Os melhores discos de 2017

Listas, Música

Dezembro chegou e está na hora de sentir, além do cheiro de Natal, ceia, chester, presentes e aquele churrasco em família que você quer evitar, o cheirinho de listas de melhores e piores do ano. Assim como todo ano, quando posto minha opinião sobre os melhores filmes que assisti, hoje é dia de ler uma lista de quinze álbuns musicais que me agradaram bastante. Não que você tenha pedido por essa lista, mas é sempre bom descobrir coisa nova, ainda mais quando se fala em música. Como sempre, minha lista não será um ranking, muito menos estará na ordem por preferência – seja ela qual for -; para não haver injustiças entre as obras, vou colocá-las por ordem alfabética de artistas, e aí cabe a você julgar e dar uma chance para cada uma delas.

Ah, caso você queira conhecer a lista do ano passado, é só clicar aqui.

Sem mais, eis os quinze discos que mais ouvi e gostei ao longo de 2017.

“Everything now”, por Arcade Fire

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Minha relação com Arcade Fire intensificou-se em 2013 quando os canadenses lançaram Reflektor, um de seus trabalhos mais ambiciosos, passando por temáticas muito caras a mim – como a mitologia clássica grega e romana. Este ano, porém, a banda mergulhou em uma onda crítica através da criação de uma corporação fictícia chamada, obviamente, Everything Now, investiu em um marketing pesado (o que transformou-se em uma autoironia deliciosa ao longo do disco) e nos presenteou com um álbum que não deixa de lado o jeito Arcade Fire de ser, ou seja, corais de vozes, arranjos de cordas que se espalham ao longo das faixas e letras cujo conteúdo deixa você para baixo quando menos espera (vide “We don’t deserve love”, a derradeira música). O vocalista Win Butler deixou claro, desde o início, a influência principal para Everything now: o grupo pop sueco ABBA, impossível de notar já nas primeiras notas do piano da faixa-título. Viajar por esse disco é passar por assuntos que variam de intensidade, mas todos apontam para a mesma direção: é preciso tomar cuidado com o mundo atual, já que queremos tudo e para já (é a mensagem inicial em “Everything now”) e, no final, nós ficamos sem aquilo que, invariavelmente, mais importa (o recado sem volta da última faixa, a já citada “We don’t deserve love”). De quebra, a primeira e última “música” do disco são, na verdade, metades de um mesmo todo, que, se ouvido em plataformas digitais, causam a sensação de infinito, de algo cíclico, algo explorado pela banda desde a divulgação embrionária de Everything now. Respire fundo e aproveite o Arcade Fire de 2017. No próximo disco eles provavelmente não serão mais os mesmos. Ainda bem.

» Ouça / veja: “Everything now“, “Creature comfort“, “Electric blue

“Utopia”, por Björk

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Se em 2015 a islandesa Björk sofria com o recente término de seu casamento e expressava sua dor no ótimo Vulnicura, a ordem agora é sentir o extremo oposto. Utopia, ao contrário, é uma ode idílica à felicidade e aos sentimentos positivos. Repleto de samples com sons de pássaros cantando, flautas doces e batidas eletrônicas que remetem a paisagens serenas e distantes, o novo disco é a cicatriz definitiva para a sangria de Vulnicura. Ainda em parceria com o produtor deste, o colombiano Arca, Björk aqui vai soar levemente como sua persona do começo da carreira solo, lá nos idos dos anos 90, seja por sua voz cada vez mais poderosa, seja pelos arranjos que misturam o poder da eletrônica com a força dos instrumentos clássicos, tornando Utopia um disco ainda para poucos (afinal, estamos falando de Björk e seu estilo peculiar), algo presente desde sua capa, uma imagem difícil de agradar os olhos logo de primeira. Em entrevistas, a cantora afirmou que Utopia é seu Tinder musical; depois de algumas audições, dá para perceber porque a brincadeira de Björk faz sentido: Utopia pode impactar menos que seu antecessor, mas não deixa de ser uma brincadeira sonora divertida de experienciar. Mal não vai fazer.

» Ouça / veja: “The gate“, “Blissing me

“Nues”, por Brigitte

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A fim de conhecer um som que foge do comum? Bem, dá para indicar um dupla de pop-folk francês, está bom para você? Aliás, por mais indie que isso soe, depois de ouvir pela primeira vez o duo Brigitte, formado pelas parisienses Aurélie Saada e Sylvie Hoarau, impossível não dar a elas uma segunda chance. Conheci o som de Brigitte por acaso, vendo o clipe para a música “Hier encore“, do disco anterior, uma faixa que revive a música disco dos anos 70 de maneira genuína, lembrando muito “Voulez-vous”, do ABBA, e soando agradavelmente para qualquer ocasião. As vozes de veludo de Aurélie e Sylvie continuam encaixando-se harmoniosamente com as novas canções de Nues, numa investida que, ao mesmo tempo, não se arrisca muito (afinal, ainda há flertes bem sucedidos com o disco) e transgride um pouco a própria zona de conforto como em “La morsure”. Seja em som ambiente para um jantar entre amigos ou ferveção geral numa pista de dança mais alternativa, Brigitte é uma descoberta deliciosa. Não perca mais seu tempo.

» Ouça / veja: “Palladium“, “La morsure“, “La baby doll de mon idole

“Pleasure”, por Feist

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Ainda numa pegada mais independente, o novo disco da Feist já pode entrar na lista de álbuns prontos para te deixar um pouco mais na bad. Não que seja um lamento sem fim: “Pleasure”, como o próprio nome diz, vai girar em torno desse sentimento tão almejado por nós, seres humanos. Da faixa-título à última música, a cantora não deixa nada tematicamente de lado. A economia no arranjo, usando poucos instrumentos para cada música, dá um toque ainda mais rústico para o material do álbum. Substitua a Feist “animadinha” do relativo sucesso comercial “Mushaboom” (música inclusive pertencente à trilha-sonora de (500) dias com ela [(500) days of summer, 2009] pela cantora mais madura e segura de si em Pleasure.

» Ouça / veja: “Pleasure“, “Century

“Something to tell you”, por HAIM

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Foram longos e arrastados quatro anos de espera entre o primeiro e fantástico álbum de estreia das irmãs HAIM, Days are gone, em 2013, e o atual Something to tell you. A espera, no entanto, valeu cada minuto. Ainda banhando-se em suas influências musicais oitentistas e produzindo um som rejuvenescedor para qualquer ouvido, o pop de HAIM não veio para brincar; as três irmãs, com formação musical desde a infância por causa dos pais músicas, cantam, mais uma vez, essencialmente, sobre o amor; melhor dizendo: cantam sobre os sentimentos pós-relacionamento. Se elas têm algo a nos contar, como o nome do disco sugere, com certeza será por meio de batidas pegajosas, sintetizadores que ainda remetem muito bem aquele Michael Jackson de Thriller e letras com melodias intricadas, mas totalmente chicletes. Para se apaixonar de vez por elas, vale conferir os clipes lançados ao longo dessa nova fase, sua maioria dirigida pelo cineasta Paul Thomas Anderson; neles, fica mais do que claro o talento de cada uma delas, não apenas como profissionais da música, mas também como atrizes diante de uma câmera. É muito talento para três irmãs.

» Ouça / veja: “Right now“, “Want you back“, “Valentine“, “Little of your love

“hopeless fountain kingdom”, por Halsey

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A voz de Halsey estourou com o single “Closer”, dos Chainsmokers, no ano passado. Mas seu talento vai muito além de emprestar os vocais para duplas de música eletrônica. Porém cuidado: aqui a bad é confirmada. Mais do que isso, hopeless fountain kingdom é uma carta endereçada aos corações frustrados, esquecidos e esmagados. Não que você não irá aproveitar caso não esteja em nenhuma das situações anteriores; o álbum traz arranjos pop prontos para a recepção comercial de uma estação de rádio, e também consolida, no mercado, mais uma cantora da atual geração de cantores que agora, além da venda de discos, precisam disputar atenção na internet e, consequentemente, dentro das paradas dos serviços de streaming.

» Ouça / veja: “Bad at love“, “Strangers

“Coração”, por Johnny Hooker

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Há uma leva nova de artistas brasileiros extremamente bons. Silva, Mahmundi, Liniker, só para citar alguns. Dá para incluir nesse grupo também Johnny Hooker. Dono de uma voz forte e rasgada, repleta de personalidade, Hooker já era conhecido por sua música “Volta”, presente na trilha-sonora do ótimo Tatuagem (2013), mas em Coração sua presença vem para marcar-se ainda mais no cenário musical nacional. Já iniciando com uma entrada impactante em “Touro”, Coração é um desfile de produções musicais arrojadas, com direito a temáticas populares, universais e pessoais. Com participações de Gaby Amarantos (e que adiciona uma camada de força ainda maior para a faixa “Corpo fechado”) e Liniker (“Flutua”), o disco ainda termina com uma marchinha de carnaval à la crítica social que cai com uma luva para os tempos conservadores do Brasil de 2017. Quem será o sortudo a conquistar o coração de Johnny Hooker?

» Ouça: “Touro“, “Caetano Veloso“, “Escandalizar

“DAMN.”, por Kendrick Lamar

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Engraçado como as coisas são. Ano passado descobri o som de Frank Ocean. Neste ano, foi a vez de Kendrick Lamar. Digo que as coisas são engraçadas pois Lamar é um dos rappers mais críticos à sociedade americana e mundial na qual vive atualmente, mas é a mesma sociedade, em sua modernidade líquida efêmera, que fez dele um sucesso comercial. Não que isso seja de todo ruim, afinal, ser conhecido agora, faz com que sua música seja mais ouvida e descoberta por mais gente. E foi o meu caso. Talentoso com as rimas que produz, as melodias que percorrem as batidas fortes desse seu DAMN. atingem até mais os menos empáticos com os problemas sociais enfrentados pelas minorias. Impossível não se deixar levar pelos primeiros versos em “BLOOD.” e viajar através das palavras cantadas de Kendrick Lamar. Música de primeira qualidade.

» Ouça / veja: “HUMBLE.“, “DNA.“, “ELEMENT.“, “LOYALTY. (feat. Rihanna)”

“Rainbow”, por Kesha

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Cinco anos com muitos processos e angústias depois, Kesha volta fortalecida. Ainda com um pé no pop / punk peculiar ao seu estilo, com pitadas de glam rock, a cantora agora precisa desabafar. Metáforas? Analogias elaboradas? Não. Kesha prefere ser direta ao ponto. E se Rainbow começa com “Bastards”, uma canção que mais parece fim de balada do que introdução a um álbum pop, o seu recado chega de maneira efetiva. Cansada com tudo e com todos, ela canaliza sua raiva, rancor e mágoas nas músicas, estas que variam entre baladas catárticas como “Praying” e pop rock de garagem como a deliciosa “Let ‘em talk”. Há espaço também para um feminismo direto e reto em “Woman”, uma das músicas com mensagem mais direta a todas as polêmicas envolvendo seu antigo produtor, o mainstream Dr. Dre. Esqueça a Kesha pop-farofa de “Tik tok” e “Shake it off”; se você ainda quer ouvir suas músicas, é preciso se preparar para uma Kesha mudada – mas também liberta de todas as suas correntes. Um alívio para os ouvidos.

» Ouça / veja: “Praying“, “Woman (feat. Dap-Kings)”, “Learn to let go“, “Rainbow

“american dream”, por LCD Soundsystem

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Se James Murphy foi um dos principais responsáveis pela identidade sonora do álbum Refletor, do Arcade Fire, ao ouvir american dream, as coisas ficam bem claras. Seu estilo paulatino, com faixas estendidas, texturas sonoras que vão uma se acumulando à outra ao sabor de cada compasso, faz desse novo disco uma apoteose sonora. Não ouça american dream com pressa, muito menos desatento. A experiência completa exige de você uma audição atenta e minuciosa, ou grande parte da riqueza dos arranjos eletrônicos de Murphy se perderá. E se David Bowie, à época, praticamente exigiu que James Murphy voltasse e revivesse o LCD Soundsystem, não podemos ignorar sua música.

