Dunkirk

Filmes

“Mikháilov virou-se para olhar: o ponto luminoso da bomba parecia ter parado em seu zênite – na posição em que é totalmente impossível determinar sua direção. Mas isso só durou um instante: a bomba vinha cada vez mais depressa, cada vez mais próxima, de tal modo que já eram visíveis as fagulhas de sua espoleta e se ouvia o assovio fatídico, que descia direto no meio do batalhão.

– Deitem! – gritou a mesma voz assustada.

Mikháilov caiu de barriga para baixo. Praskúkhin, num movimento involuntário, curvou-se até o chão e estreitou as pálpebras; só ouviu como a bomba se chocou na terra dura, em algum lugar bem perto. Passou um segundo que pareceu uma hora – a bomba não explodiu. Praskúkhin assustou-se: será que havia se amedrontado à toa? Talvez a bomba tivesse caído longe e ele tinha apenas a impressão de que o pavio chiava bem perto. Abriu os olhos e, com uma satisfação presunçosa, viu que Mikháilov, a quem devia doze rublos e meio, estava totalmente abaixado, estendido de bruços, juntinho de seus pés, imóvel, quase agarrado a ele. Nesse instante, seus olhos toparam com o pavio aceso da bomba, que rodava a um archin de distância.”

(“Sebastopol em maio”, de Liev Tolstói. In: Contos completos, tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.)

Logo nos primeiros minutos de Dunkirk (idem, 2017), as palavras de Liev Tolstói me vieram à cabeça. Apesar de confortável em minha poltrona, apesar da pipoca estalando entre os dentes e apesar da manteiga derretendo aos poucos na língua, meus olhos grudaram na grande tela enquanto o protagonista corria entre sons de tiros e a iminência cada vez mais forte e palpável de uma morte rápida e gratuita. Sim, Dunkirk pode parecer para alguns um filme desconexo e sem alma para os padrões de Christopher Nolan. Mas é preciso ser frio além do aceitável para não se sentir apreensivo com a tensão constante do longa-metragem mais recente do diretor de Batman: o cavaleiro das trevas (2008), A origem (2010) e Interestelar (2014).

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

É um filme sobre a guerra, afinal. Mas é um filme que prefere a visão subjetiva de quem se encontra em meio ao caos. A câmera de Nolan é, ao mesmo tempo, o correspondente de guerra responsável por nos noticiar de tudo (ou quase tudo) que acontece e também nossos olhos, que contemplam o horror inevitável, o nonsense coletivo. Estamos logo atrás dos ombros de Tommy (interpretado pelo estreante Fionn Whitehead), o primeiro de uma lista enxuta de personagens que passará pelos olhos do público. O silêncio impera de início, mas dali alguns instantes é quebrado abruptamente por sons de tiros e balas ricocheteando pelo cenário deserto de uma cidade qualquer. Sentir a oposição silêncio x som ao longo das quase duas horas de projeção parece ser, sem sombra de dúvida, a sensação de estar em um país em guerra.

E este é um filme quase mudo. Mudo no sentido de diálogos, mas mudo também em relação a uma história propriamente dita. Aos ávidos por roteiros redondos ou amplamente intricados – como os que Nolan e seu irmão usualmente escrevem -, haverá um gosto amargo ao longo de todo filme e, principalmente, quando os créditos finais começarem a aparecer na tela. Não é, apesar de tudo, um problema que afete a experiência em si. Assistir Dunkirk é, em primeiro lugar, testemunhar voos repletos de curvas e manobras sinuosas, bombas explodindo em direção aos nossos olhos em um efeito prático muito mais assustador do que o melhor 3D já criado, a claustrofobia forçada por situações e cenários hostis com a ação humana através da guerra.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Filmes, como ignorado por muitos, são, aliás, histórias contadas através de imagens, através de sons. Então a fotografia de Dunkirk faz questão de libertar soldados, mesmo que por alguns minutos, quando a câmera de Nolan se aproxima entre dois postes em um travelling lento, dando a impressão de que a distância entre eles alarga-se; após o corte, vemos os soldados correrem, vemos aviões se aproximarem ameaçadoramente, vemos bombas caindo do céu. Após tudo acontecer, a câmera agora afasta-se lentamente, em um travelling inverso, e os postes se estreitam, fechando novamente os soldados em suas existências miseráveis, sem esperanças. O mesmo irá ocorrer quase ao fim da projeção, quando a câmera se aproxima por trás do piloto Farrier (interpretado pelo constante colaborador de Nolan, Tom Hardy), um plano muito parecido com aquele que apresenta misteriosamente o Coringa de Batman enquanto este espera pelos comparsas chegarem em uma van. Com a silhueta cortada pelo contraste promovido pelas chamas à sua frente, Farrier observa de maneira suntuosa a obra de arte que criou, uma bela metáfora criada através do avião incendiado.

Muito deve também ao design de som um filme como esse. Alto o bastante para amedrontar o público em momentos certos, baixo também o suficiente para deixar os nervos à flor da pele enquanto se espera o próximo estrondo ou morte iminente, Dunkirk tem êxito em seus dois extremos sonoros pois complementa a imagem de maneira rítmica, fazendo com que a aproximação de um avião torne-se um frio latejante na espinha – inclusive é um eco que entoa o final de “In the flesh?”, de Pink Floyd) – e os tiros contra a lateral de metal de um barco furem também nossos tímpanos, abrindo ainda mais a ferida da tensão e deixando o sangue escorrer por ela.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Por fim, é preciso ressaltar a colcha de retalhos coerente que a montagem cria ao juntar três linhas narrativas com tempos diferentes (uma semana, um dia, uma hora), algo já visto em outros filmes do diretor, como em A origemO cavaleiro das trevas ressurge. Tal opção torna a aproximação entre público e personagens algo mais natural, já que não há diálogos expositivos que apresentem cada pessoa ali envolvida nas cenas, muito menos a necessidade do filme se explicar (menos logo no início, quando um pequeno texto contextualiza o público sobre o que Dunkirk representa dentro da Segunda Guerra Mundial).

Inspirado também pela bela trilha-sonora composta por outro constante colaborador de Nolan, Hans Zimmer, Dunkirk torna-se a experiência mais imersiva proposta por Christopher Nolan até então. Não há reviravoltas capciosas ao final como em Interestelar, não há dúvidas propostas por objetos rodando como em A origem. Mas há algo muito mais forte que em tempos de youtubers e Snapchat torna-se cada vez mais raro e, ao mesmo tempo, necessário: o fato de que é preciso experienciar o cinema, não apenas olhar para a tela como uma criança ou adolescente olha para a incrível e absolutamente inesperada rotação de um spinner é capaz de fazer.

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Pôster: Concept Arts, 2017

Dunkirk, escrito e dirigido por: Christopher Nolan.

Com: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Glynn-Carney, Tom Hardy, Jack Lowden, James D’Arcy, Cillian Murphy, Harry Styles, John Nolan, Michael Caine (voz).

Corra!

Filmes

Não é um segredo o fato de filmes de terror serem considerados um gênero menor. Ignorados na maior parte do tempo em premiações de renome e até entre recomendações de círculos de amigos, o bom e velho filme de terror parece relegado apenas àqueles que curtem de verdade suas peculiaridades e, na maior parte das vezes, suas falhas. Ao longo do tempo, pudemos ter contato com produções que partem do terror mais trash como Uma noite alucinante: a morte do demônio (Evil dead, 1981) e Arraste-me para o inferno (Drag me to hell, 2009), ambos dirigidos por Sam Raimi, que viria despontar cada vez mais nos anos 2000 com a trilogia Homem-aranha, produções essas que ficaram marcadas com sua despreocupação com a seriedade dentro das histórias, querendo mais é que o público sentisse medo e risse ao mesmo tempo – a ponto de, no Brasil, cunharmos o termo “terrir” para esses casos. Ao mesmo tempo, pudemos assistir obras mais voltadas para o terror psicológico, com produções mais arrojadas e cuidadosas, caso de clássicos como O exorcista (The exorcist, 1973), responsável por fazer multidões passarem mal nos cinemas da época, e, mais recentemente, Invocação do mal (The conjuring, 2013), trazendo de volta o terrorzão pensado para realmente assustar o público que sai da sessão, vai para casa e continua com medo do filme.

Nos últimos tempos, porém, houve uma leva de filmes pensados de maneira mais restrita. Por serem produções ditas como independentes (livres das garras dos grandes executivos dos estúdios majoritários de Hollywood), tais filmes trouxeram um vigor interessante para o gênero. Ficaram, ainda assim, restritos ao nicho de público que procura por filmes de terror e, por assim dizer, é bem pequeno, mas ainda assim causaram um relativo burburinho entre os círculos cinéfilos. Foram os casos de, por exemplo, Os estranhos (The strangers, 2008), famoso depois principalmente pela presença de Liv Tyler, do ótimo Corrente do mal (It follows, 2014) e do angustiante O convite (The invitation, 2015). Estes exemplos mostram que, ao contrário do que aqueles que não aprovam filmes de terror pensam, filmes assim podem sim trazer ideias e execuções interessantes, com propostas, muitas vezes, até inovadoras.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

É o caso, também, de Corra! (Get out, 2017). Apostando no extremo desconforto na maioria de suas cenas, o filme começa como um suspense leve, intensificado aos poucos com elementos de terror. É um exemplo interessante do gênero que é pensado como um filme do gênero, a princípio, afinal, utiliza poucos cenários e investe mais em cenas com diálogos e interações entre personagens, mas que transgride barreiras ao bater mais na tecla da crítica social. A diferença principal, porém, é que o roteirista e diretor Jordan Peele insere tais críticas de maneira coesa à proposta da narrativa, algo que permite à história um entremeio mais orgânico, um detalhe a melhorar a crítica social em si.

Provavelmente detalhes que passarão despercebidos pela maioria do público em uma primeira assistida, Corra! inclui elementos de cena simbolizando personagens e seus pensamentos e atitudes. Logo na sequência de abertura, o carro que segue o personagem negro é, obviamente, branco, destacando-se no contraste com o cenário externo escuro. E a tensão proposta por Peele já se evidencia logo ali, com o uso de steadycam e sem cortes, a câmera acompanhando o personagem de frente enquanto o carro o segue por trás, deixando uma sensação de iminente perigo, mas que, ao mesmo tempo, prolonga o suspense para que o desconforto aumente no público. A sequência inicial dá lugar aos créditos principais e, logo em seguida, a uma outra sequência, feita para apresentar um determinado apartamento. Repleto de quadros com fotografias, cada uma é mostrada com parcimônia, dando ênfase ao fato de que cada uma conta com um elemento negro e um branco, ambos se sobrepondo, disputando espaço dentro da imagem. Nada mais simbólico para a história que se seguirá.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

Tais sequências são complementadas pela apresentação dos protagonistas. O roteiro de Peele, porém, não os introduz de maneira qualquer, criando uma situação natural típica a qualquer casal de namorados recentes, importante para o desenvolvimento separado de cada personagem. É ali que conhecemos Chris (interpretado por Daniel Kaluuya) e Rose (Allison Williams), apaixonados um pelo outro, mas realistas o suficiente para, do lado dele, entender o problema de ir visitar a família da namorada, essencialmente rica e branca, sendo negro, e do dela, ao estar preparada para encarar o desconforto e o constrangimento de defender o namorado em situações que existem apenas quando há negros envolvidos – como quando o policial pede a identidade de Chris sem motivo algum, apenas por ser negro e estar envolvido em uma situação delicada. Assim, de maneira simples e direta, o filme cria o primeiro contato entre o casal protagonista e o público, começando uma linha afetiva que será quebrada ao longo de cada ato.

