens praticamente iguais (mesmo usando barbas diferentes e penteados de barbas diferentes) que só correm, lutam, se escondem e que são incrivelmente irritantes. As excessões para A Desolação de Smaug são Bombur, que protagoniza uma tomada única e muito bem coreografada na cena da fuga nos barris; Balin, que se revela, mais uma vez, o único anão que pensa racionalmente (e não movido pela gula ou ganância) e acaba servindo de contrapeso para os demais; e, por fim, Thorin, cuja interpretação de Richard Armitage desenvolve melhor o personagem, mais ambicioso e perigoso a essa altura do campeonato. No fim, as demais interpretações que se destacam são as de Martin Freeman, essencialmente divertido e leve como Bilbo (exatamente como deveria ser) e, claro, Sir Ian McKellen, trazendo de novo um Gandalf marcante, apesar de pouco mostrado.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

A Desolação de Smaug preza mais pela ação, isso é visível desde os primeiros minutos de filme. E tenta dar um tom mais sombrio para a história, destacando mais o humor involuntário do que o humor físico, por exemplo. É um filme que também precisa mostrar toda a força que Smaug exerce sobre os demais, já se estabelecendo como o grande antagonista da trilogia. Um ponto interessante que deve ser lembrado é a inserção que Jackson faz de Sauron na história: mostrar seu crescente poder explica para aqueles que apenas assistiram a O Senhor dos Anéis como ele vem a ser um vilão tão poderoso como acaba se tornando na futura Guerra do Anel. O que resta agora é esperar por O Hobbit: Lá e de Volta Outra Vez e torcer para que Peter Jackson finalize essa nova trilogia de forma razoável, já que as suas duas primeiras partes estão pendendo para o lado oposto.

*

E o HFR?

Assistir A Desolação de Smaug em 3D é uma experiência a parte, apesar de que, na maioria das cenas, Peter Jackson não demonstra saber utilizar de maneira magistral a ferramenta da qual dispõe para contar sua história. Em muitas tomadas, o diretor deixa o fundo “embaçado”, prezando pelo primeiro plano, o que tira um pouco o efeito tridimensional. O interessante, na verdade, é assistir ao filme em high frame rate, ou simplificadamente HFR.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Os três filmes de O Hobbit foram filmados utilizando câmeras que captam a ação gerando 48 quadros por segundo na projeção do filme. Um filme comum é rodado a 24 quadros por segundo, em termos de uma simples comparação. Ou seja: quando você assiste A Desolação de Smaug em HFR, a ação que se passa na tela é muito próxima da sensação de que temos quando enxergamos o mundo real (se os olhos humanos fossem câmeras de cinema, eles filmariam em 60 quadros por segundo, aproximadamente), o que causa uma assustadora reação no espectador, que passa a enxergar a tela de cinema como uma janela para algo real.

O HFR permite a projeção de movimentos que não são acompanhados pelos costumeiros “borrões” que vemos quando assistimos a um filme tradicional com os personagens se movendo na tela. O problema da tecnologia é que, com essa proximidade do mundo real, os personagens criados em computação gráfica lembram muito aqueles que estão presentes nos jogos de video-game atuais: dá pra ver, notavelmente, que eles não são reais. O lado bom é que os 48 quadros por segundo suavizam muito mais o efeito 3D, permitindo ao espectador que sente dores de cabeça após ver um filme tridimensional aproveite melhor a tecnologia ao assistir A Desolação de Smaug em HFR.

Pôster: Art Machine

Pôster: Art Machine

The Hobbit: The Desolation of Smaug, dirigido por Peter Jackson; escrito por Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson, Guillermo del Toro (baseado na obra O Hobbit, de J. R. R. Tolkien).

Com: Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen, Benedict Cumberbatch, Evangeline Lilly, Ken Stott, Orlando Bloom.

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