» Ouça / veja: “call the police“, “american dream“, “tonite

“Ti amo”, por Phoenix

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Os franceses do Phoenix já têm uma carreira sólida, diga-se de passagem. Talvez seja essa segurança que forneceu ao grupo a vontade de criar um álbum como Ti amo. Repleto de referências ao verão europeu, o disco é, assim sendo, uma homenagem à estação do ano dedicada às praias, calor, suor, sorvetes e férias. Aliás, ouvir Ti amo é ser transportado a uma praia italiana, com direito a um gelato nas mãos, óculos escuros no rosto e protetor solar na ponta do nariz. É um som refrescante e animador, com a presença óbvia dos já famosos sintetizadores do Phoenix, além da voz ardida do vocalista Thomas Mars. Não se engane, apesar do grande sucesso, Phoenix vai muito além do hit “1901”.

» Ouça / veja: “J-boy“, “Ti amo

“Villains”, por Queens of the Stone Age

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Gutural, dilacerante, grave. São bons adjetivos para definir o novo disco dos QOFTSA. A entrada triunfal com “Feet don’t fail me” só é a ponta do iceberg, pois há toda uma progressão temática e musical ao longo das 9 faixas. Espere por guitarras inspiradas e baixos comandando o tom de cada música, numa sinfonia digna da palavra rock’n’roll. Não é um disco longo porém: em menos de 50 minutos, os Queens of the Stone Age dirão o que têm pra dizer. E bem dito.

» Ouça / veja: “The way you used to do

“Wonderful wonderful”, por The Killers

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Muita gente torceu o nariz para Battleborn, o até então último lançamento de estúdio dos Killers. A banda de Las Vegas, que começou no meio indie e estourou com “Mr. Brightside” e “Somebody told me” lá nos já longínquos 2004 hoje não pode mais se considerar pequena. Dona de shows gigantescos em arenas e estádios completamente abarrotados de gente em todo o mundo, The Killers atingiu seu topo com Day & age, em 2008, com produção de Stuart Price. Battleborn, no entanto, foi um balde de água fria para muitos dos fãs. Muitas pessoas acusavam a banda de estarem piegas demais, romântica demais. Outros já sentiam falta do empoderamento de Brandon Flowers e sua voz dolorosa em hits fabricados para serem tocados justamente nas arenas e estádios lotados. O fato é que, após um bom hiato de cinco anos, The Killers está de volta, e definitivamente não é a mesma. Em termos. Sua configuração de integrantes mudou, seu estilo também. Há, porém, aquele flerte com a fórmula de sucesso de “Mr. Brightside” no novo hit “The Man” e na potencialmente futuro hit “Run for cover”. Wonderful wonderful não se basta nos hits, todavia; há uma introdução apocalíptica, com toques bíblicos, uma marca recorrente na discografia da banda, com a faixa-título; “Life to come” é U2 sem tirar nem pôr, e não soa nem um pouco mal. Para aquela metade que não se importa com os Killers mais românticos e piegas, “Some kind of love” deverá agradar bem. Após experimentar e beber de diversas fontes, The Killers parece sinalizar uma estabilidade maior em seu estilo. Não é, de todo, uma preocupação, já que a qualidade de Wonderful wonderful não foi comprometida. Resta saber se a banda sobreviverá mais uma década sem se render ao cansaço. Esperamos muito que não.

» Ouça / veja: “The man“, “Run for cover

“I see you”, por The xx

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É oficial: The xx agora está com seus pés no pop. Mas acalme-se: sua alma indie ainda persiste. Os manejos com os diversos samples do produtor Jamie Smith dão o tom alternativo para o novo álbum da banda, enquanto as vozes dos vocalistas Romy Madley e Oliver Sim confrontam-se e entrecortam-se de maneira harmônica. É o velho esquema de The xx que não falha, mas voltado para uma proposta mais aberta, sonoramente falando. I see you, inclusive, possui um tom mais positivo e menos introspectivo como os discos anteriores do grupo, xxCoexist.

» Ouça / veja: “On hold“, “I dare you

“What if nothing”, por WALK THE MOON

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Foi difícil me desapegar do som de Talking is hard, álbum anterior da banda americana. WALK THE MOON possui um som pop que, apesar de todo o apelo comercial que possui, não se rende tão fácil ao som feito para o rádio. Ainda menos nesse novo disco, What if nothing, sendo “One foot”, talvez, a única exceção nesse sentido. Explorando experimentalismos mais elaborados nesse novo disco, a banda abusa mais de vocoders – em alguns momentos, distorcendo tanto a voz, tornando-a quase irreconhecível. Mas há, ainda, a temática mais recorrente para o grupo, ou seja, o constante pensamento naquele relacionamento que já acabou em “Surrender”, além de refrões extremamente pegajosos, como em “In my mind” e “Lost in the wind”. Ainda não me desapeguei de Talking is hard, mas será uma questão de tempo para me apegar demais ao What if nothing e o ciclo recomeçar.

» Ouça / veja: “One foot

(Bonus Track)

“Ici & maintenant (Here & now)”, por Yelle

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Yelle talvez seja uma das cantoras pop francesas mais interessante da última década. Ela começou a produzir e publicar música nos idos de 2007, ainda no jurássico MySpace. Na época, seu maior sucesso era a grudenta “Ce seu”. Talvez seu álbum maduro seja o último lançado, Complètment fou, de 2014, com uma produção muito mais arrojada, mas sem perder o DNA de Yelle: sua irreverência e excentricidades pop. Como bônus, indico esse single lançado pela cantora este ano. Repleto de ironias aos problemas tão presentes nas vidas das pessoas do século XXI (ansiedade, depressão, hipocondrias no geral), a música carrega a identidade sonora da cantora, e é uma ótima porta de entrada para sua discografia ainda pequena, mas muito profícua. Vale a pena dar uma olhada.

» Ouça / veja: “Ici & maintenant (Here & now)

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Stranger things 2

Séries

Se um dia a preocupação da TV tradicional era o advento dos serviços de streaming e a possibilidade do espectador escolher o que assistir e quando assistir, hoje já é possível notar um total rendimento ao formato consagrado principalmente pela Netflix: a série. Não é difícil de observar, por exemplo, uma recorrência maior de mudanças em novelas globais, por exemplo, como que uma transição entre o formato de folhetim clássico para o de uma história seriada, passando por alterações no ritmo da trama, aproveitamento da internet – conhecida, atualmente, como “segunda tela” – e até um tratamento mais fílmico na composição de imagens. A Netflix, inclusive, com o passar dos anos, passou de transmissora de conteúdo para produtora, e isso a estabeleceu como modelo a ser seguido.

Dentre seus sucessos de público e mercado, Stranger things  (idem, 2016) chegou no meio de 2016 para suprir a gana de um nicho de público ao mesmo tempo exigente e fiel. Representados de diversas maneiras ao longo da história da TV e também do cinema, os nerds tiveram a oportunidade de ouro de se refestelarem com a série, surtando com inúmeras referências à cultura pop dos anos 80. A fórmula, apesar de pronta para o sucesso, não é muito simples de seguir. Isso devido ao fato de, por ser justamente algo muito palatável ao olhar de diversos grupos, Stranger things poderia dar errado de muitas formas (o elenco poderia afundar a série, o desenvolvimento de personagens poderia morrer ao longo da temporada ou a produção não ser à altura das expectativas geradas pela trama). No entanto, seu enorme sucesso acabou não apenas atingindo o objetivo da fórmula de sucesso, como gerou filhotes ainda mais perigosos: como manter a qualidade de uma primeira temporada redondinha sem decepcionar as expectativas do público.

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Imagem: Netflix, 2017

Porque, assim como dito anteriormente, a série tem que atingir, em primeiro lugar, seu público cativo; passado por este crivo mais exigente, Stranger things ainda precisa almejar cair no gosto popular em massa, dando conta de não perder um público que passou a ser fiel após conferir a qualidade da primeira temporada. Assim, além de dar continuidade a uma história que desenvolveu um enredo sem pontas soltas – a não ser por aquelas intencionalmente criadas ao fim da primeira temporada -, a série agora não é mais apenas uma aposta que deu certo e fez enorme sucesso, ela representa uma história que já marcou uma geração de espectadores e, dessa forma, precisa contemplá-los cada vez mais positivamente. É o preço a se pagar por arriscar-se através da fórmula “fácil” de sucesso.

Não que isso tenha se tornado um problema dentro da nova temporada. Tirando os tropeços em um determinado episódio – mais sobre isso ao longo do texto -, Stranger Things 2 (idem, 2017) consegue manter a qualidade de trama apresentada no ano passado, com a bem-vinda vantagem de separar um tempo de tela para o desenvolvimento de seus personagens. Assim, se o foco, anteriormente, era desesperar-se para fazer referências aos anos 80, em 2 as coisas ficam mais tranquilas nesse ponto e dá espaço para que Will, Mike, Dustin e Lucas possam brilhar aos poucos durante os nove episódios disponibilizados pela Netflix agora no final de outubro. Mais que isso, os irmãos Duffer, criadores, roteiristas e diretores da série, optam também pela introdução de novos personagens, o que dá um fôlego extra e uma sensação de frescor ao roteiro.

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Imagem: Netflix, 2017

É nesse ponto que conhecemos Max (interpretada pela ótima Sadie Sink), aquela que vai se apresentar inicialmente como antagonista da trupe de protagonistas, mas que, aos poucos, passa a se revelar uma grata surpresa à série – uma necessidade de substituição à figura de Eleven (Millie Bobby Brown), relegada um pouco às sombras nesta temporada. Max e seu irmão, Billy (interpretado pelo Power Ranger Dacre Montgomery) – o antagonista humano – são os principais motores de Stranger Things 2, cada um trazendo mais força a seus respectivos núcleos de personagens, ela com os quatro garotos principais, ele com os estereótipos do ensino médio americano. A relação entre os dois atores, aliás, demonstram uma química em suas atuações muito benéfica, principalmente em relação às cenas encabeçadas por ambos, sempre com um viés mais dramático, tenso.

Pegando carona nesses novos fôlegos de elenco, Winona Ryder ainda consegue roubar todas as cenas que protagoniza, mantendo seu ar paranóico herdado da primeira temporada, como se já preconizasse os acontecimentos irrefreáveis deste novo momento. Ao seu lado, no entanto, nosso eterno Samwise Gamgee Sean Astin também vai protagonizar momentos-chave da segunda temporada ao interpretar um par romântico a princípio bobo e ingênuo demais, mas que, conforme os acontecimentos com o “enteado” Will vão se materializando, passa a representar a coragem que surge por meio de atitudes e ideias inesperadas e genuínas.

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É possível esperar a mesma qualidade nas atuações do quarteto principal. Com maiores destaques nesta temporada para Gaten Matarazzo (que interpreta Dustin) e Caleb McLaughlin (intérprete de Lucas), Stranger things 2 passa a priorizar também seus outros personagens principais, dando a estes mais tempo em cena e, consequentemente, mais desenvolvimentos para seus personagens, o que só destaca ainda mais a competência dos jovens atores. O mesmo se aplica a Joe Keery (o responsável por Steve Harrington): inicialmente apresentado como o antagonista entre os jovens na primeira temporada, Steve agora é um personagem que acabou se desenvolvendo para o bem, contando como mais um aliado dos pré-adolescentes protagonistas. Seus percalços sentimentais com a namorada Nancy (Natalia Dyer) adicionam mais tempero ao aprofundamento do personagem, tornando-o mais humano e, dessa maneira, acarretando em um reconhecimento maior com o público.

O que nos leva à dicotomia Will / Eleven. Chamo aqui de dicotomia pois ambos os personagens estão ligados ao que ficou conhecido, ano passado, como “Mundo Invertido”. Enquanto Will (interpretado por Noah Schnapp) é o hospedeiro maligno desta temporada, Eleven mais uma vez precisará equilibrar tal fato com suas habilidades psíquicas e telecinéticas. E é nesse ponto que o roteiro de Stranger things 2 renega um pouco a presença da heroína. Ah, caso não tenha assistido à nova temporada, talvez, a partir deste ponto até final do parágrafo, alguns apontamentos poderão sugerir spoilers, portanto, siga por sua conta e risco. Decidindo por uma jornada do herói solitário, a série vai optar por isolar Eleven (com a desculpa da sociedade não poder vê-la ou conhecê-la, já que “as consequências para todos os envolvidos serão drásticas”) e transformá-la no messias particular de Hawkins aos poucos (por isso sua morte e ressurreição simbólicas ao longo de toda a temporada). E se me permite a continuidade da analogia religiosa, Eleven terá apenas um episódio dedicado totalmente a si – o sétimo da temporada -, um momento em que a heroína irá para seu deserto próprio refletir sobre sua existência, atos e decisões. Infelizmente é o episódio com menor potencial da temporada (e talvez o mais pobre, narrativamente falando, de toda a série), pois seu teor acaba destoando do restante dos capítulos, numa tentativa de sugerir referências a um treinamento jedi às avessas, algo que acaba não colando muito como resultado final.