A simbologia com as cores vai continuar com a introdução de personagens, é o caso do momento em que Chris conhecem os sogros, estes vestindo blusas obviamente pretas enquanto recebem-no de maneira amistosa e toda sorridente. Nada daquilo, porém, convence. E em nenhum momento a direção de Jordan Peele quer deixar tudo disfarçado, o que acaba se tornando um mérito para a história que o filme deseja contar. O público sabe ou, ao menos, tem a sensação de que algo – ou vários algos – ali não está certo, não está encaixando com o todo: a atitude mecânica dos empregados da grande casa (obviamente negros), a desculpa esfarrapada que o pai de Rose dá para justificar a existência de empregados apenas negros. Em contrapartida, o roteiro de Jordan Peele faz uso de conexões inteligentes para tocar a história para a frente, como é o caso da abstinência de Chris por nicotina e a consequente sugestão do pai de Rose pelo tratamento psicológico desenvolvido por sua mulher que, segundo ele mesmo, o fez largar o cigarro com apenas uma sessão. O tratamento, inclusive, vai ser uma das piores angústias enfrentadas pelo protagonista ao longo do filme.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

Mas enquanto tudo não parece passar de um suspense – e o diretor gosta de deixar tal ideia bem clara ao montar uma sequência entre Chris e a empregada, motivada pela desconfiança do protagonista em relação a esta mexer em seu celular, quando cria uma cena repleta de cortes que fazem apenas aumentar o enquadramento no rosto da empregada, criando planos cada segundo mais fechados, potencializando a tensão e, consequentemente, o suspense -, de repente nos vemos acompanhando um verdadeiro filme de terror. Sim, com a presença de vilões explicando seu “plano maléfico”, sim, com a presença de sangue, mutilações e derivados. Adicione também aí um sentimento de vingança motivado pelo clímax da projeção – e de repente os personagens vestem, obviamente, branco. É um ápice precedido por cenas “reveladoras”, como a do bingo mais bizarro já visto.

Tal mudança não é brusca como parece soar. É orquestrada de maneira sutil por Peele e executada aos poucos, fazendo a tensão aumentar não a ponto de prejudicar o filme, mas para colaborar com as motivações finais de cada personagem. Há a presença de um alívio cômico também, Rod Williams (interpretado por Lil Rel Howery), amigo do protagonista, usado com destreza para que não caia no ridículo e perca sua finalidade em meio à narrativa. É, por assim dizer, um motor a mais para as engrenagens de Corra! que, depois do início do clímax, não dá um momento de sossego para o espectador. Alguns poderão não concordar com o desfecho proposto pelo roteirista e diretor, mas há de se concordar que a presença do carro de polícia na cena final dá um sabor especial, principalmente pela sugestão irônica que produz dentro do contexto da sequência.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

É arriscado dizer que Get out poderá agradar até aqueles que não tem o suspense ou o terror como gênero favorito, mas a presença de sua crítica social e a condução inteligente do roteiro faz com que há uma aceitação maior de públicos. Se Jordan Peele continuar com seu fôlego fílmico e inspiração de escrita vistos nesse exemplar, podemos esperar mais boas surpresas do promissor diretor.

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Pôster: LA, 2017

Get out, escrito e dirigido por: Jordan Peele

Com: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Lil Rel Howery, Bradley Whitford, Catherine Keener, Betty Gabriel, Marcus Henderson, Stephen Root.

13 reasons why

Séries

A habilidade de julgar, inerente a qualquer ser humano, faz de nós uma espécie à parte. Podemos, por exemplo, calcular mentalmente quais são as melhores opções para sair de um ponto A e chegar a um ponto B, levando em consideração todos os entremeios ali presentes; podemos escolher entre um produto A e um B, decidindo, por fim, qual comprar, porque o julgamento nos apresentou a melhor opção; podemos, enfim, utilizá-la para muitas situações. Julgar, portanto, é uma ferramenta importante para a sobrevivência. No entanto, diferentemente de outros animais, nós também usamos nossa habilidade como um poder destrutivo – ou, em muitos casos, autodestrutivo.

Somos julgados a todo tempo. Analisados a todo tempo. Ao viver em sociedade, estamos, sem escapatória, na mira de olhos pungentes, que nos ditam o que devemos vestir, como devemos nos comportar, a maneira como precisamos conversar, a forma como devemos atuar em todos os lugares. No trabalho, somos julgados a partir das habilidades que demonstramos para com as coisas e as pessoas; socialmente, somos julgados por vestir tal roupa, rir de tal maneira, gesticular com as mãos no momento da fala, estar acompanhados por um certo alguém. Mas é na escola onde o julgamento é mais preciso. É na escola onde grupos se formam, tribos se solidificam, inimigos são naturalmente traçados. O julgamento, aí, não é, a princípio, um problema. Ele é necessário para saber com quem devemos nos misturar, com quem podemos nos abrir para compartilhar uma dor ou segredo, com quem ficamos à vontade para gargalhar e dar um ombro amigo quando o outro mais precisa de nós.

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Imagem: Netflix, 2017

Mas a escola também pode nos destruir. Ela, por ser um preparatório para a sociedade lá fora, torna-se, muitas vezes, um microcosmo hostil, um ambiente propício a discussões, rusgas e, no seu pior momento, violência. Porque, afinal, a escola é essencialmente formada pelo seu maior público, os estudantes. São eles que dão forma a uma sala de aula, são eles que irão traçar o perfil de cada ambiente. E estudantes estão em processo de crescimento físico e intelectual; são como telas em branco, em que o artista plástico é uma junção de duas partes: o próprio aluno e seu professor. Ambos vão criar uma obra que não é fixa, vão desenvolver um quadro que se modifica a todo tempo. E modificar-se não pode ser encarado como algo ruim, perigoso. Modificar-se significa o resultado de uma reflexão. E a reflexão subentende um esforço preciso e trabalhoso, algo que ainda não é amigável a todas as pessoas.

Pensemos assim: é mais fácil e cômodo eu acreditar que sei de tudo sobre um determinado assunto do que, em um certo momento, ter um desequilíbrio em minhas convicções e esse desvio me fazer acreditar que não, não sou capaz de saber tudo sobre esse assunto em especial. A permanência obstinada nessa certeza única e egoísta, esse apego ferrenho às minhas próprias certezas e a não possibilidade de uma visão mais ampla sobre as coisas ao meu redor é um movimento perigoso, uma abertura à possibilidade de abraçar algo que está dentro da natureza humana com a mesma intensidade do poder do julgamento: o preconceito. E é esse preconceito que borbulhará frases, mensagens, xingamentos e atos de violência entre pessoas e grupos diferentes em lugares propícios a tais situações. Como a escola.

É nesse ponto, então, que chegamos à série 13 reasons why.

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Imagem: Netflix, 2017

Aparentemente mais um produto voltado ao público jovem-adulto que tanto consome livros, filmes (muitas vezes baseados nestes próprios livros) e outras produções direcionadas a assuntos relativos aos adolescentes – amizade, escola, futuro profissional, romance, sexo, drogas, ansiedade, depressão -, a atual produção original da Netflix decide ir para um caminho menos explorado até então. Temos, por aí, inúmeras obras que tentam retratar as dores de uma pessoa depressiva. Mas por serem concebidas com o objetivo de atingir públicos jovens, muitas vezes assuntos sérios como um câncer terminal ou a própria depressão são romanceados a um nível preocupante. É o caso, por exemplo, de A culpa é das estrelas. Os treze episódios de 13 reasons why, todavia, deixam claro, desde o início, apesar de sua fotografia que vai das cores frias do presente para as cores quente de um passado não tão distante (além de uma trilha sonora indie apelativa aos corações adolescentes), sua abordagem: fria, direta e objetiva. Infere-se aí a possibilidade de cenas gráficas – a presença de sangue, o sexo não consentido -, infere-se também a possibilidade de discussões sobre assuntos espinhosos; e sim, tais possibilidades realmente acontecem.

É, como discutido no início, uma escolha a partir de um julgamento. E a equipe de produtores de 13 reasons why decide pelo caminho tortuoso, difícil e, o mais relevante, sem volta. Afinal, discutir abertamente temas como o machismo, o assédio sexual, a homofobia, o bullying, a depressão e a ansiedade sem glamorizar tais situações requer, em primeiro lugar, uma coragem audaciosa, pois isso será abertamente julgado (de maneira negativa, na maioria das vezes) pelo público, pela crítica, pela sociedade e as estâncias presentes nela. E a série não torna nada um mar de rosas.

A começar pelo método encontrado por Hannah Baker (interpretada por Katherine Langford) para deixar um legado pós-morte. Como a própria personagem nos diz logo no primeiro episódio, seria muito fácil deixar suas gravações em arquivos mp3 para as pessoas ouvirem em qualquer dispositivo em mãos, assim como recorrer ao Google Maps para indicar pontos estratégicos da cidade. E nada é fácil. Relacionar-se não é fácil, fazer amigos não é fácil – perdê-los menos ainda. Por que ela facilitaria, então? Hannah, portanto, grava suas memórias amargas em fitas cassete. Uma tecnologia perdida no tempo, difícil de ser utilizada em um mundo mergulhado em iPods, streaming e armazenamento na nuvem. Hannah sofreu com a espera, com a ansiedade, com um porvir eterno. Então seus ouvintes também precisarão conter-se para saber tudo o que aconteceu com ela (o que não deixa de ser levemente irônico, já que a própria Netflix disponibiliza todos os episódios de uma vez para seus assinantes).

2

Imagem: Netflix, 2017

Juntamente com as falas biográficas de Hannah, o espectador é refém da visão de Clay Jensen (interpretador por Dylan Minnette); deslocado socialmente e extremamente ansioso, Clay não apenas vai apresentar ao público as fitas de Hannah em doses homeopáticas, como também misturará os relatos da amiga com lembranças fragmentadas, num misto que confunde o espectador de propósito. A série, porém, não segue nesse ritmo, priorizando uma montagem que apresenta transições de cena e rimas visuais elegantes, interligando presente e passado de maneira fluida e didática – não podemos esquecer que o público-alvo aqui são os próprios adolescentes, e priorizar uma narrativa mais fragmentada resultaria no afastamento dessa audiência.