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Porém, em compensação, ainda é possível conferir uma trilha sonora inspirada que não apenas estabelece o clima para diversas cenas, como também retoma um clima oitentista muito bem-vindo à série. Aliada à música, a direção de arte se expande aqui para dar vida a novos cenários, mesmo que dentro dos conhecidos desde a primeira temporada; apesar de pecar aqui e ali em sua computação gráfica, a arte empregada no novo vilão da vez (o Monstro das Sombras) compensa as falhas. É bom também divertir-se com as referências de coisas que ainda vão se desenrolar ao longo dos episódios, como o fliperama jogado pelos protagonistas logo no primeiro episódio  – Dig Dug), um jogo que sugere a escavação como forma de combate e salvação – e tal ideia perdurará até o final da temporada – ou a música escolhida especialmente para uma ocasião que envolve todos os protagonistas no último episódio (“Every breath you take”, The Police).

Há mais de um ano eu finalizei minha resenha para Stranger things afirmando que se a qualidade da série perdurasse conforme o passar do tempo, nada mais natural do que esperar por novas temporadas e mais desenvolvimento de tramas e personagens. Agora, porém, é preciso pôr um pouco o pé no freio: agora é o momento para pensarmos se ter inúmeras próximas temporadas será algo realmente benéfico para Stranger thingsStranger things 2 por enquanto está dando conta do recado. Vamos acompanhar de perto daqui para frente.

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Pôster: Kyle Lambert, 2017

Stranger things 2, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Justin Doble, Jessie Dickson-Lopez, Kate Trefry; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Sean Astin, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Dacre Montgomery, Paul Reiser, Linnea Berthelsen.

mãe!

Filmes

Tente lembrar quantas vezes você se sentiu incomodado em uma sessão de cinema. Algo ali nas cenas daquele filme não o deixava à vontade em sua poltrona. Algo presente naquele filme realmente fez seu cérebro coçar. Ao longo da sessão de mãe! (mother!, 2017) eu senti dois impulsos: o primeiro, quase ao final da projeção, de me levantar e simplesmente sair da sala; o segundo, após a sessão, de não ter palavras o suficiente para criticar um filme tão ruim, tão gratuito e tão pretensioso quanto esta última obra de Darren Aronofsky. Vou tentar detalhar os dois lados que travaram uma briga interna ao longo de todo o filme, mas o mais frustrante é ainda não ter decidido qual ganhou, o racional ou o emocional. Se pensarmos bem, ao longo da história da arte, encontramos muitos exemplos de obras que foram pensadas e concebidas para causar incômodo em seus espectadores.

Tomemos, inicialmente, como exemplo, a pintura.

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“O pesadelo”, de Henry Fuseli: o incômodo na elegância dos detalhes

Você pode se esbaldar no Google com exemplos de quadros pintados com a intenção de despertar nojo, asco, repulsa, raiva ou medo. São sentimentos humanos importantes até para a sobrevivência, refletindo para um lado mais prático, e artistas de todas as gerações se apropriaram da ideia para compor seus trabalhos. Lembro-me de um bom quadro que utiliza tais elementos: “O pesadelo”, de Henry Fuseli, um óleo sobre tela atualmente exposto no Detroit Institute of Arts.

Apesar de não encontrarmos ali elementos que nos causem repulsa ou asco (sensações mais intensas, podendo até se manifestar de maneira física), a imagem contém detalhes interessantes. Partindo da temática de um sonho ruim, o artista representa com poucos pontos a intensidade de vivenciar uma situação muito incômoda, porém imaginária. O pesadelo, foco de estudo não apenas da arte, mas também de diversas ciências, é representado na obra de Fuseli por um pequeno demônio materializado em cima do peito de uma mulher que passa pelo pesadelo, além de uma cabeça de cavalo – aparentemente cego. O que nos causa estranheza não é, obviamente, a mulher que lá se encontra retorcendo-se enquanto passa pelo pesadelo; o rosto do demônio, virado diretamente para o espectador, e a forma como ele se deposita sobre o peito da moça faz com que relacionamos de maneira imediata com a sensação terrível de um pesadelo: até um certo nível, podemos saber que aquilo não é real, mas não conseguimos escapar da situação, ela está sobre nós, apertando nosso peito de maneira inconfundível.

A estranheza, na pintura, parte de um sentimento de incômodo, podendo aumentar e chegar a um nível mais intenso, dependendo da recepção de cada indivíduo ao contemplar a obra. Assim, a intenção de representação de um pesadelo associa-se a uma sensação já conhecida por aqueles que já passaram por um pesadelo do qual não conseguiam escapar. Ao encarar a pintura de Henry Fuseli e sentir a estranheza de ver um ser demoníaco sentado sobre o peito de uma moça que se retorce, inconsciente, consigo relacioná-la à sensação que tive quando, a um certo nível, sabia estar dentro de um pesadelo, mas não podia ou não conseguia acordar para me ver livre daquele momento ruim. Meu ponto é: Henry Fuseli não precisou abrir mão de sua elegância para causar incômodo em mim.

Pensemos agora na música.

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“Black lake”, por Björk: o incômodo pessoal expresso através da música

Em 2015, após um hiato de quatro anos, a cantora islandesa Björk lançou um disco intitulado Vulnicura, um neologismo que se aproveita do latim clássico, significando “a cura de uma ferida”, traduzindo, aqui, de maneira bem literal e despreocupada. Uma das músicas, “Black lake“, possui mais de dez minutos de duração – um verdadeiro suplício para a maioria das pessoas. A temática do álbum, porém, gira em torno da experiência vivida pela cantora após o término de uma relação que mantinha por anos com seu ex-marido. Ou seja, se Björk propôs-se uma catarse pessoal para exorcizar os demônios sobre seu peito em relação ao processo de separação pelo qual passou, nada mais compreensível do que representá-lo através de uma música difícil de ser ouvida.

Vulnicura, apesar de uma abertura convidativa e lírica, é um disco que vai contra as expectativas de qualquer pessoa, inclusive dos fãs da cantora. “Black lake”, como citado, é uma música longa e triste, expondo todas as feridas mais profundas para que sejam metaforicamente curadas. É uma canção que incomoda, que não nos deixa feliz. Porém, assim como na pintura de Fuseli, o incômodo gerado em “Black lake” não ultrapassa o limite do “aceitável”. Para aqueles que já passaram por um processo de relacionamento-separação, a identificação música-espectador ocorre de maneira profunda sem que o ouvinte reaja de maneira violenta. Assim como Fuseli, Björk também mantém uma elegância.

E então chegamos ao cinema.

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“Anticristo”, 2009, de Lars Von Trier: o mau gosto

Mas antes de comentar minha visão e experiência com mother!, gostaria de lembrar de um outro filme que também me incomodou muito quando o vi pela primeira vez: Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars Von Trier. Penso nesse exemplo porque, após alguns dias terem passado e minha raiva contra mãe! e Darren Aronofsky terem assentado, lembrei que, apesar dos pesares, Anticristo é um filme que me agrada. Não no sentido literal, é claro, já que ele possui sequências de extremo mal gosto, mas como filme, num geral, é uma obra da qual posso debater com quem estiver disposto por um bom tempo sem liquidar interpretações e teorias. E foi exatamente essa comparação que me deixou mais intrigado: por quê, afinal, eu gostei de Anticristo e simplesmente detestei mãe!?

Vamos, primeiro, aos fatos. mother! não é um filme literal. Se você está indo ao cinema em busca do novo filme de Darren Aronofsky cujo gênero é terror/suspense, já começou errado. Propositadamente vendido pela Paramount como um filme de terror, mãe! vai subverter tal conceito logo nos primeiros dez minutos de projeção. Apesar de conter elementos de suspense na primeira sequência – aquela com câmera na mão, acompanhando Jennifer Lawrence pelas costas ao longo de cômodos vazios de uma casa não muito amigável -, o longa toma um caminho diverso, e no sentido de não se encaixar em nenhum gênero exato, importando-se mais em realizar alegorias temáticas do que apresentar uma história mastigada.

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Imagem: Paramount Pictures, 2017

Por um lado, é louvável que Aronofsky idealize um projeto com tais intenções. Sofremos uma falta de filmes financiados por grandes estúdios que tirem o espectador de seu estado de conforto e alienação. Não que ir ao cinema por puro entretenimento seja algo ruim e execrável, mas ir apenas com tal intenção nos empobrece. Mas, por outro, é triste – mais que isso, é entediante – observar que o diretor apresente uma obra pretensiosa. E afirmo isso porque, talvez, seja um dos pontos que mais me incomodou: a mensagem, praticamente gritada, a todo tempo, no estilo “estou fazendo um filme cabeça! Você precisa ter referências para entender o que está acontecendo! Tudo aqui é metafórico! Sou muito foda no que faço!”. E isso incomoda. Não o incômodo do demônio me encarando na pintura de Fuseli, não o das cordas tristes e melancólicas de “Black lake”. mãe! me incomoda por ser um filme que já parte do princípio de que é bomcabeça o suficiente para causar confusão e divisão de público.

E ele causa.

O que me remete imediatamente a outra obra de Aronofsky, o já consagrado Cisne negro (Black swan, 2010). Apesar de temáticas opostas e serem obras com intenções divergentes, Cisne negro ainda assim também possui seu nível de incômodo proposital. Trabalhando com a questão do duplo no ser humano, o filme possui a pretensão de nos confundir a ponto de partirmos de uma simples história sobre uma bailarina ambiciosa e terminarmos em um O médico e o monstro atual. Seu final, poético e sublime, toma o caminho oposto da deselegância de mãe!. Confesso que, ao fazer esse paralelo pela primeira vez, questionei-me se realmente não seria a intenção do diretor de compor uma obra como mãe! proposital, com a intenção de trabalhar em um espectro que fosse do mais sutil ao mais grotesco em questão de segundos. E poderia ser isso mesmo, caso (de novo) ela não fosse tão pretensiosa. Uma obra cinematográfica que idealiza o grotesco e o mau gosto como propósito principal assume tal papel desde sua concepção. É o caso, por exemplo, de Pink flamingos, um filme de 1972 que assumiu seu papel de grotesco desde a produção – de orçamento irrisório – e contém, dentre outras “excentricidades”, uma cena de degustação de cocô de cachorro. Isso sem contar todos os filmes produzidos essencialmente nos anos 80, quando o gênero trash despontou.

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Imagem: Paramount Pictures, 2017

Dessa forma, permeando analogias que, em sua maioria, aproveitam-se de histórias e elementos bíblicos, mãe! pode ser interpretado de maneiras diversas. É possível uma leitura religiosa e de como a presença de uma religião pode ser muito nociva a uma cultura; é possível também uma leitura mais artística, pensando no papel de Javier Bardem como poeta e nos ciclos pelos quais ele passa (inspiração-concepção-publicação-hiato-bloqueio criativo-inspiração-concepção-publicação e assim por diante), tomando também o papel de Jennifer Lawrence como a musa inspiradora ou, mais literalmente ainda, a própria obra de arte; além da leitura ambiental, com a Mãe sendo, nada mais, nada menos, que a Mãe Natureza em si (apesar de fazer sentido, particularmente é uma das leituras que menos me agrada). Desse modo, o público que possuir um pouco mais de discernimento e leitura poderá criar teorias e interpretações a seu bel-prazer. Volto, no entanto, ao mesmo ponto: o problema de mother! não é ser aberto a interpretações, seu principal defeito é pecar pela própria vaidade – que, inclusive, é um ponto negativo apontado pela própria Bíblia.