Além do prolongamento da espera intrínseco às fitas de Hannah e a ansiedade nata de Clay, ainda há um terceiro ponto nesse triângulo de protagonistas: servindo de guardião / mentor de Clay, Tony (interpretado por Christian Navarro) será o responsável por trazer o jovem ansioso de volta à realidade em momentos de fúria ou frustração extremos, lembrando Clay da importância de manter os desejos derradeiros de Hannah e de ouvir as fitas até o fim. É Tony também que guiará a narrativa em momentos-chave, levando a sério a importância de dar a Clay mais reflexões e perguntas do que respostas propriamente ditas – e exteriorizando sua filosofia própria ao levar o amigo para uma escalada, mostrando, literalmente, que a recompensa por um caminho difícil é maior do que chegar ao mesmo ponto B através da opção mais fácil.

13 reasons why diverge-se também ao ser uma produção que preza por mensagens visuais bem sutis, mas que quando apreendidas pelo espectador, fornecem à obra um grau de significação maior. É o caso, por exemplo, de determinados cortes entre uma cena e outra, como o momento, em um dos últimos episódios, em que um dos personagens aponta uma arma na direção da câmera, pronto para atirar e, logo após o corte, vemos um porta-retrato com a foto feliz e espontânea de uma família cujo filho único acabara de falecer. Sem fala algum, sem nenhuma narração para explicar, a própria imagem nos manda um recado: é esse personagem o verdadeiro assassino dessa história repleta de assassinos. É também nos momentos de representações delicadas, como as sequências com violência sexual, que a série mostra seu potencial imagético de maneira sutil. Quando determinada personagem sofre com uma relação sexual não consentida por ela, a câmera filma sua mão em um zoom in lento, cirúrgico; uma mão que, a princípio, estava tensa com a situação e, com o passar dos minutos, cai, sem forças, simbolizando a rendição da personagem diante do assalto que seu corpo e sua alma sofrem naquele momento.

3

Imagem: Netflix, 2017

E, se nesses casos 13 reasons why preza pelo simbólico, o mesmo não acontece com a sequência do suicídio de Hannah Baker. Se você ainda não terminou ou não começou a assistir a série, pule o restante desse parágrafo e vá direto para o próximo para evitar spoilers. Alguns espectadores podem julgar de maneira negativa a opção de se mostrar, d maneira crua, o suicídio de Hannah. Mas pensando no estilo que a série determinou para discutir todos os assuntos ali envolvidos desde o primeiro episódio, não faria sentido tratar o momento mais terrível da personagem de forma sutil, disfarçada. Um suicídio não é uma brincadeira, muito menos algo interessante. Retratá-lo requer coragem. E a opção do diretor do episódio, Kyle Patrick Alvarez, é a de manter suas lentes sobre Hannah, operando com closes enquanto a jovem corta rapidamente seus pulsos e com câmeras fixas em planos médios quando ela se deita na banheira, a respiração antes frenética dando lugar a uma calmaria dolorosa. A segunda parte, dolorosa igual, é o encontro dos pais com a filha morta dentro da banheira – o desespero realista do pai, a negação como último fio de esperança da mãe. Não bastando a imagem, a voz de Clay permeia tudo, descrevendo exatamente o que nós vemos, como um lembrete a mais para que entendamos, de vez, a seriedade de um suicídio e como ele é a junção de violências (sejam físicas, sejam psicológicas) vividas diariamente pela vítima que se rende a um último recurso: tirar a própria vida.

E se o desespero é o sentimento presente nos personagens que possuem uma ligação forte com Hannah, o oposto se vê na composição do personagem Bryce (interpretado por Justin Prentice). Com todos os atos machistas que pratica – dos mais silenciosos aos mais escancarados -, Bryce representa aqueles que não refletem, aqueles que acreditam saber tudo sobre tudo, aqueles que jamais admitirão seus atos como ações de preconceito, humilhação e violência. O jovem machista adorado pela sociedade que o rodeia devido à sua imagem pública impecável, o estuprador que acredita fazer um “favor” às meninas que “pedem” para serem “fodidas”. A construção do personagem dentro da narrativa vai, então, criá-lo como alguém que sempre aparta as brigas dos amigos, aquele que está presente para amenizar os desentendimentos e ajudar o amigo sempre que este precisa dormir fora de casa devido a questões familiares. De olhar amigável e fala mansa, Bryce é o popular que a todos atende e a todos convém. Mas, quando estão todos longe, ele é o violentador que irá intimidar com o olhar, o homem que precisará usar seu porte físico maior para ganhar quem deseja à força, sentindo o gozo da vitória através do sofrimento de sua vítima. Sua calma, mesmo diante da possibilidade de tudo ir por água abaixo em sua vida, em seu futuro, só corrobora sua sociopatia.

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Imagem: Netflix, 2017

Assim, em mais um acerto, a Netflix faz com que paramos para refletir por um instante. Prestar atenção na pessoa que está no mesmo ambiente que o seu antes da eminente tragédia é a mensagem principal deixada ao final do último episódio. Somos, muitas vezes, aquele que violenta com palavras porque não aceitamos nos outros aquilo que mais nos incomoda em nós mesmos. O problema, assim, não é a presença do outro e seu modo de vida. O problema está em nós mesmos. Não podemos julgar um suicida considerando seu derradeiro ato como uma sinal de “fraqueza” se também somos essencialmente formado por inúmeras fraquezas, incertezas e medos. Se não chegamos ao ponto de tirar nossas próprias vidas, considerando ter “superado” todas as dificuldades, isso não nos dá o direito de julgar um suicida. Isso nos dá a oportunidade de ajudá-lo ainda em vida. Já que somos dotados com a capacidade aguçada do julgamento, precisamos perceber os gritos silenciosos de ajuda daquele amigo ou familiar e julgar a melhor forma de ajudá-lo. E aprender com isso, para não precisarmos de 13 porquês para uma pessoa ter desistido absolutamente de tudo e de todos.

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Pôster: Netflix, 2017

13 reasons why, criada por: Brian Yorkey; escrita por: Elizabeth Benjamin, Diana Son, Thomas Higgins, Nathan Jackson, Nathan Louis Jackson, Kirk A. Moore, Nic Sheff, Hayley Tyler (baseada na obra Os 13 porquês, de Jay Asher); dirigida por: Kyle Patrick Alvarez, Gregg Araki, Carl Franklin, Tom McCarthy, Helen Shaver, Jessica Yu.

Com: Dylan Minnette, Katherine Langford, Christian Navarro, Justin Prentice, Miles Heizer, Devin Druid, Amy Hargreaves, Derek Luke, Alisha Boe, Brandon Flynn, Ross Butler, Kate Walsh, Charlotte Hervieux, Steven Silver, Michele Selene Ang, Josh Hamilton, Brian d’Arcy James, Sosie Bacon.

Animais noturnos

Filmes

Engraçado como o ato de ler um livro pode encantar e assustar com a mesma intensidade. Para aqueles que têm como hábito a leitura, o prazer de pegar um exemplar da estante, retirar o plástico e abrir a capa, sentindo o cheiro do papel ali conservado, não possui um valor estimado. Já os que não se aproximaram da leitura ainda veem os livros como objetos estranhos, insignificantes até. A ideia de sentar e passar algumas horas encarando as linhas, em silêncio, pode ser apavorante. O mesmo acontece, na maioria das vezes, com a apreciação de uma obra de arte sem ser literária. Uma pintura abstrata, uma instalação de um artista plástico moderno, uma intervenção artística. Quantos de nós têm acesso a um museu? Se temos, quantos de nós realmente visita um? E se visitamos, quantos de nós encaramos cada arte ali apresentada a nível de compreensão não absoluta, mas quase completa?

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Essa sensação de estranhamento é uma das primeiras a surgir com o início de Animais noturnos (Nocturnal animals, 2016). O filme do roteirista e diretor Tom Ford presenteia os olhos de seu público já de cara com créditos iniciais acompanhados por glitter caindo lentamente pela tela, acompanhado por uma trilha suave, mas com algumas notas angustiantes, como que sinalizando o que está por vir. De repente, o primeiro corte dá espaço para modelos obesas, mais velhas, nuas exceto por botas, luvas e adereços, seus peitos caídos balançando lentamente por cima de barrigas maiores ainda; uma senhora carrega dois daqueles palitos que, quando acesos, soltam faíscas, enquanto executa movimentos de uma dança sensual, em parte lânguida, em parte melancólica. A câmera de Ford as filma  em closes fechados, um corte após o outro mostrando uma mulher diferente da outra, semelhantes, a certo ponto, por causa de suas fantasias mínimas festivas, seus corpos desafiando nossa percepção do que é um modelo ideal de beleza, nossos olhos e cérebros brigando para se deleitar ou se assustar com cada plano em câmera lenta.

Intencional, Animais noturnos já choca à sua maneira desde tal abertura. Choca, mas fisga seu espectador com a mesma intensidade. Após a abertura imageticamente intensa, passamos a acompanhar a rotina de Susan Morrow (Amy Adams em um de seus melhores momentos), dona de uma galeria de arte cuja instalação atual são justamente as senhoras obesas e suas danças provocativas (em diversos sentidos). O longa, nesse começo, parece encontrar um marasmo narrativo, enquanto Susan tenta atrair a atenção de um marido insosso (interpretado por Armie Hammer), desesperado por salvar sua carreira e seu dinheiro, até o momento em que uma encomenda chega às portas da mansão, embrulhada em papel pardo. Susan, ao tentar abrir a embalagem interna ao papel pardo, corta um dedo no papel afiado – uma metáfora que a princípio parece boba, óbvia e infantil, mas que, conforme a história dentro da história se desenrola ao longo de quase duas horas de projeção, vai tomando proporções maiores, pesando sobre a protagonista e, invariavelmente, sobre nós como público também.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

A partir desse estopim em forma de metáfora do corte, o abismo de Animais noturnos começa a se abrir sobre os pés de Susan. Dentro do pacote, o original de um romance escrito por seu ex-marido (cujo nome é “Animais noturnos”). O conteúdo da história que o ex (Jake Gyllenhaal) tem a contar parece misturar ficção e uma autobiografia em uma confusão proposital de memórias, amarguras, violência e vingança. E assim como a narrativa do rapaz mistura elementos, confunde uma coisa e outra, o diretor Tom Ford passa a mesclar a história de Susan com a história que seus olhos leem no original do ex, apresentando transições de uma narrativa à outra através dos cortes esteticamente planejados para indicar ao espectador que, sim, as duas histórias se juntam, se unem, se complementam. Então, se no livro “Animais noturnos” um personagem atira, o som do disparo assusta Susan em sua sala de estar belamente mobiliada; consequentemente, nos assusta também. Há, também, sobreposição de planos de dois tipos, aquela em que as duas imagens se sobrepõem literalmente, como se ambas se fundissem em um semi fade in e um semi fade out contínuo; e aquela em que há um corte, e a imagem que se segue é quase idêntica à anterior, com os atores posicionados exatamente como os da cena que passou, causando um choque no espectador, quase confundindo-o. Essas escolhas de Ford elevam Animais noturnos a um nível acima da narrativa comum, manipulando, com a imagem, as nossas sensação em relação ao filme.