Por fim, após passar por todos esses estágios, compreendi que não apenas a vaidade de Aronofsky e sua pretensão ao já imaginar que eu endeusaria seu filme é que me incomodaram. O que mais me incomodou, no fim, é não saber exatamente o porquê de mãe! ser um filme que me incomodou tanto ao fim de sua projeção. Eu apenas sentia, irracionalmente, uma raiva ampla e intensa contra o longa. E não saber determinar o que me incomodava é o que me incomodou mais. Se a intenção de Aronofsky fosse essa, desde o início, aí então eu devo dar o braço a torcer e afirmar que ele me ganhou nessa. Caso contrário, mãe! não passa de uma masturbação mental feita para aqueles que gostam de interpretar um filme que já espera de você interpretações profundas. E isso, para mim, também é uma forma de alienação.

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Pôster: James Jean, 2017

mother!, escrito e dirigido por: Darren Aronofsky

Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson.

It: a coisa

Filmes

Quando terminei de ler It, e isso foi em dezembro de 2016, a primeira sensação foi, talvez, a de nostalgia de algo pelo qual eu nunca passei, mas que, de alguma maneira, fez parte de mim. Explico: passar um tempo – ou um bom tempo, são mais de mil páginas para ler –  ao lado dos Losers é fazer parte deles, depois de semanas acompanhando a história de crianças que precisam enfrentar seus medos materializados em uma criatura maligna. E mesmo que você não tenha tido uma infância aos moldes daquela compartilhada por Bill, Ben, Beverly, Eddie, Mike, Richie e Stanley – o grupo que sofre bullying por ser obviamente formado por crianças à parte dos moldes populares da escola -, não quer dizer que não possa se identificar com as alegrias e tristezas sentidas por cada um deles; e é daí que vem a sensação de nostalgia, a falta de algo que já passou e que você tem absoluta certeza de que não terá de volta.

É o poder de síntese de Stephen King. Apesar do calhamaço It não ser um livro rápido por sua quantidade gigantesca de páginas, o autor consegue compactar ali as vidas de sete seres humanos representados em sua versão completa. Da infância à vida adulta, o leitor participa de um vai-e-vem no tempo capaz de construir pouco a pouco a identidade de cada um – e nós, invariavelmente, caímos nas graças de todos. A nostalgia proeminente é também porque sabemos quais provações os Losers enfrentarão (não de que maneira as enfrentarão, mas que, de qualquer forma, vão precisar passar por tais testes), já que eles são crianças (ou pré-adolescentes, se você preferir uma especificidade maior) prestes a entender como a vida não é tão fácil assim.

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Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Talvez seja por todo esse lado mais humano que It: a coisa (It, 2017) decepcione aqueles que esperam no filme um terror sanguinário e repleto dos chamados jump scares, os sustos causados por súbitas alterações de volume na trilha sonora ou com barulhos diegéticos. Nós somos condicionados a esperar por isso, aliás. Viemos de uma indústria cinematográfica que calcou o terror como subgênero responsável apenas por filmes rasos, feitos sob medida para deixar palmas das mãos suadas e pessoas desconfortáveis em seus assentos por uma hora e meia, duas horas, e depois, ao saírem da sala, não refletem mais sobre o que viram. It, assim como boa parte de produções mais independentes que estão despontando desde o ano passado, pensa diferente. Ainda é um filme-pipoca, daqueles para você sentar e aproveitar uma boa e velha história sobre um grupo de amigos em uma aventura durante o verão estadunidense. Mas esteja ciente: It não foca no terror. Possui elementos do gênero, é claro, o que traz nuances mais obscuras para a história – como cenas mais gráficas e um humor mais ácido -, mas preocupa-se essencialmente com a construção de seus personagens.

Assim como em outras diversas adaptações, o roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman utiliza o essencial do texto-base de King para desenvolver a história de maneira que o público não-leitor do livro também compreenda facilmente a história. Muita coisa mudou do livro para o filme, mas isso de forma alguma prejudica a trama. Ajuda, inclusive, em seu desenrolar – algo que pode incomodar os leitores mais ansiosos se tentarem dar uma chance ao livro verborrágico de Stephen King. Todos os longos interlúdios do livro estão no filme, mas diluídos em torno das sequências de discussão entre os personagens; a história de Derry, cidade onde se desenrola toda a ação, bem detalhada no livro, é sintetizada no filme na figura de Ben, o menino interessado em livros e que se torna responsável por fornecer detalhes sobre como a cidade estranhamente mata seus habitantes a cada 27 anos – em sua maioria, crianças.

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Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Ao optarem por essa diluição que não prejudica a fonte, o roteiro também possibilita transições elegantes em tela, como a primeira que apresenta os protagonistas: a cena anterior conta com ovelhas saindo de um local de morte, como que se sentindo desesperadas pela liberdade; tal cena é cortada para os alunos da escola de Derry saindo da sala de aula para as férias de verão… uma sutil mensagem. A câmera, acompanhando os meninos, já os mostra ao público para que este reconheça ali pré-adolescentes que falam asneiras, palavrões e discutem temas sérios – tudo ao mesmo tempo; seguindo no plano-sequência, a câmera adentra o banheiro feminino para nos apresentar aquela que será a única integrante mulher do Clube dos Otários, Beverly, em um momento de humilhação, mas sem baixar a guarda. Tal cena deve contar com 40 segundos, 1 minuto no máximo, mas é o suficiente para estabelecer o clima personagens-público que irá perdurar até o fim da projeção, apenas intensificando e estreitando os laços entre ambos.

O roteiro de It passou por diversos estágios. Foi re-escrito algumas vezes, revisado mais outras; geralmente um mal sinal para produções blockbuster, a revisão de roteiros pode mostrar uma produção fraca ou que está com divergências artísticas. Foi o que fãs de Stephen King temeram ao longo de toda a pré-produção do filme, que remonta a alguns anos, quando o diretor nem era Andy Muschietti e Bill Skarsgård não interpretaria o grande vilão do filme. Apesar de toda a impressão causada ao longo dos anos, o filme mostra que a união entre um roteiro bem escrito (e bem revisado, no caso), produção competente e uma direção focada naquilo que deve ser explorado de fato em um longa culminou em uma obra enxuta, emocionante e divertida ao mesmo tempo.

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Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Assim, Andy Muschietti demonstra total respeito ao texto-fonte e imprime sua assinatura em cada sequência de It: a coisa. Nas cenas em que as crianças estão prestes a enfrentar seus piores medos, Muschietti escolhe posições de câmeras que já sugerem o suspense, e em muitas delas o diretor abusa do ângulo inclinado, aquele em que a câmera “entorta” para um lado, passando a impressão de confusão, insegurança ou medo. Não é algo que prejudica ou torna-se repetitivo além da conta, e auxilia na construção da trama. A opção por um uso de efeitos práticos, deixando a computação gráfica para momentos em que esta é realmente necessária, faz com que tememos mais os diversos monstros que desfilam diante de nós.

Mas a grande aliança no filme, sem sombra de dúvida, é a direção de Andy Muschietti com a estonteante atuação de Bill Skarsgård como o palhaço Pennywise. Parcialmente causada por uma cuidadosa campanha de marketing que economizou nas aparições do vilão do longa, a performance de Skarsgård era ansiada não apenas pelos fãs do livro, mas também por aqueles que já conheciam a história porque assistiram a minissérie produzida pela ABC em 1990. Eternizada com a interpretação de Tim Curry, seu já clássico Pennywise não deve ser comparado com o de Bill Skarsgård pelo simples motivo óbvio de que são produções distintas, e a comparação aqui alimentaria mais um desgaste entre fãs do que chegaria a um ponto interessante. Skarsgård cria um Pennywise com nuances sutis, que vão do simpático e alegre palhaço capaz de encantar qualquer idade até o mais sádico e frio assassino em questão de segundos. Alia-se a esses pontos a direção de arte responsável pela caracterização do personagem, trazendo uma maquiagem com toques diabólicos necessários àquele que representa os mais profundos medos de cada protagonista.

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Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Por outro lado, o trabalho de Jaeden Lieberher como o corajoso e líder Bill, Jeremy Ray Taylor como o apaixonante Ben, Sophia Lillis como a guerreira Beverly, Jack Dylan Grazer como o alívio cômico Eddie, Chosen Jacobs como o respeitoso Mike, Finn Wolfhard como o alívio cômico 2 Richie e Wyatt Oleff como o hesitante Stanley completa a tríade como peça essencial para a engrenagem de It funcionar tão bem – e funciona. Funciona pois cada atuação, aliada ao texto leve proposto pelo roteiro, traz o público para mais perto de um grupo com integrantes tão distintos, mas que sofrem com os mesmos problemas: o menino que enfrenta os pais em período de luto, a menina que enfrenta o pai violento, o menino que enfrenta a mãe superprotetora… ou seja, crianças que temem um palhaço assassino mas que, no final das contas, possuem seus maiores monstros nas próprias casas, nas figuras maternas e paternas. Essa questão, porém, é mais detalhada no livro; aqui, tudo é mostrado de maneira resumida, mas que vai direto ao ponto.

Dessa forma, àqueles que esperam de It um filme sobre um palhaço assassino, terão suas expectativas quebradas. Sim, ele contém um assassino que também toma a forma de um palhaço; sim, ele também fala sobre os medos de cada criança e mostra isso com cenas que também possuem elementos de terror; mas está longe de ser um filme de terror barato, cujo objetivo seria lucrar com pulos na cadeira e reações diversas a cenas com sangue jorrando e membros sendo cortados. Aqui, há sangue jorrando com um propósito. Aqui, há membros sendo cortados com um propósito. Mas nada disso se compara à importância de se criar laços afetivos, ainda mais quando é preciso deles para que, no futuro, se necessário, sejam usados para enfrentar novamente o medo. Porque é isso que, no fim, o palhaço Pennywise representa: o medo. E como ele pode nos destruir.

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Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

» Caso você queira ler a resenha do livro, clique aqui.

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Pôster: Canyon Design Group, 2017

It, dirigido por Andy Muschietti, escrito por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman (baseado no livro It: a coisa, de Stephen King)

Com: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Jack Dylan Graze, Chosen Jacobs, Finn Wolfhard, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert, Mollie Jane Atkinson.

Dunkirk

Filmes

“Mikháilov virou-se para olhar: o ponto luminoso da bomba parecia ter parado em seu zênite – na posição em que é totalmente impossível determinar sua direção. Mas isso só durou um instante: a bomba vinha cada vez mais depressa, cada vez mais próxima, de tal modo que já eram visíveis as fagulhas de sua espoleta e se ouvia o assovio fatídico, que descia direto no meio do batalhão.

– Deitem! – gritou a mesma voz assustada.

Mikháilov caiu de barriga para baixo. Praskúkhin, num movimento involuntário, curvou-se até o chão e estreitou as pálpebras; só ouviu como a bomba se chocou na terra dura, em algum lugar bem perto. Passou um segundo que pareceu uma hora – a bomba não explodiu. Praskúkhin assustou-se: será que havia se amedrontado à toa? Talvez a bomba tivesse caído longe e ele tinha apenas a impressão de que o pavio chiava bem perto. Abriu os olhos e, com uma satisfação presunçosa, viu que Mikháilov, a quem devia doze rublos e meio, estava totalmente abaixado, estendido de bruços, juntinho de seus pés, imóvel, quase agarrado a ele. Nesse instante, seus olhos toparam com o pavio aceso da bomba, que rodava a um archin de distância.”

(“Sebastopol em maio”, de Liev Tolstói. In: Contos completos, tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.)

Logo nos primeiros minutos de Dunkirk (idem, 2017), as palavras de Liev Tolstói me vieram à cabeça. Apesar de confortável em minha poltrona, apesar da pipoca estalando entre os dentes e apesar da manteiga derretendo aos poucos na língua, meus olhos grudaram na grande tela enquanto o protagonista corria entre sons de tiros e a iminência cada vez mais forte e palpável de uma morte rápida e gratuita. Sim, Dunkirk pode parecer para alguns um filme desconexo e sem alma para os padrões de Christopher Nolan. Mas é preciso ser frio além do aceitável para não se sentir apreensivo com a tensão constante do longa-metragem mais recente do diretor de Batman: o cavaleiro das trevas (2008), A origem (2010) e Interestelar (2014).