Dessa forma, a fotografia do longa vai recorrer a algumas escolhas que adicionam mais significações ao longo da trama, como quando a imagem do protagonista do romance lido por Susan está banhada por uma iluminação azulada, enquanto a própria Susan aparece sob uma intensa luz amarela, sugerindo uma das oposições quente x frio mais utilizadas pelo cinema; assim, não só nesse jogo de cores, Ford estabelece, sem uma única explicação verbal, os opostos que, a todo tempo, tentam se aproximar: Susan e seu marido atual; o protagonista do livro e sua esposa e filha; o mesmo protagonista e seu rival, o criminoso Ray Marcus (interpretado por Aaron Taylor-Johnson); o ex (por meio do romance escrito) e Susan, e assim por diante.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Por fim, o estranhamento que se iniciou lá no começo com seus créditos iniciais, e tomou proporções cada vez maiores a partir do corte no dedo de Susan, vai se acalmando enquanto a última cena de Animais noturnos se desenrola. Silenciosa, angustiante e decisiva para Susan e para o público, o final do longa é vazio propositalmente. Não para frustrar seus espectadores, mas para ressaltar que, na busca de desejos e aproximações, muitas vezes podemos e tomamos decisões que afetam de maneira decisiva a vida das pessoas que nos rodeiam. E quando essas pessoas são aquelas que apostam em um relação íntima e se entregam a um amor por nós com uma vontade genuína, a quebra do sentimento é irreversível. E se a representação dessa quebra se materializa na forma de um livro a ser publicado, sua carga de mágoas e vinganças pode cortar. De verdade.

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Pôster: B O N D, 2016

Nocturnal animals, escrito e dirigido por: Tom Ford (baseado no livro Tony & Susan, escrito por Austin Wright)

Com: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Michael Shannon, Isla Fisher, Ellie Bamber, Karl Glusman, Robert Aramayo

La La Land: cantando estações

Filmes

Desde pequenos, consumimos (no sentido ruim, na maior parte do tempo) a ideia de que buscar nossos sonhos é o que mais importa em nossa vida. Se estamos infelizes, é porque não atingimos o objetivo vital de desenvolver aquele projeto que coça dentro de nossa cabeça há anos, não estamos trabalhando naquele emprego que sempre quisemos, não estamos escrevendo o livro que deveríamos ter começado há muito tempo, não estamos isso, não estamos aquilo. Programas de TV, propagandas, séries e, principalmente, filmes sempre nos dizem isso: você precisa correr atrás dos seus sonhos.

Bem, é uma possibilidade tentadora e que, sem dúvida, nos move sempre em busca de algo maior e melhor, não importa o que necessariamente seja para cada indivíduo. Afinal, manter-se no ócio, parado, deixando a vida passar, enquanto oportunidades podem aparecer e se desmanchar diante de nossos olhos é uma situação que muitos têm horror só de pensar, ainda mais em um século repleto de tecnologias, facilidades, vai-e-vem, cobranças, produções, touchscreensstreamings para todos os lados. Se a teoria da modernidade líquida já está mais do que provada, e se estamos deixando essa modernidade vazar para a esfera sentimental, desmanchando também as relações humanas, precisamos urgentemente buscar nossos sonhos. Ou é, pelo menos, o que produtos culturais nos forçam a acreditar.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A propósito, sempre evito relacionar a palavra “produto” ou o verbo “produzir” com o substantivo “cultura” ou o adjetivo “cultural”. Passa a impressão de que uma arte, seja ela de que tipo for, precisa ser produzida; ou seja, ela tem prazos, obrigações, pontos a serem cumpridos, objetivos a serem atingidos, ou a satisfação não será completa. Como qualquer outro produto que saia das entranhas de uma indústria – ou pior: de uma corporação gigantesca, com seus tentáculos atingindo diversos lugares, situações e camadas sociais. Mas é uma obrigação à qual me submeto às vezes por um motivo muito simples: sempre vivemos e continuaremos a viver diante de obras (como as cinematográficas) que foram produzidas – no sentido que dei no começo desse parágrafo mesmo – para serem consumidas rapidamente. De certa forma, isso não é ruim. Dentro de uma cultura de massa, é natural um degradê de filmes, livros, pinturas e músicas que vão desde a mais popular, atingindo a maioria das pessoas, até a mais específica, a mais difícil de ser entendida, compreendida, interpretada.

Estou tocando nesse ponto (delicado, na maior parte das vezes) pois La la land: cantando estações traz um pouco disso à tona. Não apenas em seu próprio roteiro, como tema principal na motivação de seu casal de protagonistas, mas em sua história também: toda a concepção, gestação e o enfim nascimento do filme custou muito tempo e provavelmente muitas noites mal dormidas ao seu diretor e roteirista, Damien Chazelle. E essa história é a prova de que Hollywood ainda teme investir em filmes que, a princípio, parecem ser mais uma paixão particular de seu principal realizador do que uma produção massificada, enlatada e instantânea – sinônimos adoráveis para um provável sucesso comercial e econômico, um objetivo mais palpável para os cofres dos estúdios cinematográficos.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E apesar de ser um musical – um fator que pode aproximar e afastar públicos com a mesma intensidade -, La la land não é um filme apenas com músicas bonitinhas, passos de dança bem coreografados e planos-sequências planejados com cuidado. Ele possui sua essência, uma alma que sente pelos acertos do passado através de uma nostalgia expressada por Mia (adorável com a interpretação de Emma Stone) com sua adoração ao cinema da era de ouro e Sebastian (mais apagado por causa de Ryan Gosling) e a admiração gigantesca que nutre pelo jazz. Se o casal sente falta de épocas que não voltarão, o diretor Damien Chazelle parece sentir falta do filme leve, do cinema que encanta pelo canto, que enche nossos olhos por meio de sua principal característica: a imagem em movimento.

Junta-se, então, essas paixões nostálgicas e temos um filme colorido, pulsante e ensolarado desde os seus primeiros minutos. As cores, aliás, estabelecem o clima com um logotipo do estúdio Summit Entertainment artificialmente envelhecido para parecer vintage, além do primeiro card de créditos iniciais ser, assim como nos clássicos musicais da década de 50, “apresentado em CinemaScope”. Apresentado e não filmado pois a produção de La la land não usou lentes CinemaScope – essas foram criadas em 1953, uma tentativa do cinema para combater o eminente e recente sucesso da televisão com o público, fazendo com que os filmes, a partir de então, fossem apresentados em um aspecto de tela muito mais largo (sim, nascia, aí, o formato widescreen que temos até hoje). E o card em si também indica o clima do filme: surge em preto e branco, com seu título cortado em ambos os lados, e vai enlarguecendo, tomando toda a tela do cinema, tornando-se colorido e ressaltando o amarelo e o pink do “CinemaScope” ali escrito.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A partir dessa introdução, La la land não descansa. Com um plano-sequência inicial no meio de um congestionamento de Los Angeles, o filme já deixa claro a seu espectador que sim, haverá muitos números músicais; sim, vai ter gente cantando e dançando em situações nada comuns para uma cantoria e uma dança bem coreografada; sim, vai ter traseira de caminhão sendo aberta para revelar… uma banda completa de percussionistas. Se você passar por todas essas cenas e mesmo assim se sentir confortável o suficiente para encarar o restante, parabéns, você pode encarar La la land numa boa. O que é irônico, já que, daí em diante, os números musicais são bem mais coesos, encaixando-se organicamente a cada situação da história, principalmente quando têm a presença de Emma Stone e Ryan Gosling.

Stone, inclusive, entrega um trabalho na medida, sem emoções excessivais que poderiam facilmente estragar suas cenas mais dramáticas. Ao tentar fazer o público rir, ela consegue de maneira natural. Ao tentar fazer o público chorar também. Já Ryan Gosling, apesar de mostrar-se confortável com os infinitos sapateados e passos de valsa, além de emitir um tanto de charme considerável quando está diante das teclas de um piano ou sintetizador, faz o ritmo do filme cair negativamente quando precisa travar diálogos – com exceção, é claro, da cena em que discute o momento em que se encontra na vida com Mia, num jantar à luz de velas, um dos pontos altos do longa.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E por ser um musical, ser repleto de cores e movimentos, ter como essência a imagem e a luz, La la land não poderia deixar a desejar com sua fotografia. E não deixa. Temos planos-sequência milimetricamente planejados, com direito a câmeras que pulam de um canto a outro feito estilingues, outras que mergulham em piscinas e saem delas com a mesma facilidade, além de uma paleta de cores que presenteiam os olhos dos espectadores com pores-do-sol azuis-arroxeados e céus estrelados que vão do azul mais aveludado ao negro mais intenso.

Ao final, a impressão de que vimos um filme superficial, mais um entre tantos que pregam a busca de um sonho aparentemente impossível, pode nos tentar. Mas se analisarmos bem, La la land tenta passar sua essência não através de um desenvolvimento exemplar de personagens, muito menos por meio de discussões filosóficas; sua coluna vertebral é formada por sonhos, e eles são realizados em cada sequência musical apresentada, nos detalhes dos cenários, na escolha da cor do figurino de cada ator e figurante, nos arranjos da música composta por Jason Hurwitz. Mais do que isso, o roteiro também deixa espaço para uma melancolia necessária. Uma possibilidade negativa no meio de tanta busca por sonhos, sorrisos, danças e músicas alegres. Um ponto essencial para manter os pés no chão, mesmo que, de vez em quando, é gostoso ver atores voando para dançar uma valsa nas estrelas. Literalmente.

» Nesse link você pode ver uma montagem mostrando todas as referências a filmes e musicais que La la land faz ao longo de sua projeção.

» E nesse há um texto da Vanity Fair falando um pouco sobre a dificuldade de um diretor persistir em seus projetos pessoais (muitas vezes ignorados pelos grandes estúdios). O texto está em inglês.

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Pôster: LA, 2016

La la land, escrito e dirigido por: Damien Chazelle

Com: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J. K. Simmons, Finn Witrock

A chegada

Filmes

Alguns acreditam que o cinema é uma forma de escapismo. Ao entrar numa sala escura de projeção, você se senta diante de uma tela e esquece dos problemas que estão te atormentando a semana toda; esquece dos desastres políticos e econômicos ao redor do mundo que pipocaram na TV nos últimos; esquece de que no dia seguinte você vai acordar cedo. Mas e quando o filme entrega mais problemas e você precisa juntá-los à sua balança racional-emocional? Não que esses problemas sejam de ordem técnica e artística, algumas vezes aquele longa-metragem em específico faz com que os problemas fiquem flutuando em sua mente por um bom tempo, forçando-o a pensar na história, em suas consequências e, principalmente, (talvez a possibilidade mais assustadora) como agir diante de toda aquela narrativa se ela acontecesse no mundo real.

Temos inúmeros exemplos de filmes, em sua maioria hollywoodianos, que imaginam – e alguns que pelo menos tentam explicar melhor – como seria o relacionamento da humanidade com potenciais visitas alienígenas. Na maior parte delas, o resultado é desastroso. Catastrófico. É uma maneira, claro, de atingir uma bilheteria maior: se eu faço um filme repleto de cenas de ação, com direito a explosões sem fim e seres de outro planeta agindo de maneira violenta (ou nojenta), o apelo popular aumenta, assim como minha arrecadação. Não que isso seja errado ou ruim, vai depender de cada filme e sua abordagem ao tema. O que nos leva a uma questão principal em cinema: você deseja contar uma história ou pensa, antes, em como contar essa história?

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

O cinema, assim como a literatura é para a narrativa escrita, é moldado, através de imagens, para contar uma história de forma a extrapolar o senso comum. A sensação de sair da sala escura e ficar com a história martelando na cabeça, com mais dúvidas do que respostas, é sinal de que o filme cumpriu o seu papel de desautomatização – ou seja, ele tirou você, como público, do automático, da rotina, do dia-a-dia muitas vezes alienante. Quando se trata de histórias sobre o espaço infinito que cerca nosso planeta, podemos conhecer filmes cuja abordagem pode atingir o extremo abstrato de um espectro – como 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odssey, 1968) – e outros que tentam unir conceitos científicos e filosóficos intricados a uma narrativa mais palatável, como é o caso de Interestelar (Interstellar, 2014).

A chegada (Arrival, 2016) está, talvez, no meio-termo desse espectro. Apesar de ter uma linha narrativa comum – a protagonista, uma especialista em linguagens, é chamada pelo exército americano na tentativa de compreensão da linguagem utilizada pelos aliens visitantes -, o filme, com suas imagens, conta a história de forma não-linear. Não espere, portanto, um começo-meio-fim bonitinho, enlatado especialmente para consumo. É um roteiro que exige do espectador um mínimo de interpretação; e quanto mais a sua capacidade de interpretação é refinada, mais aproveitamento você terá da história e todos os seus detalhes ao longo da projeção.

É uma obra, portanto, que não se rende a uma autoexplicação gratuita: as peças para o mistério inerente à história estão jogadas sobre a tela do cinema; cabe a nós, público, ir montando-as conforme as mais de duas horas de filme passam diante de nossos olhos. E os aditivos, como estímulos, em tal empreitada, são duas discussões que surgem conforme seu roteiro se desdobra: uma sobre a linguagem – seu uso e suas complicações -, outra filosófico-existencial – por quê estamos aqui? o que eles vieram fazer em nosso planeta? quais são suas intenções?.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem como peça-base para uma cultura

Uma das abordagens mais instigantes – e belamente acertadas – de A chegada é a da personagem Louise Banks (interpretada por Amy Adams, fatalmente ignorada pelo Oscar desse ano). O filme poderia perder um bom tempo desenvolvendo-a ao mostrar seu dia-a-dia como professora e pesquisadora. Mas a elegância do roteiro de Eric Heisserer e da direção de Denis Villeneuve prefere mostrá-la em ação: sua perspectiva certeira como especialista do campo de linguagens, seu faro para consequências e implicações a partir de problemas que surgem, sua coragem e audácia que a tornam a força-motriz do filme.

Além dessa imagem que transmite, a personagem, em essência, entende, mais do que todos, que uma das bases – senão a principal – para uma cultura bem estabelecida é a comunicação entre seres através de uma linguagem com grande desenvolvimento. E quando o Coronel Weber (interpretado por Forest Whitaker) tenta pressioná-la para fazer a pergunta que todos querem saber a resposta (“Qual o propósito de vocês na Terra?”), A doutora Banks justifica não somente como é muito mais complicado se comunicar como também é necessário paciência e tolerância para se entender as dificuldades de uma comunicação com hipotéticos (não no filme, é claro) alienígenas e, por consequência, para apreciar o desenvolvimento paulatino do roteiro – que a muitos pode parecer lento, até monótono de início.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem cinematográfica como base para o filme

E se esse tema tão caro à história de A chegada necessita de uma atenção grande de seus realizadores, as tomadas, as cenas e as sequências do filme também são formas de comunicação. São, em suma, uma linguagem própria.

O primeiro take de Arrival começa com um fade out orgânico, a câmera saindo da escuridão em direção à luz. O movimento, no entanto, é de cima para baixo: a lente de Villeneuve observa primeiro o teto de madeira e, vagarosamente, desce até mirar uma grande vidraça, mostrando uma paisagem serena. Esse movimento se repete ao longo da narrativa, talvez mais umas duas ou três vezes, assinalando que o olhar vertical (de cima para baixo) é importante para a história ali contada – os aliens, afinal, descem do céu em direção ao planeta também em um movimento vertical; o contato entre os humanos e as criaturas começa também com um movimento vertical (aqui, porém, invertido, de baixo para cima); e todos esses momentos com uma rima visual: se iniciam no escuro e vão em direção a uma fonte de luz.

Outro ponto tocado pelo diretor canadense, de maneira metonímica, é a questão do contato. Temos, em A chegada, cenas que mostram essencialmente os personagens necessitando tocar objetos, texturas e demais materiais e substâncias. A cena em que Ian Donnelly (interpretado por Jeremy Renner) toca com as pontas dos dedos a base da nave alienígena; quando Louise toca o vidro que a separa das criaturas; as diversas cenas da Dra. Banks com sua filha recém-nascida (o primeiro contato de uma vida). A metonímia, é claro, tange a necessidade humana de conhecer algo através do tato, impulsionada pela curiosidade muitas vezes científica, mas essencialmente pura e simplesmente humana. Tal tema liga-se primordialmente ao principal da história – quem deseja fazer contato, em primeiro lugar, seja esse amigável ou hostil, são as criaturas alienígenas.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

E se pensarmos os detalhes simbólicos, talvez o que mais represente o filme em si é a escrita dos aliens. Sugerindo o infinito através de sua estrutura circular, a linguagem primeiramente compreendida por Louise é algo que transcende nossa cultura de registro – escrevemos linearmente, afinal – da esquerda para a direita ou vice-versa. E tal simbologia resume não apenas a essência de A chegada, como, da mesma forma, ressalta a importância de seu tema mais caro: a necessidade de uma linguagem deselvovida para se estabelecer uma cultura – e, mais ainda, torná-la forte e, em alguns casos, dominante.

Somados a todos esses detalhes que vão eclodindo aos poucos em nossa mente após uma sessão angustiante (no fundo, como plateia, torcemos para que tudo se resolva, é claro, e essa jornada não é algo simples, muito menos tranquilo), temos também a ambientação necessária através da trilha soturna, etérea e ameaçadora do compositor islandês Jóhann Jóhanssonn – uma música que determina o clima do filme do início ao fim, entoando o ritmo principalmente quando a equipe se aproxima da nave para suas sessões de comunicação com os aliens. Temos também uma fotografia fria, evocando essa constante ameaça que, ao mesmo tempo, não é velada, mas que paira sobre a cabeça das pessoas no filme e, consequentemente, sobre o público também.

A chegada já pode entrar para o rol de seletos filmes com temática espacial que estão muito além do tratamento comum. É um filme que não afasta o público por não habitar totalmente a esfera do abstrato, mas que não entrega tudo gratuitamente, promovendo uma experiência não apenas cinematográfica, como estética também. E essa sua estética o eleva de maneira a causar tantos questionamentos no público que sai da sessão arrebatado. Se a sentença “Qual o propósito de vocês na Terra?”, como explicado pela Dra. Banks, não é tão simples como parece, por que A chegada também não pode ser muito mais profundo do que aparentaria a um espectador qualquer?

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

Arrival, dirigido por Dennis Villeneuve, escrito por Eric Heisserer (baseado no conto “História da sua vida”, de Ted Chiang)

Com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Jadyn Malone, Abigail Piniowsky, Julia Scarlett Dan

Os melhores filmes de 2016

Filmes, Listas

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

» resenha

rogue-one

Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

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O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

» resenha

the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

julieta

Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

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Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

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Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

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“It: a coisa”, de Stephen King

Livros

Tive uma relação complicada com a considerada obra-prima de Stephen King. Comecei a ler A coisa em dezembro de 2012, numa horrível edição pocket em inglês. Comprei o livro, na época, por dois motivos: para não deixar de treinar o contato com a língua e também para conhecer o tão comentado livro. Além disso, Stephen King foi um dos autores que me introduziram ao hábito da leitura, no começo da adolescência. Na época, ganhei A hora do vampiro de presente da minha mãe (hoje, com outro nome, Salem), da velha coleção em capa dura que a Planeta deAgostini lançou, na época, nas bancas – e bem depois fui me tocar que eram edições horrorosas, com uma diagramação terrível, letra pequena, espaçamento menor ainda. O fato é que me apaixonei pela narrativa de King, e isso ainda porque não era nem o melhor livro dele.

Um tempo depois, ganhei, de aniversário, O cemitério. Apesar de ter gostado bastante de A coisa (como ainda vou explicar com mais detalhes ao longo desse texto), O cemitério foi, e ainda é, para mim, o melhor livro do mestre. Não apenas pelas reviravoltas ao longo da história, mas principalmente por seu clima de suspense que vai aumentando até transbordar-se no mais puro terror. A leitura deste foi decisiva para mim: eu gostava muito de Stephen King. No entanto, nessa minha primeira leitura de It, em 2012, minha perspectiva para o tipo de literatura que ele cria mudou radicalmente. Na época, me cansei da narrativa prolixa, dos inúmeros personagens, do desenvolvimento lento da ação. Resultado: abandonei A coisa na metade da história, lá pela página 500 e pouco. Alguns acharam loucura eu tomar essa decisão, já que estava com meio caminho andado em um livro tão grande. Mas não me arrependi.