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

É um filme sobre a guerra, afinal. Mas é um filme que prefere a visão subjetiva de quem se encontra em meio ao caos. A câmera de Nolan é, ao mesmo tempo, o correspondente de guerra responsável por nos noticiar de tudo (ou quase tudo) que acontece e também nossos olhos, que contemplam o horror inevitável, o nonsense coletivo. Estamos logo atrás dos ombros de Tommy (interpretado pelo estreante Fionn Whitehead), o primeiro de uma lista enxuta de personagens que passará pelos olhos do público. O silêncio impera de início, mas dali alguns instantes é quebrado abruptamente por sons de tiros e balas ricocheteando pelo cenário deserto de uma cidade qualquer. Sentir a oposição silêncio x som ao longo das quase duas horas de projeção parece ser, sem sombra de dúvida, a sensação de estar em um país em guerra.

E este é um filme quase mudo. Mudo no sentido de diálogos, mas mudo também em relação a uma história propriamente dita. Aos ávidos por roteiros redondos ou amplamente intricados – como os que Nolan e seu irmão usualmente escrevem -, haverá um gosto amargo ao longo de todo filme e, principalmente, quando os créditos finais começarem a aparecer na tela. Não é, apesar de tudo, um problema que afete a experiência em si. Assistir Dunkirk é, em primeiro lugar, testemunhar voos repletos de curvas e manobras sinuosas, bombas explodindo em direção aos nossos olhos em um efeito prático muito mais assustador do que o melhor 3D já criado, a claustrofobia forçada por situações e cenários hostis com a ação humana através da guerra.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Filmes, como ignorado por muitos, são, aliás, histórias contadas através de imagens, através de sons. Então a fotografia de Dunkirk faz questão de libertar soldados, mesmo que por alguns minutos, quando a câmera de Nolan se aproxima entre dois postes em um travelling lento, dando a impressão de que a distância entre eles alarga-se; após o corte, vemos os soldados correrem, vemos aviões se aproximarem ameaçadoramente, vemos bombas caindo do céu. Após tudo acontecer, a câmera agora afasta-se lentamente, em um travelling inverso, e os postes se estreitam, fechando novamente os soldados em suas existências miseráveis, sem esperanças. O mesmo irá ocorrer quase ao fim da projeção, quando a câmera se aproxima por trás do piloto Farrier (interpretado pelo constante colaborador de Nolan, Tom Hardy), um plano muito parecido com aquele que apresenta misteriosamente o Coringa de Batman enquanto este espera pelos comparsas chegarem em uma van. Com a silhueta cortada pelo contraste promovido pelas chamas à sua frente, Farrier observa de maneira suntuosa a obra de arte que criou, uma bela metáfora criada através do avião incendiado.

Muito deve também ao design de som um filme como esse. Alto o bastante para amedrontar o público em momentos certos, baixo também o suficiente para deixar os nervos à flor da pele enquanto se espera o próximo estrondo ou morte iminente, Dunkirk tem êxito em seus dois extremos sonoros pois complementa a imagem de maneira rítmica, fazendo com que a aproximação de um avião torne-se um frio latejante na espinha – inclusive é um eco que entoa o final de “In the flesh?”, de Pink Floyd) – e os tiros contra a lateral de metal de um barco furem também nossos tímpanos, abrindo ainda mais a ferida da tensão e deixando o sangue escorrer por ela.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Por fim, é preciso ressaltar a colcha de retalhos coerente que a montagem cria ao juntar três linhas narrativas com tempos diferentes (uma semana, um dia, uma hora), algo já visto em outros filmes do diretor, como em A origemO cavaleiro das trevas ressurge. Tal opção torna a aproximação entre público e personagens algo mais natural, já que não há diálogos expositivos que apresentem cada pessoa ali envolvida nas cenas, muito menos a necessidade do filme se explicar (menos logo no início, quando um pequeno texto contextualiza o público sobre o que Dunkirk representa dentro da Segunda Guerra Mundial).

Inspirado também pela bela trilha-sonora composta por outro constante colaborador de Nolan, Hans Zimmer, Dunkirk torna-se a experiência mais imersiva proposta por Christopher Nolan até então. Não há reviravoltas capciosas ao final como em Interestelar, não há dúvidas propostas por objetos rodando como em A origem. Mas há algo muito mais forte que em tempos de youtubers e Snapchat torna-se cada vez mais raro e, ao mesmo tempo, necessário: o fato de que é preciso experienciar o cinema, não apenas olhar para a tela como uma criança ou adolescente olha para a incrível e absolutamente inesperada rotação de um spinner é capaz de fazer.

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Pôster: Concept Arts, 2017

Dunkirk, escrito e dirigido por: Christopher Nolan.

Com: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Glynn-Carney, Tom Hardy, Jack Lowden, James D’Arcy, Cillian Murphy, Harry Styles, John Nolan, Michael Caine (voz).

Corra!

Filmes

Não é um segredo o fato de filmes de terror serem considerados um gênero menor. Ignorados na maior parte do tempo em premiações de renome e até entre recomendações de círculos de amigos, o bom e velho filme de terror parece relegado apenas àqueles que curtem de verdade suas peculiaridades e, na maior parte das vezes, suas falhas. Ao longo do tempo, pudemos ter contato com produções que partem do terror mais trash como Uma noite alucinante: a morte do demônio (Evil dead, 1981) e Arraste-me para o inferno (Drag me to hell, 2009), ambos dirigidos por Sam Raimi, que viria despontar cada vez mais nos anos 2000 com a trilogia Homem-aranha, produções essas que ficaram marcadas com sua despreocupação com a seriedade dentro das histórias, querendo mais é que o público sentisse medo e risse ao mesmo tempo – a ponto de, no Brasil, cunharmos o termo “terrir” para esses casos. Ao mesmo tempo, pudemos assistir obras mais voltadas para o terror psicológico, com produções mais arrojadas e cuidadosas, caso de clássicos como O exorcista (The exorcist, 1973), responsável por fazer multidões passarem mal nos cinemas da época, e, mais recentemente, Invocação do mal (The conjuring, 2013), trazendo de volta o terrorzão pensado para realmente assustar o público que sai da sessão, vai para casa e continua com medo do filme.

Nos últimos tempos, porém, houve uma leva de filmes pensados de maneira mais restrita. Por serem produções ditas como independentes (livres das garras dos grandes executivos dos estúdios majoritários de Hollywood), tais filmes trouxeram um vigor interessante para o gênero. Ficaram, ainda assim, restritos ao nicho de público que procura por filmes de terror e, por assim dizer, é bem pequeno, mas ainda assim causaram um relativo burburinho entre os círculos cinéfilos. Foram os casos de, por exemplo, Os estranhos (The strangers, 2008), famoso depois principalmente pela presença de Liv Tyler, do ótimo Corrente do mal (It follows, 2014) e do angustiante O convite (The invitation, 2015). Estes exemplos mostram que, ao contrário do que aqueles que não aprovam filmes de terror pensam, filmes assim podem sim trazer ideias e execuções interessantes, com propostas, muitas vezes, até inovadoras.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

É o caso, também, de Corra! (Get out, 2017). Apostando no extremo desconforto na maioria de suas cenas, o filme começa como um suspense leve, intensificado aos poucos com elementos de terror. É um exemplo interessante do gênero que é pensado como um filme do gênero, a princípio, afinal, utiliza poucos cenários e investe mais em cenas com diálogos e interações entre personagens, mas que transgride barreiras ao bater mais na tecla da crítica social. A diferença principal, porém, é que o roteirista e diretor Jordan Peele insere tais críticas de maneira coesa à proposta da narrativa, algo que permite à história um entremeio mais orgânico, um detalhe a melhorar a crítica social em si.

Provavelmente detalhes que passarão despercebidos pela maioria do público em uma primeira assistida, Corra! inclui elementos de cena simbolizando personagens e seus pensamentos e atitudes. Logo na sequência de abertura, o carro que segue o personagem negro é, obviamente, branco, destacando-se no contraste com o cenário externo escuro. E a tensão proposta por Peele já se evidencia logo ali, com o uso de steadycam e sem cortes, a câmera acompanhando o personagem de frente enquanto o carro o segue por trás, deixando uma sensação de iminente perigo, mas que, ao mesmo tempo, prolonga o suspense para que o desconforto aumente no público. A sequência inicial dá lugar aos créditos principais e, logo em seguida, a uma outra sequência, feita para apresentar um determinado apartamento. Repleto de quadros com fotografias, cada uma é mostrada com parcimônia, dando ênfase ao fato de que cada uma conta com um elemento negro e um branco, ambos se sobrepondo, disputando espaço dentro da imagem. Nada mais simbólico para a história que se seguirá.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

Tais sequências são complementadas pela apresentação dos protagonistas. O roteiro de Peele, porém, não os introduz de maneira qualquer, criando uma situação natural típica a qualquer casal de namorados recentes, importante para o desenvolvimento separado de cada personagem. É ali que conhecemos Chris (interpretado por Daniel Kaluuya) e Rose (Allison Williams), apaixonados um pelo outro, mas realistas o suficiente para, do lado dele, entender o problema de ir visitar a família da namorada, essencialmente rica e branca, sendo negro, e do dela, ao estar preparada para encarar o desconforto e o constrangimento de defender o namorado em situações que existem apenas quando há negros envolvidos – como quando o policial pede a identidade de Chris sem motivo algum, apenas por ser negro e estar envolvido em uma situação delicada. Assim, de maneira simples e direta, o filme cria o primeiro contato entre o casal protagonista e o público, começando uma linha afetiva que será quebrada ao longo de cada ato.

A simbologia com as cores vai continuar com a introdução de personagens, é o caso do momento em que Chris conhecem os sogros, estes vestindo blusas obviamente pretas enquanto recebem-no de maneira amistosa e toda sorridente. Nada daquilo, porém, convence. E em nenhum momento a direção de Jordan Peele quer deixar tudo disfarçado, o que acaba se tornando um mérito para a história que o filme deseja contar. O público sabe ou, ao menos, tem a sensação de que algo – ou vários algos – ali não está certo, não está encaixando com o todo: a atitude mecânica dos empregados da grande casa (obviamente negros), a desculpa esfarrapada que o pai de Rose dá para justificar a existência de empregados apenas negros. Em contrapartida, o roteiro de Jordan Peele faz uso de conexões inteligentes para tocar a história para a frente, como é o caso da abstinência de Chris por nicotina e a consequente sugestão do pai de Rose pelo tratamento psicológico desenvolvido por sua mulher que, segundo ele mesmo, o fez largar o cigarro com apenas uma sessão. O tratamento, inclusive, vai ser uma das piores angústias enfrentadas pelo protagonista ao longo do filme.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

Mas enquanto tudo não parece passar de um suspense – e o diretor gosta de deixar tal ideia bem clara ao montar uma sequência entre Chris e a empregada, motivada pela desconfiança do protagonista em relação a esta mexer em seu celular, quando cria uma cena repleta de cortes que fazem apenas aumentar o enquadramento no rosto da empregada, criando planos cada segundo mais fechados, potencializando a tensão e, consequentemente, o suspense -, de repente nos vemos acompanhando um verdadeiro filme de terror. Sim, com a presença de vilões explicando seu “plano maléfico”, sim, com a presença de sangue, mutilações e derivados. Adicione também aí um sentimento de vingança motivado pelo clímax da projeção – e de repente os personagens vestem, obviamente, branco. É um ápice precedido por cenas “reveladoras”, como a do bingo mais bizarro já visto.

Tal mudança não é brusca como parece soar. É orquestrada de maneira sutil por Peele e executada aos poucos, fazendo a tensão aumentar não a ponto de prejudicar o filme, mas para colaborar com as motivações finais de cada personagem. Há a presença de um alívio cômico também, Rod Williams (interpretado por Lil Rel Howery), amigo do protagonista, usado com destreza para que não caia no ridículo e perca sua finalidade em meio à narrativa. É, por assim dizer, um motor a mais para as engrenagens de Corra! que, depois do início do clímax, não dá um momento de sossego para o espectador. Alguns poderão não concordar com o desfecho proposto pelo roteirista e diretor, mas há de se concordar que a presença do carro de polícia na cena final dá um sabor especial, principalmente pela sugestão irônica que produz dentro do contexto da sequência.

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Imagem: Universal Pictures, 2017

É arriscado dizer que Get out poderá agradar até aqueles que não tem o suspense ou o terror como gênero favorito, mas a presença de sua crítica social e a condução inteligente do roteiro faz com que há uma aceitação maior de públicos. Se Jordan Peele continuar com seu fôlego fílmico e inspiração de escrita vistos nesse exemplar, podemos esperar mais boas surpresas do promissor diretor.

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Pôster: LA, 2017

Get out, escrito e dirigido por: Jordan Peele

Com: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Lil Rel Howery, Bradley Whitford, Catherine Keener, Betty Gabriel, Marcus Henderson, Stephen Root.

13 reasons why

Séries

A habilidade de julgar, inerente a qualquer ser humano, faz de nós uma espécie à parte. Podemos, por exemplo, calcular mentalmente quais são as melhores opções para sair de um ponto A e chegar a um ponto B, levando em consideração todos os entremeios ali presentes; podemos escolher entre um produto A e um B, decidindo, por fim, qual comprar, porque o julgamento nos apresentou a melhor opção; podemos, enfim, utilizá-la para muitas situações. Julgar, portanto, é uma ferramenta importante para a sobrevivência. No entanto, diferentemente de outros animais, nós também usamos nossa habilidade como um poder destrutivo – ou, em muitos casos, autodestrutivo.

Somos julgados a todo tempo. Analisados a todo tempo. Ao viver em sociedade, estamos, sem escapatória, na mira de olhos pungentes, que nos ditam o que devemos vestir, como devemos nos comportar, a maneira como precisamos conversar, a forma como devemos atuar em todos os lugares. No trabalho, somos julgados a partir das habilidades que demonstramos para com as coisas e as pessoas; socialmente, somos julgados por vestir tal roupa, rir de tal maneira, gesticular com as mãos no momento da fala, estar acompanhados por um certo alguém. Mas é na escola onde o julgamento é mais preciso. É na escola onde grupos se formam, tribos se solidificam, inimigos são naturalmente traçados. O julgamento, aí, não é, a princípio, um problema. Ele é necessário para saber com quem devemos nos misturar, com quem podemos nos abrir para compartilhar uma dor ou segredo, com quem ficamos à vontade para gargalhar e dar um ombro amigo quando o outro mais precisa de nós.

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Imagem: Netflix, 2017

Mas a escola também pode nos destruir. Ela, por ser um preparatório para a sociedade lá fora, torna-se, muitas vezes, um microcosmo hostil, um ambiente propício a discussões, rusgas e, no seu pior momento, violência. Porque, afinal, a escola é essencialmente formada pelo seu maior público, os estudantes. São eles que dão forma a uma sala de aula, são eles que irão traçar o perfil de cada ambiente. E estudantes estão em processo de crescimento físico e intelectual; são como telas em branco, em que o artista plástico é uma junção de duas partes: o próprio aluno e seu professor. Ambos vão criar uma obra que não é fixa, vão desenvolver um quadro que se modifica a todo tempo. E modificar-se não pode ser encarado como algo ruim, perigoso. Modificar-se significa o resultado de uma reflexão. E a reflexão subentende um esforço preciso e trabalhoso, algo que ainda não é amigável a todas as pessoas.

Pensemos assim: é mais fácil e cômodo eu acreditar que sei de tudo sobre um determinado assunto do que, em um certo momento, ter um desequilíbrio em minhas convicções e esse desvio me fazer acreditar que não, não sou capaz de saber tudo sobre esse assunto em especial. A permanência obstinada nessa certeza única e egoísta, esse apego ferrenho às minhas próprias certezas e a não possibilidade de uma visão mais ampla sobre as coisas ao meu redor é um movimento perigoso, uma abertura à possibilidade de abraçar algo que está dentro da natureza humana com a mesma intensidade do poder do julgamento: o preconceito. E é esse preconceito que borbulhará frases, mensagens, xingamentos e atos de violência entre pessoas e grupos diferentes em lugares propícios a tais situações. Como a escola.

É nesse ponto, então, que chegamos à série 13 reasons why.

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Imagem: Netflix, 2017

Aparentemente mais um produto voltado ao público jovem-adulto que tanto consome livros, filmes (muitas vezes baseados nestes próprios livros) e outras produções direcionadas a assuntos relativos aos adolescentes – amizade, escola, futuro profissional, romance, sexo, drogas, ansiedade, depressão -, a atual produção original da Netflix decide ir para um caminho menos explorado até então. Temos, por aí, inúmeras obras que tentam retratar as dores de uma pessoa depressiva. Mas por serem concebidas com o objetivo de atingir públicos jovens, muitas vezes assuntos sérios como um câncer terminal ou a própria depressão são romanceados a um nível preocupante. É o caso, por exemplo, de A culpa é das estrelas. Os treze episódios de 13 reasons why, todavia, deixam claro, desde o início, apesar de sua fotografia que vai das cores frias do presente para as cores quente de um passado não tão distante (além de uma trilha sonora indie apelativa aos corações adolescentes), sua abordagem: fria, direta e objetiva. Infere-se aí a possibilidade de cenas gráficas – a presença de sangue, o sexo não consentido -, infere-se também a possibilidade de discussões sobre assuntos espinhosos; e sim, tais possibilidades realmente acontecem.

É, como discutido no início, uma escolha a partir de um julgamento. E a equipe de produtores de 13 reasons why decide pelo caminho tortuoso, difícil e, o mais relevante, sem volta. Afinal, discutir abertamente temas como o machismo, o assédio sexual, a homofobia, o bullying, a depressão e a ansiedade sem glamorizar tais situações requer, em primeiro lugar, uma coragem audaciosa, pois isso será abertamente julgado (de maneira negativa, na maioria das vezes) pelo público, pela crítica, pela sociedade e as estâncias presentes nela. E a série não torna nada um mar de rosas.

A começar pelo método encontrado por Hannah Baker (interpretada por Katherine Langford) para deixar um legado pós-morte. Como a própria personagem nos diz logo no primeiro episódio, seria muito fácil deixar suas gravações em arquivos mp3 para as pessoas ouvirem em qualquer dispositivo em mãos, assim como recorrer ao Google Maps para indicar pontos estratégicos da cidade. E nada é fácil. Relacionar-se não é fácil, fazer amigos não é fácil – perdê-los menos ainda. Por que ela facilitaria, então? Hannah, portanto, grava suas memórias amargas em fitas cassete. Uma tecnologia perdida no tempo, difícil de ser utilizada em um mundo mergulhado em iPods, streaming e armazenamento na nuvem. Hannah sofreu com a espera, com a ansiedade, com um porvir eterno. Então seus ouvintes também precisarão conter-se para saber tudo o que aconteceu com ela (o que não deixa de ser levemente irônico, já que a própria Netflix disponibiliza todos os episódios de uma vez para seus assinantes).

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Imagem: Netflix, 2017

Juntamente com as falas biográficas de Hannah, o espectador é refém da visão de Clay Jensen (interpretador por Dylan Minnette); deslocado socialmente e extremamente ansioso, Clay não apenas vai apresentar ao público as fitas de Hannah em doses homeopáticas, como também misturará os relatos da amiga com lembranças fragmentadas, num misto que confunde o espectador de propósito. A série, porém, não segue nesse ritmo, priorizando uma montagem que apresenta transições de cena e rimas visuais elegantes, interligando presente e passado de maneira fluida e didática – não podemos esquecer que o público-alvo aqui são os próprios adolescentes, e priorizar uma narrativa mais fragmentada resultaria no afastamento dessa audiência.

Além do prolongamento da espera intrínseco às fitas de Hannah e a ansiedade nata de Clay, ainda há um terceiro ponto nesse triângulo de protagonistas: servindo de guardião / mentor de Clay, Tony (interpretado por Christian Navarro) será o responsável por trazer o jovem ansioso de volta à realidade em momentos de fúria ou frustração extremos, lembrando Clay da importância de manter os desejos derradeiros de Hannah e de ouvir as fitas até o fim. É Tony também que guiará a narrativa em momentos-chave, levando a sério a importância de dar a Clay mais reflexões e perguntas do que respostas propriamente ditas – e exteriorizando sua filosofia própria ao levar o amigo para uma escalada, mostrando, literalmente, que a recompensa por um caminho difícil é maior do que chegar ao mesmo ponto B através da opção mais fácil.

13 reasons why diverge-se também ao ser uma produção que preza por mensagens visuais bem sutis, mas que quando apreendidas pelo espectador, fornecem à obra um grau de significação maior. É o caso, por exemplo, de determinados cortes entre uma cena e outra, como o momento, em um dos últimos episódios, em que um dos personagens aponta uma arma na direção da câmera, pronto para atirar e, logo após o corte, vemos um porta-retrato com a foto feliz e espontânea de uma família cujo filho único acabara de falecer. Sem fala algum, sem nenhuma narração para explicar, a própria imagem nos manda um recado: é esse personagem o verdadeiro assassino dessa história repleta de assassinos. É também nos momentos de representações delicadas, como as sequências com violência sexual, que a série mostra seu potencial imagético de maneira sutil. Quando determinada personagem sofre com uma relação sexual não consentida por ela, a câmera filma sua mão em um zoom in lento, cirúrgico; uma mão que, a princípio, estava tensa com a situação e, com o passar dos minutos, cai, sem forças, simbolizando a rendição da personagem diante do assalto que seu corpo e sua alma sofrem naquele momento.

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Imagem: Netflix, 2017

E, se nesses casos 13 reasons why preza pelo simbólico, o mesmo não acontece com a sequência do suicídio de Hannah Baker. Se você ainda não terminou ou não começou a assistir a série, pule o restante desse parágrafo e vá direto para o próximo para evitar spoilers. Alguns espectadores podem julgar de maneira negativa a opção de se mostrar, d maneira crua, o suicídio de Hannah. Mas pensando no estilo que a série determinou para discutir todos os assuntos ali envolvidos desde o primeiro episódio, não faria sentido tratar o momento mais terrível da personagem de forma sutil, disfarçada. Um suicídio não é uma brincadeira, muito menos algo interessante. Retratá-lo requer coragem. E a opção do diretor do episódio, Kyle Patrick Alvarez, é a de manter suas lentes sobre Hannah, operando com closes enquanto a jovem corta rapidamente seus pulsos e com câmeras fixas em planos médios quando ela se deita na banheira, a respiração antes frenética dando lugar a uma calmaria dolorosa. A segunda parte, dolorosa igual, é o encontro dos pais com a filha morta dentro da banheira – o desespero realista do pai, a negação como último fio de esperança da mãe. Não bastando a imagem, a voz de Clay permeia tudo, descrevendo exatamente o que nós vemos, como um lembrete a mais para que entendamos, de vez, a seriedade de um suicídio e como ele é a junção de violências (sejam físicas, sejam psicológicas) vividas diariamente pela vítima que se rende a um último recurso: tirar a própria vida.

E se o desespero é o sentimento presente nos personagens que possuem uma ligação forte com Hannah, o oposto se vê na composição do personagem Bryce (interpretado por Justin Prentice). Com todos os atos machistas que pratica – dos mais silenciosos aos mais escancarados -, Bryce representa aqueles que não refletem, aqueles que acreditam saber tudo sobre tudo, aqueles que jamais admitirão seus atos como ações de preconceito, humilhação e violência. O jovem machista adorado pela sociedade que o rodeia devido à sua imagem pública impecável, o estuprador que acredita fazer um “favor” às meninas que “pedem” para serem “fodidas”. A construção do personagem dentro da narrativa vai, então, criá-lo como alguém que sempre aparta as brigas dos amigos, aquele que está presente para amenizar os desentendimentos e ajudar o amigo sempre que este precisa dormir fora de casa devido a questões familiares. De olhar amigável e fala mansa, Bryce é o popular que a todos atende e a todos convém. Mas, quando estão todos longe, ele é o violentador que irá intimidar com o olhar, o homem que precisará usar seu porte físico maior para ganhar quem deseja à força, sentindo o gozo da vitória através do sofrimento de sua vítima. Sua calma, mesmo diante da possibilidade de tudo ir por água abaixo em sua vida, em seu futuro, só corrobora sua sociopatia.