Então, no fim de novembro do ano passado, entrei em uma FNAC e encontrei a edição nova do livro, em português, em promoção (tinha acabado de passar a Black Friday). Era uma promoção realmente muito boa para deixar passar. Comprei o tijolão prometendo a mim mesmo que daria uma segunda chance à história e que leria de uma vez só, sem me deixar levar pela tentação de abandoná-la no meio do caminho novamente. Eu realmente não sei o que funcionou melhor: a promessa, a determinação ou a promoção; apenas sei que passei dezembro lendo It: a coisa, revisitando a fictícia Derry e seus habitantes, me juntando novamente ao Clube dos Otários e me emocionando com seus medos, dores e sacrifícios.

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Doar-se

Antes de mais nada, é preciso ter claro em mente que dedicar-se a uma leitura como essa de It não é um processo tranquilo. Mesmo que você se apegue bastante aos personagens e à narrativa em si, mesmo que você se habitue ao estilo do autor, mesmo que você passe os dias curioso para saber o que vai acontecer nas próximas páginas, ler um calhamaço é um teste constante de algo que cada vez menos temos (ou cada vez menos temos oportunidade de desenvolver): paciência. Se você se entedia facilmente com filmes longos, passeios tranquilos demais e ambientes silenciosos, fazer leituras de livros que tenham mais de mil páginas não será muito sua praia. Porém, é sempre possível achar uma exceção, mesmo que leituras demoradas não façam seu estilo; ou, em outros casos, você pode até não se importar com a quantidade de páginas de um livro – desde que ele seja um bom livro -, e mesmo assim não curtir a história ou o estilo do autor (que foi o meu caso, em 2012).

Bem, se mesmo assim você estiver disposto a passar uma quinzena ou até um mês diante das páginas de A coisa, saiba que, de diversas maneiras, sua dedicação será recompensada. O livro é realmente muito bom como a maioria alega. E sim, ele pode ser considerado a obra-prima de Stephen King (digo isso num sentido geral, da opinião pública e especializada, pois por mim mesmo ainda não posso afirmar por completo, já que não li todas as obras dele para atestar que It é realmente a melhor). Os motivos para que eu afirme tudo isso são muitos, mas creio que o principal vem de um detalhe: o livro não é propriamente de terror, como todos pensam quando leem sobre. Ele é mais um encontro de diversos gêneros literários, como se King desejasse incluir, na mesma história, tudo o que ele havia tentado antes e deu certo – e, em entrevistas, o autor afirmou que sua vontade foi exatamente essa. Claro que A coisa é repleto de cenas de horror, causando suspense, medo, terror e até asco, em alguns momentos (mais sobre isso daqui a pouco). Mas iniciar sua leitura esperando que seja apenas isso será um tiro no próprio pé.

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Pennywise

Após concluir a leitura, algo ficou uns dias girando na minha cabeça. O sucesso de Stephen King vem não apenas do apelo popular de suas obras, mas como ele usa desse artifício para ir um nível mais abaixo, mais profundo. Pensei exatamente nesse ponto porque uma figura que sempre volta à minha mente quando relembro a leitura de It é, como esperado, o palhaço Pennywise. É interessante porque, para atrair suas vítimas, o ser (acho que esse termo é o que melhor o, ou a, define) conhecido como Coisa toma a forma de um palhaço aparentemente gentil. Depois de refletir um pouco sobre isso, cheguei à conclusão de que aí está o que poderíamos chamar de genialidade – ou, se não quisermos exagerar tanto, esperteza – de Stephen King: ele se apropria de uma figura popular (o palhaço) como símbolo para toda uma alegoria que irá permear os cantos mais obscuros e os mais óbvios da história. Pensem bem: mesmo quem não tem medo de palhaços, pode considerá-los criaturas assustadoras, macabras até. Tendo isso, é possível um mundo de horrores prontos para serem degustados por leitores ávidos em busca de terror, seja ele sutil ou escatológico. E It: a coisa é uma bandeja completa de terrores.

Sim, terrores. A figura do palhaço, que se desmembra em diversas outras (o Lobisomem, o Leproso, a Múmia, etc), começa a alimentar os medos de cada personagem da história, e esses medos terão níveis de intensidade diferentes, gerando, por consequência, cenas que vão desde o mais barato susto até a concretização de algo completamente nojento. Além disso, o terror não reside apenas em Pennywise. Ele é, na verdade, a concretização dos medos das crianças – e, mais tarde, de suas versões adultas -, medos esses que vêm de suas próprias vidas. Ben, o gordo; Bill, o gago; Richie, o incoveniente; Eddie, o hipocondríaco; Stan, o judeu; Mike, o negro; Bev, a mulher. Cada um possui um “defeito” apontado com dedos vigorosos pela sociedade da época (mas que cai como uma luva para a sociedade de hoje também), um prato completo para que a Coisa entre em ação, utilizando desses “defeitos” para atingir cada personagem. E consegue, é claro. Assim, A coisa não é um livro de terror que o coloca em primeira instância para justificar sua história. Ele é a justificativa da história, uma inversão primorosa e que encaixa de maneira orgânica ao enredo que, no final das contas, possui a estrutura de um romance de formação.

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O verdadeiro horror

O que nos leva ao principal do livro: aqui, o narrador de King vai esmiuçar a história de cada personagem, desde a sua infância até a fase adulta (a pior). É por isso que ler It é doar-se, pois o tempo dispensado para esse detalhamento é grande, muito grande, justificando suas 1102 páginas de história. Alguns, em um primeiro momento, poderão ter a impressão de que isso é apenas encheção de linguiça (eu mesmo, em 2012, pensei assim), mas todas as coisas contadas ao longo de capítulos super extensos e interlúdios não muito menores estão ali por uma razão. Elas acabam se ligando a alguma informação lá na frente, é só aguardar. E aquelas que não se ligam de imediato, tem uma correlação mais tênue, quase temática.

Nessa enxurrada de detalhes, o narrador vai e volta no tempo, colocando lado a lado as diferenças e semelhanças extenuantes das crianças e de seus eus adultos. Com isso, o leitor passa a observar que, mesmo crescidos, os personagens carregam ainda muito de si da infância, muitas das vezes inconscientemente (como Eddie e seu casamento, Bev e seu casamento). E o estreitamento das duas linhas temporais, quase se juntando na parte final, fazendo com que a voz do presente se ligue (literalmente) à voz do passado, deixa essa intenção mais do que clara. E o amargo que o resultado dessa comparação no tempo traz é muito indigesto. Triste, melancólico. Vazio. Mas importante. Trivial. É com ele que o leitor vai perceber que o principal terror de It: a coisa não são seus monstros, seus pesadelos, suas cenas grotescas. É o fato de que, por mais que sua infância seja feliz, divertida, idílica, você cresce. Você, em algum momento, se transforma em um adulto. Cheio de trabalho, preocupações, contas para pagar e angústias diárias para lidar. Esse, no fim das contas, é o verdadeiro horror.

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A edição

Após a venda da Editora Objetiva para a Companhia das Letras, a obra de Stephen King passou a ser editada pelo selo Suma de Letras. Não que isso seja ruim, muito pelo contrário. Abandonados ao marasmo de edições tenebrosas da época da Objetiva, os livros de King eram publicados com folha branca, letra miúda e espaçamento horrível. Uma tortura para qualquer leitor. Agora, alguns upgrades necessários foram feitos.

Folha amarelada, fonte grande e espaçamento confortável para os olhos de qualquer mortal. E apesar do calhamaço que A coisa é, a gramatura do papel colabora para um peso razoável – não digo que é um livro leve, mas apesar de sua grande quantidade de páginas, ele surpreende por não ser tão pesado. Sem contar, é claro, toda a parte gráfica das capas, completamente reformuladas em relação às edições antigas, que possuíam a mesma identidade visual no nome do autor e títulos. Agora, cada obra possui seu estilo independente.

Algo que pode deixar os mais exigentes felizes é sua revisão. Realizada por Rita Godoy e Ana Kronemberger, creio ter encontrado, no máximo, 10 erros (e completamente compreensíveis, algo como faltar uma letra ou duas palavras, na sequência, invertidas) ao longo de todo o livro. É bem considerável, convenhamos. Além, é claro, da tradução de Regiane Winarski, que realizou algumas mudanças em relação à tradução da edição antiga (como manter, sabiamente, o nome de Pennywise no original – na outra edição era Parcimonioso) e que manteve o estilo de King de maneira competente.

» Uma curiosidade: o livro demorou 4 anos para ser escrito, de 9 setembro de 1981 a 28 de dezembro de 1984.

» Procurando vídeos e textos sobre o livro após ter terminado minha leitura, encontrei esse (que não é o melhor do mundo, apesar de alguns apontamentos relevantes) em que há a indicação de um artigo extremamente bom sobre A coisa (mas que, infelizmente, está em inglês), e que levanta questões e discussões bem boas sobre a história e todo o entorno de sua escrita e publicação – além de uma análise sobre a cena, talvez, mais polêmica de It, envolvendo a menina Beverly. Ah, devo avisar que este texto linkado está repleto de spoilers, então leia por sua conta e risco.

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Capa: Rodrigo Rodrigues / Suma de Letras / Editora Objetiva, 2014

It, de Stephen King. Publicado pela Suma de Letras.

Tradução de Regiane Winarski, 1104 páginas.

Rogue One: uma história Star Wars

Filmes

Ao ser anunciada, há alguns anos, a venda dos direitos relacionados à franquia Star Wars para a Disney, muita gente torceu o nariz. Tratando-se de uma das séries cinematográficas mais rentáveis de todos os tempos, os filmes criaram, invariavelmente, uma legião de fãs nem um pouco maleável. Não que todos atuem dessa maneira, mas o chamado fandom de Star Wars é conhecido como um dos mais exigentes dentre todos os grupos de fãs de quaisquer sagas. Assim, quando George Lucas veio a público para acalmar os ânimos, os fãs continuaram com um pé atrás. Ano passado, no entanto, O despertar da força (Star Wars: the force awakens) foi bem recebido, principalmente por ser um filme digno de tratar com o cânone da mesma maneira competente que introduz novos personagens e tramas.