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Imagem: Netflix, 2017

Assim, em mais um acerto, a Netflix faz com que paramos para refletir por um instante. Prestar atenção na pessoa que está no mesmo ambiente que o seu antes da eminente tragédia é a mensagem principal deixada ao final do último episódio. Somos, muitas vezes, aquele que violenta com palavras porque não aceitamos nos outros aquilo que mais nos incomoda em nós mesmos. O problema, assim, não é a presença do outro e seu modo de vida. O problema está em nós mesmos. Não podemos julgar um suicida considerando seu derradeiro ato como uma sinal de “fraqueza” se também somos essencialmente formado por inúmeras fraquezas, incertezas e medos. Se não chegamos ao ponto de tirar nossas próprias vidas, considerando ter “superado” todas as dificuldades, isso não nos dá o direito de julgar um suicida. Isso nos dá a oportunidade de ajudá-lo ainda em vida. Já que somos dotados com a capacidade aguçada do julgamento, precisamos perceber os gritos silenciosos de ajuda daquele amigo ou familiar e julgar a melhor forma de ajudá-lo. E aprender com isso, para não precisarmos de 13 porquês para uma pessoa ter desistido absolutamente de tudo e de todos.

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Pôster: Netflix, 2017

13 reasons why, criada por: Brian Yorkey; escrita por: Elizabeth Benjamin, Diana Son, Thomas Higgins, Nathan Jackson, Nathan Louis Jackson, Kirk A. Moore, Nic Sheff, Hayley Tyler (baseada na obra Os 13 porquês, de Jay Asher); dirigida por: Kyle Patrick Alvarez, Gregg Araki, Carl Franklin, Tom McCarthy, Helen Shaver, Jessica Yu.

Com: Dylan Minnette, Katherine Langford, Christian Navarro, Justin Prentice, Miles Heizer, Devin Druid, Amy Hargreaves, Derek Luke, Alisha Boe, Brandon Flynn, Ross Butler, Kate Walsh, Charlotte Hervieux, Steven Silver, Michele Selene Ang, Josh Hamilton, Brian d’Arcy James, Sosie Bacon.

Animais noturnos

Filmes

Engraçado como o ato de ler um livro pode encantar e assustar com a mesma intensidade. Para aqueles que têm como hábito a leitura, o prazer de pegar um exemplar da estante, retirar o plástico e abrir a capa, sentindo o cheiro do papel ali conservado, não possui um valor estimado. Já os que não se aproximaram da leitura ainda veem os livros como objetos estranhos, insignificantes até. A ideia de sentar e passar algumas horas encarando as linhas, em silêncio, pode ser apavorante. O mesmo acontece, na maioria das vezes, com a apreciação de uma obra de arte sem ser literária. Uma pintura abstrata, uma instalação de um artista plástico moderno, uma intervenção artística. Quantos de nós têm acesso a um museu? Se temos, quantos de nós realmente visita um? E se visitamos, quantos de nós encaramos cada arte ali apresentada a nível de compreensão não absoluta, mas quase completa?

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Essa sensação de estranhamento é uma das primeiras a surgir com o início de Animais noturnos (Nocturnal animals, 2016). O filme do roteirista e diretor Tom Ford presenteia os olhos de seu público já de cara com créditos iniciais acompanhados por glitter caindo lentamente pela tela, acompanhado por uma trilha suave, mas com algumas notas angustiantes, como que sinalizando o que está por vir. De repente, o primeiro corte dá espaço para modelos obesas, mais velhas, nuas exceto por botas, luvas e adereços, seus peitos caídos balançando lentamente por cima de barrigas maiores ainda; uma senhora carrega dois daqueles palitos que, quando acesos, soltam faíscas, enquanto executa movimentos de uma dança sensual, em parte lânguida, em parte melancólica. A câmera de Ford as filma  em closes fechados, um corte após o outro mostrando uma mulher diferente da outra, semelhantes, a certo ponto, por causa de suas fantasias mínimas festivas, seus corpos desafiando nossa percepção do que é um modelo ideal de beleza, nossos olhos e cérebros brigando para se deleitar ou se assustar com cada plano em câmera lenta.

Intencional, Animais noturnos já choca à sua maneira desde tal abertura. Choca, mas fisga seu espectador com a mesma intensidade. Após a abertura imageticamente intensa, passamos a acompanhar a rotina de Susan Morrow (Amy Adams em um de seus melhores momentos), dona de uma galeria de arte cuja instalação atual são justamente as senhoras obesas e suas danças provocativas (em diversos sentidos). O longa, nesse começo, parece encontrar um marasmo narrativo, enquanto Susan tenta atrair a atenção de um marido insosso (interpretado por Armie Hammer), desesperado por salvar sua carreira e seu dinheiro, até o momento em que uma encomenda chega às portas da mansão, embrulhada em papel pardo. Susan, ao tentar abrir a embalagem interna ao papel pardo, corta um dedo no papel afiado – uma metáfora que a princípio parece boba, óbvia e infantil, mas que, conforme a história dentro da história se desenrola ao longo de quase duas horas de projeção, vai tomando proporções maiores, pesando sobre a protagonista e, invariavelmente, sobre nós como público também.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

A partir desse estopim em forma de metáfora do corte, o abismo de Animais noturnos começa a se abrir sobre os pés de Susan. Dentro do pacote, o original de um romance escrito por seu ex-marido (cujo nome é “Animais noturnos”). O conteúdo da história que o ex (Jake Gyllenhaal) tem a contar parece misturar ficção e uma autobiografia em uma confusão proposital de memórias, amarguras, violência e vingança. E assim como a narrativa do rapaz mistura elementos, confunde uma coisa e outra, o diretor Tom Ford passa a mesclar a história de Susan com a história que seus olhos leem no original do ex, apresentando transições de uma narrativa à outra através dos cortes esteticamente planejados para indicar ao espectador que, sim, as duas histórias se juntam, se unem, se complementam. Então, se no livro “Animais noturnos” um personagem atira, o som do disparo assusta Susan em sua sala de estar belamente mobiliada; consequentemente, nos assusta também. Há, também, sobreposição de planos de dois tipos, aquela em que as duas imagens se sobrepõem literalmente, como se ambas se fundissem em um semi fade in e um semi fade out contínuo; e aquela em que há um corte, e a imagem que se segue é quase idêntica à anterior, com os atores posicionados exatamente como os da cena que passou, causando um choque no espectador, quase confundindo-o. Essas escolhas de Ford elevam Animais noturnos a um nível acima da narrativa comum, manipulando, com a imagem, as nossas sensação em relação ao filme.

Dessa forma, a fotografia do longa vai recorrer a algumas escolhas que adicionam mais significações ao longo da trama, como quando a imagem do protagonista do romance lido por Susan está banhada por uma iluminação azulada, enquanto a própria Susan aparece sob uma intensa luz amarela, sugerindo uma das oposições quente x frio mais utilizadas pelo cinema; assim, não só nesse jogo de cores, Ford estabelece, sem uma única explicação verbal, os opostos que, a todo tempo, tentam se aproximar: Susan e seu marido atual; o protagonista do livro e sua esposa e filha; o mesmo protagonista e seu rival, o criminoso Ray Marcus (interpretado por Aaron Taylor-Johnson); o ex (por meio do romance escrito) e Susan, e assim por diante.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Por fim, o estranhamento que se iniciou lá no começo com seus créditos iniciais, e tomou proporções cada vez maiores a partir do corte no dedo de Susan, vai se acalmando enquanto a última cena de Animais noturnos se desenrola. Silenciosa, angustiante e decisiva para Susan e para o público, o final do longa é vazio propositalmente. Não para frustrar seus espectadores, mas para ressaltar que, na busca de desejos e aproximações, muitas vezes podemos e tomamos decisões que afetam de maneira decisiva a vida das pessoas que nos rodeiam. E quando essas pessoas são aquelas que apostam em um relação íntima e se entregam a um amor por nós com uma vontade genuína, a quebra do sentimento é irreversível. E se a representação dessa quebra se materializa na forma de um livro a ser publicado, sua carga de mágoas e vinganças pode cortar. De verdade.

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Pôster: B O N D, 2016

Nocturnal animals, escrito e dirigido por: Tom Ford (baseado no livro Tony & Susan, escrito por Austin Wright)

Com: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Michael Shannon, Isla Fisher, Ellie Bamber, Karl Glusman, Robert Aramayo

La La Land: cantando estações

Filmes

Desde pequenos, consumimos (no sentido ruim, na maior parte do tempo) a ideia de que buscar nossos sonhos é o que mais importa em nossa vida. Se estamos infelizes, é porque não atingimos o objetivo vital de desenvolver aquele projeto que coça dentro de nossa cabeça há anos, não estamos trabalhando naquele emprego que sempre quisemos, não estamos escrevendo o livro que deveríamos ter começado há muito tempo, não estamos isso, não estamos aquilo. Programas de TV, propagandas, séries e, principalmente, filmes sempre nos dizem isso: você precisa correr atrás dos seus sonhos.

Bem, é uma possibilidade tentadora e que, sem dúvida, nos move sempre em busca de algo maior e melhor, não importa o que necessariamente seja para cada indivíduo. Afinal, manter-se no ócio, parado, deixando a vida passar, enquanto oportunidades podem aparecer e se desmanchar diante de nossos olhos é uma situação que muitos têm horror só de pensar, ainda mais em um século repleto de tecnologias, facilidades, vai-e-vem, cobranças, produções, touchscreensstreamings para todos os lados. Se a teoria da modernidade líquida já está mais do que provada, e se estamos deixando essa modernidade vazar para a esfera sentimental, desmanchando também as relações humanas, precisamos urgentemente buscar nossos sonhos. Ou é, pelo menos, o que produtos culturais nos forçam a acreditar.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A propósito, sempre evito relacionar a palavra “produto” ou o verbo “produzir” com o substantivo “cultura” ou o adjetivo “cultural”. Passa a impressão de que uma arte, seja ela de que tipo for, precisa ser produzida; ou seja, ela tem prazos, obrigações, pontos a serem cumpridos, objetivos a serem atingidos, ou a satisfação não será completa. Como qualquer outro produto que saia das entranhas de uma indústria – ou pior: de uma corporação gigantesca, com seus tentáculos atingindo diversos lugares, situações e camadas sociais. Mas é uma obrigação à qual me submeto às vezes por um motivo muito simples: sempre vivemos e continuaremos a viver diante de obras (como as cinematográficas) que foram produzidas – no sentido que dei no começo desse parágrafo mesmo – para serem consumidas rapidamente. De certa forma, isso não é ruim. Dentro de uma cultura de massa, é natural um degradê de filmes, livros, pinturas e músicas que vão desde a mais popular, atingindo a maioria das pessoas, até a mais específica, a mais difícil de ser entendida, compreendida, interpretada.

Estou tocando nesse ponto (delicado, na maior parte das vezes) pois La la land: cantando estações traz um pouco disso à tona. Não apenas em seu próprio roteiro, como tema principal na motivação de seu casal de protagonistas, mas em sua história também: toda a concepção, gestação e o enfim nascimento do filme custou muito tempo e provavelmente muitas noites mal dormidas ao seu diretor e roteirista, Damien Chazelle. E essa história é a prova de que Hollywood ainda teme investir em filmes que, a princípio, parecem ser mais uma paixão particular de seu principal realizador do que uma produção massificada, enlatada e instantânea – sinônimos adoráveis para um provável sucesso comercial e econômico, um objetivo mais palpável para os cofres dos estúdios cinematográficos.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E apesar de ser um musical – um fator que pode aproximar e afastar públicos com a mesma intensidade -, La la land não é um filme apenas com músicas bonitinhas, passos de dança bem coreografados e planos-sequências planejados com cuidado. Ele possui sua essência, uma alma que sente pelos acertos do passado através de uma nostalgia expressada por Mia (adorável com a interpretação de Emma Stone) com sua adoração ao cinema da era de ouro e Sebastian (mais apagado por causa de Ryan Gosling) e a admiração gigantesca que nutre pelo jazz. Se o casal sente falta de épocas que não voltarão, o diretor Damien Chazelle parece sentir falta do filme leve, do cinema que encanta pelo canto, que enche nossos olhos por meio de sua principal característica: a imagem em movimento.