E falando no adjetivo “competente”, acompanhar mais uma aventura desse universo já tão rico em Rogue One: uma história Star Wars (Rogue One, 2016) é perceber o quão competente este novo filme torna-se ao longo de suas 2h13 de projeção. A Disney precisa, é claro, ter muito cuidado com Star Wars, pois ao mesmo tempo em que anuncia um filme por ano dessa nova safra da saga, deixando fãs e potenciais novos admiradores com um largo sorriso no rosto, a empresa tem, consequentemente, um problemão a enfrentar: conseguir entregar obras que revisitem e atualizem o que já está estabelecido sem estragar o já realizado (e, dessa maneira, não ofendendo a obra em si e seus fãs), ao mesmo tempo em que precisa de experimentações, ou Star Wars sempre será o mais do mesmo. É um linha tênue, perigosa e tentadora para os produtores, roteiristas e diretores. Até agora, porém, tudo caminha a contento.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

O diferente necessário

É gostoso, nostálgico e muito confortável sentar-se na poltrona do cinema, pegar a pipoca e, logo após as luzes se apagarem, os trailers serem exibidos e o logotipo da Lucasfilm esmaecer em um fade out silencioso, nossos olhos lerem os já mais que conhecidos a long time ago in a galaxy far, far away…. e nossos ouvidos já esperarem pelas primeiras notas da trilha clássica de John Williams explodir nas caixas de som. É. Só que não com Rogue One. E é uma sensação engraçada, como uma mensagem simples e direta de que essa história Star Wars não é um novo episódio, mas também não pode ser descartada logo de cara justamente por tal motivo. Se ela não está incluída na nova trilogia, ou na trilogia que for, ela é necessária?

Sim, e muito. Não apenas como desenvolvimento das entranhas de toda uma saga repleta de personagens, tramas, subtramas e arcos dramáticos, mas também como uma maneira de enriquecer histórias já muito conhecidas pelo público. Descobrir, no próprio cinema, pelo próprio cinema, histórias que estavam acontecendo concomitantemente com a história principal iniciada lá atrás, há quatro décadas, é um sabor rejuvenescedor para qualquer saga. Ainda mais quando conduzida de maneira tão cuidadosa como este Rogue One.

O mais interessante do filme talvez seja a marca impressa aqui e lá durante sua projeção, uma marca aparentemente discreta, mas que pode ser notada se dispensarmos um pouco mais de atenção aos detalhes. Digo isso pois, apesar de Rogue One realmente ser Star Wars no seu cerne cinematográfico mais profundo, dá pra perceber as mãos do diretor Gareth Edwards ali presentes em todo o longa, seja na composição de planos esteticamente bem cuidados, seja no uso de câmera na mão um pouco mais frequente do que já vimos em outros episódios da franquia. É claro que, no episódio VII, temos os famosos flares característicos de J. J. Abrams, acompanhados por seus ângulos inclinados nas sequências de ação; mas aqui em Rogue One, o estilo indie de Edwards se mistura ao cânone, e o resultado é uma obra segura de si, passando tal segurança e confiança na própria história que conta para um público cada vez mais ansioso e exigente pelo próximo capítulo de Star Wars. Dessa forma, quando o letreiro de a long time ago se apaga e, ao invés da trilha clássica e outro letreiro, agora amarelado e rolando de baixo para cima na tela, aparecer, nós temos já a abertura do filme com o primeiro plano. Já vemos a galáxia. É um belo resumo imagético para as próximas duas horas: o que vamos contar é direto, principalmente por meio de imagens.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

A composição de planos de Gareth Edwards

O ano de 2014 parece não ter sido o ano de Gareth Edwards e o seu tão falado Godzilla. Muito criticado, o filme, que, assim como Rogue One, era altamente antecipado por fãs e pela crítica, deixou muitas pessoas a desejar por mais aparições do monstrengo. O diretor preferiu mais sugerir do que mostrar ao longo de quase todo o filme, deixando a sequência de porrada entre gigantes mais para o final. É interessante pensar em todo esse burburinho e ver que, mesmo assim, a dona Disney decidiu escalá-lo para um filme Star Wars. Em recente entrevista para a divulgação de Rogue One, Edwards alegou que, de início, não acreditou no convite da Lucasfilm, mas alguns segundos depois já estava realizado de que queria – e muito – dirigir o filme. O tiro foi certeiro, pois talvez Gareth Edwards tenha entendido que o equilíbrio entre decisões autorais e não mexer em determinadas características que já estão consagradas é o ponto-chave para filmes como Godzilla e, obviamente, Star Wars.

E em Rogue One, quando a balança pende para características consagradas, temos um desfile de detalhes prontos para serem degustados por todos os fãs. Um potencial casal como protagonista, um robô ranzinza como alívio cômico, citações a falas e personagens clássicos (“I have a bad feeling about this“). Há, também, opções que a Disney vem mostrando desde O despertar da força, como a preferência para uma protagonista do sexo feminino que não cai em clichês e a presença de minorias étnicas, como negros e latinos; pontos importantes de inclusão, ainda mais em uma franquia com visibilidade tão grande quanto esta. Como nem tudo são flores, também contamos com alguns deslizes: o personagem tido como terrorista veste, obviamente, trajes que remetem à cultura islâmica e o asiático, obviamente, é o todo-poderoso das artes marciais (apesar de que, neste caso, o deslize não é tão grande, já que o personagem tem uma motivação dentro do roteiro que justifica melhor suas características, deixando-as menos rasas).

Agora quando a balança pende para decisões autorais, vemos composições de planos que se destacam em meio a tanto fan service. É o caso, por exemplo, da cena em que ocorre uma explosão gigantesca, e uma determinada nave está voando muito rápido, escapando das consequências desastrosas de tal explosão. A câmera de Edwards, de fora do planeta, mostra a nave saindo e os restos do desastre logo atrás, em um plano que liga tal ação com a próxima (que será no interior de um outra nave) em um único movimento de câmera, trazendo uma fluidez estética bem rara em produções blockbuster. O mesmo ocorre com a introdução de Darth Vader em duas sequências. Na primeira, ao se encontrar com Orson Krennic, o diretor enquadra este personagem sobreposto à sobra do vilão-mor da saga, de início gigante e, aos poucos, diminuindo conforme Vader caminha, aproximando-se de Krennic, num recado claro através de uma imagem: posso me adaptar à sua altura, Krennic, mas não se esqueça de que sou sempre um gigante. Na segunda, em determinada cena de ação dentro de uma nave, vários empregados estão apressados, desesperados por atravessar um corredor e chegar à extremidade, em uma porta; do outro lado, vemos nada além de sombras. Porém, repentinamente, ouve-se a respiração icônica de Darth Vader, mas ainda mergulhado nas sombras (sua grande metáfora, a propósito), seguido de uma iluminação ainda mais repentina, seu sabre de luz vermelho. A ameaça através de imagens não poderia ser mais completa. Tudo isso, claro, é acompanhado da trilha de Michael Giacchino que, nestes momentos, faz questão de lembrar John Williams.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Peças necessárias para o encaixe

Como disse no início do texto, a história de Rogue One é necessária por vários motivos. Seu principal talvez seja a narrativa em si. É o que motiva sua própria existência e, após isso, a contemplação do público. Se pensarmos bem, o cinema não seria o que sempre foi e o que é atualmente sem uma boa narrativa. É por isso que nos incomodamos tanto quando achamos uma história contada através de imagens ruim. Muitas vezes somos nós que não a compreendemos, e então a tendência natural é jogarmos a culpa no filme. Ele é que foi incompetente, ele é que foi ruim. Se damos uma segunda chance, na maior parte das vezes vemos que a incompreensão não foi gerada por causa de uma história ou de sua execução ruim: nós é que ainda não estávamos completamente preparados para aquele filme naquele momento.

Essa impressão pode acontecer na primeira metade de Rogue One. Aos fãs acostumados com ação de cabo a rabo, intercalada por momentos de diálogos e contemplação, Rogue One vai deixar uma imagem estranha em um primeiro momento. Seu ritmo não é um ritmo Star Wars clássico. É uma história que se dá tempo, que não mede esforços para desenvolver tramas e personagens ao longo de, pelo menos, uma hora. As sequências de ação, grandiosas por si só, nessa primeira metade podem surgir como alívios para aqueles sedentos por explosões e lutas de sabre de luz bem coreografadas. Mas é preciso ter calma e paciência. Rogue One vai guardando suas cartas vagarosamente, até colocá-las na mesa em sua metade final. É preciso se atentar que o roteiro, no entanto, vai fornecendo peças importantes para a saga e, ainda mais, provém também um bom encaixe para elas. De agora em diante, é torcer para que essa boa costura continue emendando de maneira tão competente e divertida os tecidos que compõem o grande universo de Star Wars.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Links que podem te interessar:

» Godzilla (Resenha)

» Star Wars: o despertar da força (Resenha)

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Pôster: B O N D, 2016

Rogue One, dirigido por Gareth Edwards; escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy.

Com: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Mads Mikkelsen.

Os melhores discos de 2016

Listas, Música

Passei muito tempo transitando entre a música pop e a independente. Já ouvi muita farofa de FM e muita banda desconhecida. Esse ano resolvi ampliar um pouco mais meu espectro musical, ainda que mantendo um pé no pop e, claro, no indie também. Passei pelo hip-hop e pelo eletrônico. Pela MPB através de releituras e um bom e velho synth-pop brasileiro pra botar muito gringo aí de queixo caído. Sem mais, vamos aos melhores álbuns desse ano?

Ah, a lista não está em ordem de pior para melhor, ou gênero, ou preferência musical. Resolvi colocá-la em ordem alfabética para que não houvesse nenhum problema em relação a esses detalhes. 🙂

“Freetown Sound”, por Blood Orange

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Conheci o projeto musical de Dev Hynes numa recomendação esperta do Apple Music. Como já disse, esse ano resolvi ampliar um pouco meu ouvido para outros gêneros, e o Blood Orange me pegou mais rápido do que eu poderia imaginar. Intimista, muitas vezes etéreo, o som de Hynes te leva para uma dimensão particular, repleto de depoimentos que se mesclam entre uma faixa e outra, acompanhando o ritmo dançante e, muitas vezes, reflexivo. Um dado curioso: Dev Hynes já compôs músicas para Sky Ferreira, FKA twigs, Florence + the Machine, Carly Rae Jepsen, The Chemical Brothers e Kylie Minogue. O rapaz não é fraco, não.

» Ouça / veja “Augustine” no YouTube.

» Ouça Freetown Sound no Apple Music.

» Ouça Freetown Sound no Spotify.

“Glory”, por Britney Spears

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A princesa do pop já conheceu o top da Billboard e o porão do fundo do poço nas clínicas de reabilitação. Foi tida como promissora, problemática, magra demais, gorda demais (you wanna a piece of me?). Enfim, uma autêntica artista pop, jogada na cova dos leões para que os tabloides a comessem viva quando bem quisessem. Bem, de uns tempos para cá, Britney Spears voltou, musicalmente falando, com tudo em Blackout, talvez seu melhor álbum; caprichou na produção sonora e visual em Femme Fatale, concorrendo, à época, com grandes destaques chamados Kesha e Lady Gaga; mas agora, em pleno 2016, ela parece estar aproveitando mais o fato de que enfim pode lançar um bom disco, promovê-lo de maneira autêntica e, principalmente, divertir-se com tudo isso. Talvez esse tempero seja o ingrediente necessário para Glory, um fôlego necessário para a carreira da cantora e, por quê não?, para nós também. Vida longa à princesa do pop.

» Ouça / veja “Slumber Party” no YouTube.

» Ouça Glory no Apple Music.

» Ouça Glory no Spotify.

“Fitz and The Tantrums”, por Fitz and The Tantrums

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Primeira vez que vi Fitz and The Tantrums foi no Lollapalooza de 2014 do Brasil (vi pela TV, pois não estava lá, infelizmente). Aparentemente mais uma banda desconhecida, os caras tomaram uma proporção grande da minha atenção nos dias seguintes enquanto eu dissecava o álbum deles da época, More Than Just a Dream. Um indie pop muito, mas muito chiclete, com direito a muitas músicas fofinhas, mas com letras ultra-depressivas. Isso melhora? Talvez. Apesar de ser um disco irregular, em minha humilde opinião de leigo musical, o novo álbum pode se tornar, ainda, mais próximo do que More Than Just a Dream sempre será. Aqui também temos músicas chiclete, mas Fitz and The Tantrums se afasta mais do som independente e mergulha num pop mais palpável para os famigerados hits de rádio e listas das mais tocadas. É um álbum divertido, no final das contas, dá pra dar uma boa atenção para ele.

» Ouça / veja “HandClap” no YouTube.

» Ouça Fitz and The Tantrums no Apple Music.

» Ouça Fitz and The Tantrums no Spotify.

“Skin”, por Flume

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Assim como Blood Orange, também descobri o Flume pelo Apple Music, em uma playlist sugerida em um dia qualquer. Se você anda procurando um som mais de boas, algo que se aproxime do chill out, mas também está com um pé no hip-hop e nas produções eletrônicas mais atuais (ou seja, que beba da mesma fonte dos caras do Major Lazer, por exemplo). Flume, na verdade, é o nome de palco de Harley Edward Streten, músico, produtor e DJ australiano. Seu som é limpo, cheio de batidas etéreas, algumas como que saindo de um sonho distante ou de uma trilha sonora de ficção científica. Dá pra dançar com Flume? Olha, acho que sim. Dá pra brisar bonito, isso sim. E já vale a pena.

» Ouça / veja “Never Be Like You (featuring Kai)” no YouTube.

» Ouça Skin no Apple Music.

» Ouça Skin no Spotify.

“Blonde”, por Frank Ocean

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Foi minha primeira experiência com Frank Ocean, e muito bem-vinda. Um R&B bem good vibes, às vezes misturado a um pop psicodélico, às vezes um som minimalista, tudo o que o seu ouvido pode pedir para um dia cheio de problemas e estresses. A voz de Ocean é macia, em alguns momentos coberta por camadas de efeitos eletrônicos, em outros totalmente límpida. O álbum ainda conta com participações de Beyoncé, Kendrick Lamar, Andre 3000, e teve produção, além do próprio vocalista, de Pharrell Williams e Jamie xx. Talvez seja um disco muito discutido ao longo dos próximos anos. Enquanto isso não acontece, o que nos resta é saboreá-lo.

» Ouça Blonde no Apple Music.

» Ouça Blonde no Spotify.

“Joanne”, por Lady Gaga

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Esse momento era inevitável. Para a maioria dos artistas pop que iniciam suas carreiras com hits estrondosos e vão alçando uma popularidade single após single, em algum momento tudo isso para e a direção musical dá uma guinada violenta. Agora com Joanne, Lady Gaga realmente deixou seus “Bad Romance” days para trás. Se você, assim como eu, não aguentava mais ouvir a cantora recitando sua fórmula contando com vários Romas e Gagas (abrindo o parêntese aqui para dizer que, sim, eu ouvi muito a música na época e, sim, eu ainda gosto dela, mas… tudo tem um limite, ok?), Joanne veio como um alívio sonoro na carreira da americana. Muita gente já está chiando, obviamente, esperando pelo momento em que Gaga voltará para a velha farofa bafônica para a próxima pista de dança. Creio que é desmerecer demais a sonoridade country / folk / rock do novo disco, um ótimo fôlego para tantos hits pop que a cantora lançou até 2013 (quando, a partir de seu ARTPOP, a guinada musical começou a apontar). Adotar também um visual mais limpo, deixando um pouco de lado suas excentricidades, está fazendo um bem danado para essa nova fase de Gaga. O disco é realmente bom, dê uma chance (ou segunda chance) a ele.

» Ouça / veja “Million Reasons” no YouTube.

» Ouça Joanne no Apple Music.

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“Remonta”, por Liniker e os Caramelows

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Pude ter a honra de ver um show de Liniker e os Caramelows no começo do ano e confesso que foi uma das minhas melhores experiências ao vivo. Performático, feminino e masculino ao mesmo tempo, a imagem híbrida, camaleonesca, com quês de Ney Matogrosso e David Bowie, me deixaram uma boa hora extasiado. Isso sem contar a grande qualidade musical de Liniker, não só pelo seu alcance vocal, mas pelos arranjos caprichados e, principalmente, as letras que rasgam a nossa carne e alma. Como não se identificar com a ferocidade nua e crua de “Zero”, ou com o lirismo, o sonho e a calma de “Sem Nome, Mas Com Endereço”? É música brasileira de máxima qualidade.

» Ouça / veja “Zero” no YouTube.

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“Junk”, por M83

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Você não sabe, mas conhece o som do M83. Provavelmente deve ter ouvido essa música aqui, ó. Lembrou? Se você nunca ouviu, agora não vai conseguir parar mais. O projeto musical de Anthony Gonzalez já existe há algum tempo, mas a banda francesa de música eletrônica só estourou mesmo em 2011 com Hurry Up, We’re Dreaming, cujo single principal você já ouviu no link ali em cima. De lá para cá, foram inúmeros convites, como compor a trilha sonora do filme Oblivion e parcerias musicais com muita gente em alta no mundo pop (The Killers, as irmãs HAIM…). A ansiedade foi ao máximo quando eles anunciaram álbum novo, e esse ano nós pudemos conferir as novidades de Junk. E elas são boas. Uma sonoridade totalmente oitentista, com uma porrada de sintetizadores e baterias eletrônicas para qualquer nerd e / ou amante do som dos anos 80 ter orgasmos musicais múltiplos. Tem música em inglês, música em francês, música sem letra e o diabo a quatro. Não vá com muita sede ao pote, porém: se o Hurry Up era uma sinfonia intergalática, uma apoteose eletrônica, Junk não se leva tão a sério assim. Então não o leve também, para você ficar mais leve (péssimo trocadilho).

» Ouça / veja “Do It, Try It” no YouTube.

» Ouça Junk no Apple Music.

» Ouça Remonta no Spotify.

“Mahmundi”, por Mahmundi

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Se você já ouviu La Roux e curtiu o som da moça (e se você nunca a ouviu, já pode abrir mais uma aba aí no navegador e fuçar no YouTube), Mahmundi será uma grata surpresa para os seus ouvidos. Melhor ainda: ela é brasileira. Brasileiríssima, eu diria. Apesar do som completamente de um synth pop descarado (o que não é ruim, claro), Mahmundi traz nas letras uma figuratividade que passa por temas caros a nós e à nossa cultura conhecida mundialmente: o sol, o verão, o calor, aquele amor que veio e nos arrebatou. Sua voz embala e seus arranjos vão te colocar um sorriso nos lábios, provavelmente. Ouça Mahmundi. Pra ontem.

» Ouça / veja “Eterno Verão” no YouTube.

» Ouça Mahmundi no Apple Music.

» Ouça Mahmundi no Spotify.

“ANTI”, por Rihanna

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Não vou me repetir tanto na questão que comentei ali em cima quando falei do JoanneANTI, por sua vez, é, de certa maneira, o Joanne de Rihanna. A barbadiana que começou aos poucos, lá em 2005, com um pop bem sem vergonha (mas grudento e, por que não?, gostoso de ouvir), chega, 11 anos depois, no seu inverso mais dark e sensual. O que é ótimo, pois mostra exatamente essa elasticidade que o mundo exige tanto dos artistas atuais. Se o Loud de 2010, como seu próprio nome diz, gritava um bom e velho popzão para as pistas, ANTI pode até seguir a mesma linha, mas para pistas diferentes – bem diferentes. É refrescante ouvir Rihanna retorcer sua dicção, feito uma magia sonora, para encaixar no ritmo alucinante da já clássica “Work”. E o álbum em si é um som muito bem-vindo para a discografia da cantora. Foi um bom adendo pop para a minha disposição musical desse ano. Não pode deixar passar.

» Ouça / veja “Kiss It Better” no YouTube.

» Ouça ANTI no Apple Music.

» Ouça ANTI no Spotify.

“This Is Acting”, por Sia

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Talvez você não saiba, mas a Sia é uma das compositoras mais disputadas no meio pop. Já escreveu músicas para muitas outras cantoras, e emprestou seu potente vocal para muito DJ e produtor aí (cof, cof, David Guetta, cof, cof, Titanium). Mesmo que seu apogeu tenha sido, obviamente, a nova-clássica “Chandelier”, o novo álbum da cantora não deixa nem um pouco a desejar. Ela consegue dividir, no mesmo espaço, composições dolorosas e hits pop genuínos, prontinhos para uma pista de dança. A combinação das batidas e os arranjos eletrônicos e sua voz rasgada, muitas vezes sofrida, é o toque agridoce que This Is Acting entrega da maneira mais agradável possível. Para completar, a cantora sabe como divulgar seu trabalho da forma mais imagética possível. Do you love cheap thrills?

» Ouça / veja “Cheap Thrills” no YouTube.

» Ouça This Is Acting no Apple Music.

» Ouça This Is Acting no Spotify.

“Silva Canta Marisa”, por Silva

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Bem, sou suspeito para falar, pois acompanho a carreira do Silva desde 2013. Na época, ele já havia lançado um EP e o primeiro álbum, Claridão. Não demorou muito e veio o segundo disco, Vista Pro Mar, seguido do mais recente, Júpiter. A discografia do capixaba é assunto para um post único, na verdade, então vamos falar mesmo é do seu último projeto, essa coisa fofa chamada Silva Canta Marisa. O cantor foi dando pistas ao longo do ano, postando uma fotenha aqui com Marisa Monte, gravando especial para a TV a cabo com músicas dela lá… até que – , eis álbum novo, só com covers de Marisa Monte. E mais uma música inédita, composta em parceira com ela mesma e com sua participação na faixa. Apesar da releitura de Silva ter alterado de maneira significativa alguns clássicos da Marisa Monte, vale uma conferida justamente para abrir os ouvidos a uma interpretação nova. E o Silva estava inspirado. Não termine o ano sem ouvir.

» Ouça / veja “Noturna (Nada de Novo na Noite) [part. Marisa Monte]” no YouTube.

» Ouça Silva Canta Marisa no Apple Music.

» Ouça Silva canta Marisa no Spotify.