Junta-se, então, essas paixões nostálgicas e temos um filme colorido, pulsante e ensolarado desde os seus primeiros minutos. As cores, aliás, estabelecem o clima com um logotipo do estúdio Summit Entertainment artificialmente envelhecido para parecer vintage, além do primeiro card de créditos iniciais ser, assim como nos clássicos musicais da década de 50, “apresentado em CinemaScope”. Apresentado e não filmado pois a produção de La la land não usou lentes CinemaScope – essas foram criadas em 1953, uma tentativa do cinema para combater o eminente e recente sucesso da televisão com o público, fazendo com que os filmes, a partir de então, fossem apresentados em um aspecto de tela muito mais largo (sim, nascia, aí, o formato widescreen que temos até hoje). E o card em si também indica o clima do filme: surge em preto e branco, com seu título cortado em ambos os lados, e vai enlarguecendo, tomando toda a tela do cinema, tornando-se colorido e ressaltando o amarelo e o pink do “CinemaScope” ali escrito.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A partir dessa introdução, La la land não descansa. Com um plano-sequência inicial no meio de um congestionamento de Los Angeles, o filme já deixa claro a seu espectador que sim, haverá muitos números músicais; sim, vai ter gente cantando e dançando em situações nada comuns para uma cantoria e uma dança bem coreografada; sim, vai ter traseira de caminhão sendo aberta para revelar… uma banda completa de percussionistas. Se você passar por todas essas cenas e mesmo assim se sentir confortável o suficiente para encarar o restante, parabéns, você pode encarar La la land numa boa. O que é irônico, já que, daí em diante, os números musicais são bem mais coesos, encaixando-se organicamente a cada situação da história, principalmente quando têm a presença de Emma Stone e Ryan Gosling.

Stone, inclusive, entrega um trabalho na medida, sem emoções excessivais que poderiam facilmente estragar suas cenas mais dramáticas. Ao tentar fazer o público rir, ela consegue de maneira natural. Ao tentar fazer o público chorar também. Já Ryan Gosling, apesar de mostrar-se confortável com os infinitos sapateados e passos de valsa, além de emitir um tanto de charme considerável quando está diante das teclas de um piano ou sintetizador, faz o ritmo do filme cair negativamente quando precisa travar diálogos – com exceção, é claro, da cena em que discute o momento em que se encontra na vida com Mia, num jantar à luz de velas, um dos pontos altos do longa.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E por ser um musical, ser repleto de cores e movimentos, ter como essência a imagem e a luz, La la land não poderia deixar a desejar com sua fotografia. E não deixa. Temos planos-sequência milimetricamente planejados, com direito a câmeras que pulam de um canto a outro feito estilingues, outras que mergulham em piscinas e saem delas com a mesma facilidade, além de uma paleta de cores que presenteiam os olhos dos espectadores com pores-do-sol azuis-arroxeados e céus estrelados que vão do azul mais aveludado ao negro mais intenso.

Ao final, a impressão de que vimos um filme superficial, mais um entre tantos que pregam a busca de um sonho aparentemente impossível, pode nos tentar. Mas se analisarmos bem, La la land tenta passar sua essência não através de um desenvolvimento exemplar de personagens, muito menos por meio de discussões filosóficas; sua coluna vertebral é formada por sonhos, e eles são realizados em cada sequência musical apresentada, nos detalhes dos cenários, na escolha da cor do figurino de cada ator e figurante, nos arranjos da música composta por Jason Hurwitz. Mais do que isso, o roteiro também deixa espaço para uma melancolia necessária. Uma possibilidade negativa no meio de tanta busca por sonhos, sorrisos, danças e músicas alegres. Um ponto essencial para manter os pés no chão, mesmo que, de vez em quando, é gostoso ver atores voando para dançar uma valsa nas estrelas. Literalmente.

» Nesse link você pode ver uma montagem mostrando todas as referências a filmes e musicais que La la land faz ao longo de sua projeção.

» E nesse há um texto da Vanity Fair falando um pouco sobre a dificuldade de um diretor persistir em seus projetos pessoais (muitas vezes ignorados pelos grandes estúdios). O texto está em inglês.

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Pôster: LA, 2016

La la land, escrito e dirigido por: Damien Chazelle

Com: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J. K. Simmons, Finn Witrock

A chegada

Filmes

Alguns acreditam que o cinema é uma forma de escapismo. Ao entrar numa sala escura de projeção, você se senta diante de uma tela e esquece dos problemas que estão te atormentando a semana toda; esquece dos desastres políticos e econômicos ao redor do mundo que pipocaram na TV nos últimos; esquece de que no dia seguinte você vai acordar cedo. Mas e quando o filme entrega mais problemas e você precisa juntá-los à sua balança racional-emocional? Não que esses problemas sejam de ordem técnica e artística, algumas vezes aquele longa-metragem em específico faz com que os problemas fiquem flutuando em sua mente por um bom tempo, forçando-o a pensar na história, em suas consequências e, principalmente, (talvez a possibilidade mais assustadora) como agir diante de toda aquela narrativa se ela acontecesse no mundo real.

Temos inúmeros exemplos de filmes, em sua maioria hollywoodianos, que imaginam – e alguns que pelo menos tentam explicar melhor – como seria o relacionamento da humanidade com potenciais visitas alienígenas. Na maior parte delas, o resultado é desastroso. Catastrófico. É uma maneira, claro, de atingir uma bilheteria maior: se eu faço um filme repleto de cenas de ação, com direito a explosões sem fim e seres de outro planeta agindo de maneira violenta (ou nojenta), o apelo popular aumenta, assim como minha arrecadação. Não que isso seja errado ou ruim, vai depender de cada filme e sua abordagem ao tema. O que nos leva a uma questão principal em cinema: você deseja contar uma história ou pensa, antes, em como contar essa história?

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

O cinema, assim como a literatura é para a narrativa escrita, é moldado, através de imagens, para contar uma história de forma a extrapolar o senso comum. A sensação de sair da sala escura e ficar com a história martelando na cabeça, com mais dúvidas do que respostas, é sinal de que o filme cumpriu o seu papel de desautomatização – ou seja, ele tirou você, como público, do automático, da rotina, do dia-a-dia muitas vezes alienante. Quando se trata de histórias sobre o espaço infinito que cerca nosso planeta, podemos conhecer filmes cuja abordagem pode atingir o extremo abstrato de um espectro – como 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odssey, 1968) – e outros que tentam unir conceitos científicos e filosóficos intricados a uma narrativa mais palatável, como é o caso de Interestelar (Interstellar, 2014).

A chegada (Arrival, 2016) está, talvez, no meio-termo desse espectro. Apesar de ter uma linha narrativa comum – a protagonista, uma especialista em linguagens, é chamada pelo exército americano na tentativa de compreensão da linguagem utilizada pelos aliens visitantes -, o filme, com suas imagens, conta a história de forma não-linear. Não espere, portanto, um começo-meio-fim bonitinho, enlatado especialmente para consumo. É um roteiro que exige do espectador um mínimo de interpretação; e quanto mais a sua capacidade de interpretação é refinada, mais aproveitamento você terá da história e todos os seus detalhes ao longo da projeção.

É uma obra, portanto, que não se rende a uma autoexplicação gratuita: as peças para o mistério inerente à história estão jogadas sobre a tela do cinema; cabe a nós, público, ir montando-as conforme as mais de duas horas de filme passam diante de nossos olhos. E os aditivos, como estímulos, em tal empreitada, são duas discussões que surgem conforme seu roteiro se desdobra: uma sobre a linguagem – seu uso e suas complicações -, outra filosófico-existencial – por quê estamos aqui? o que eles vieram fazer em nosso planeta? quais são suas intenções?.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem como peça-base para uma cultura

Uma das abordagens mais instigantes – e belamente acertadas – de A chegada é a da personagem Louise Banks (interpretada por Amy Adams, fatalmente ignorada pelo Oscar desse ano). O filme poderia perder um bom tempo desenvolvendo-a ao mostrar seu dia-a-dia como professora e pesquisadora. Mas a elegância do roteiro de Eric Heisserer e da direção de Denis Villeneuve prefere mostrá-la em ação: sua perspectiva certeira como especialista do campo de linguagens, seu faro para consequências e implicações a partir de problemas que surgem, sua coragem e audácia que a tornam a força-motriz do filme.

Além dessa imagem que transmite, a personagem, em essência, entende, mais do que todos, que uma das bases – senão a principal – para uma cultura bem estabelecida é a comunicação entre seres através de uma linguagem com grande desenvolvimento. E quando o Coronel Weber (interpretado por Forest Whitaker) tenta pressioná-la para fazer a pergunta que todos querem saber a resposta (“Qual o propósito de vocês na Terra?”), A doutora Banks justifica não somente como é muito mais complicado se comunicar como também é necessário paciência e tolerância para se entender as dificuldades de uma comunicação com hipotéticos (não no filme, é claro) alienígenas e, por consequência, para apreciar o desenvolvimento paulatino do roteiro – que a muitos pode parecer lento, até monótono de início.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem cinematográfica como base para o filme

E se esse tema tão caro à história de A chegada necessita de uma atenção grande de seus realizadores, as tomadas, as cenas e as sequências do filme também são formas de comunicação. São, em suma, uma linguagem própria.

O primeiro take de Arrival começa com um fade out orgânico, a câmera saindo da escuridão em direção à luz. O movimento, no entanto, é de cima para baixo: a lente de Villeneuve observa primeiro o teto de madeira e, vagarosamente, desce até mirar uma grande vidraça, mostrando uma paisagem serena. Esse movimento se repete ao longo da narrativa, talvez mais umas duas ou três vezes, assinalando que o olhar vertical (de cima para baixo) é importante para a história ali contada – os aliens, afinal, descem do céu em direção ao planeta também em um movimento vertical; o contato entre os humanos e as criaturas começa também com um movimento vertical (aqui, porém, invertido, de baixo para cima); e todos esses momentos com uma rima visual: se iniciam no escuro e vão em direção a uma fonte de luz.

Outro ponto tocado pelo diretor canadense, de maneira metonímica, é a questão do contato. Temos, em A chegada, cenas que mostram essencialmente os personagens necessitando tocar objetos, texturas e demais materiais e substâncias. A cena em que Ian Donnelly (interpretado por Jeremy Renner) toca com as pontas dos dedos a base da nave alienígena; quando Louise toca o vidro que a separa das criaturas; as diversas cenas da Dra. Banks com sua filha recém-nascida (o primeiro contato de uma vida). A metonímia, é claro, tange a necessidade humana de conhecer algo através do tato, impulsionada pela curiosidade muitas vezes científica, mas essencialmente pura e simplesmente humana. Tal tema liga-se primordialmente ao principal da história – quem deseja fazer contato, em primeiro lugar, seja esse amigável ou hostil, são as criaturas alienígenas.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

E se pensarmos os detalhes simbólicos, talvez o que mais represente o filme em si é a escrita dos aliens. Sugerindo o infinito através de sua estrutura circular, a linguagem primeiramente compreendida por Louise é algo que transcende nossa cultura de registro – escrevemos linearmente, afinal – da esquerda para a direita ou vice-versa. E tal simbologia resume não apenas a essência de A chegada, como, da mesma forma, ressalta a importância de seu tema mais caro: a necessidade de uma linguagem deselvovida para se estabelecer uma cultura – e, mais ainda, torná-la forte e, em alguns casos, dominante.

Somados a todos esses detalhes que vão eclodindo aos poucos em nossa mente após uma sessão angustiante (no fundo, como plateia, torcemos para que tudo se resolva, é claro, e essa jornada não é algo simples, muito menos tranquilo), temos também a ambientação necessária através da trilha soturna, etérea e ameaçadora do compositor islandês Jóhann Jóhanssonn – uma música que determina o clima do filme do início ao fim, entoando o ritmo principalmente quando a equipe se aproxima da nave para suas sessões de comunicação com os aliens. Temos também uma fotografia fria, evocando essa constante ameaça que, ao mesmo tempo, não é velada, mas que paira sobre a cabeça das pessoas no filme e, consequentemente, sobre o público também.

A chegada já pode entrar para o rol de seletos filmes com temática espacial que estão muito além do tratamento comum. É um filme que não afasta o público por não habitar totalmente a esfera do abstrato, mas que não entrega tudo gratuitamente, promovendo uma experiência não apenas cinematográfica, como estética também. E essa sua estética o eleva de maneira a causar tantos questionamentos no público que sai da sessão arrebatado. Se a sentença “Qual o propósito de vocês na Terra?”, como explicado pela Dra. Banks, não é tão simples como parece, por que A chegada também não pode ser muito mais profundo do que aparentaria a um espectador qualquer?

poster

Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

Arrival, dirigido por Dennis Villeneuve, escrito por Eric Heisserer (baseado no conto “História da sua vida”, de Ted Chiang)

Com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Jadyn Malone, Abigail Piniowsky, Julia Scarlett Dan