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Nasce uma estrela

Em dois momentos calorosos de Nasce uma estrela (A star is born, 2018), Ally, a protagonista do longa, parte para a briga. No primeiro, ao tentar defender a privacidade de um rapaz que acabou de conhecer; no segundo, contra esse mesmo rapaz, mas agora porque ambos se encontram casados e, em um certo nível, se odeiam. Essas duas cenas têm, tirando os óbvios momentos musicais – que também são muito fortes (porém não todos, é preciso enfatizar) -, um enorme potencial para a história do filme. Ou teriam, pois são apenas duas parcas faíscas logo descartadas pelos roteiristas.

Talvez esse descuido seja resultado de uma história que já passou por diversas versões na própria Hollywood. O roteiro desse reconto mais recente, por exemplo, baseia-se no roteiro de 1976 que, por sua vez, inspira-se no de 1954. Chega a ser levemente vergonhoso saber que uma história tão requentada ainda pode ser contada mais uma vez, afinal, pouquíssimas pessoas aturam café velho colocado novamente no fogo para uma tentativa pífia de agradar o paladar de alguém. No entanto, dependendo do tratamento dado para a história e como ela é conduzida por seu diretor, é possível acompanhar um remake no mínimo respeitoso à obra original (ou, aqui, às obras). Não é o caso.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Não que o ator Bradley Cooper seja incompetente. Sabemos que ele não é. Como ator, pelo menos, cumpre seu papel. Não é o melhor e mais empolgante ator do mundo, mas entrega um Jack honesto. Jack, aliás, é um personagem que cambaleia entre o clássico alcoólatra irrecuperável e o ultrarromântico idealizado: ora se entrega ao copo de bebida ou à cocaína quando percebe que, mais uma vez, a vida lhe escapa entre os dedos, ora trata a mulher que literalmente acabou de conhecer como a principal musa de sua vida. Claro que, para uma audiência no geral, o romance que se inicia entre ele e Ally é algo, digamos, “bonito” de se ver, já que conta com piadinhas leves sobre anatomia facial da moça (uma piada que obviamente vai se tornar bordão ao longo do filme), troca de olhares intensos e todos os clichês possíveis de comédia romântica para acompanhar.

Mas se analisarmos com cuidado o desenvolvimento da própria narrativa e como esses personagens se movem nela e, mais ainda, como eles se expandem nela, o buraco começa a ficar mais embaixo. Isso porque tudo parece, ao mesmo tempo e estranhamente, rápido e lento demais. Explico: o filme tem dolorosas, arrastadas e tediosas 2h16 de duração e, ainda assim, toda a sequência de acontecimentos parece se dar de maneira muito rápida e artificial. Em breves momentos, conhecemos Jack, para logo depois conhecermos Ally, para logo depois sabermos que ela canta magnificamente bem, para logo depois vermos os dois se encontrando, para logo depois ambos se apaixonarem perdidamente e por aí vai. Um tédio sem fim.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Porém, existe a música salpicada nesse marasmo todo. E aí não há escapatória, porque de maneira muito esperta a produção do longa escalou nada menos que Lady Gaga para o papel de Ally. E mesmo que o público não goste do estilo musical da cantora, é inconcebível esse mesmo público não reconhecer nela uma baita cantora – não só talentosa, como verdadeiramente artística. Suas músicas, sua interpretação e suas nuances vocálicas são respiros muito bem-vindas durante a projeção. Momentaneamente saímos da chatice sem fim de um roteiro magro sobre um cantor alcoólatra que não define mais a realidade de sua realidade e sua repentina paixão sem medidas por uma cantora talentosa, e é o que salva.

No entanto, a estrela principal da obra não é a personagem Ally. É, em suma, sua intérprete, Lady Gaga. Não apenas pela potência de sua voz, sua interpretação impecável como verdadeira cantora, mas porque o que vemos na tela pode não ser apenas uma ficção que está no processo de diversas versões desde os anos 50, e sim a história da própria Gaga, resguardadas as devidas diferenças. Temos ali uma desconhecida que trabalha naquilo que não gosta, mas tenta se inserir no mundo da música de alguma forma. Quando é descoberta por um produtor, passa a se vender para um pop genérico, insosso e desesperador de acompanhar. Inclusive, talvez esse momento seja o maior furo do roteiro de Nasce uma estrela: se no início do filme Ally faz questão de mostrar seu descontentamento com aqueles que comandam a indústria da música – os homens, é claro -, logo depois ela mesma vai se render a um homem que a manipula de diversas formas através da maneira, talvez, mais sacana de se manipular alguém: a passivo-agressiva. É com esses deslizes que o filme vai perdendo as próprias tentativas de criar personagens marcantes. Ao fim, eles parecem planos feito herói e mocinha de novela das sete.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Se a intenção de A star is born era ser um filme musical, podemos dizer que foi razoavelmente bem sucedido – mas a direção nada criativa de Bradley Cooper nesse sentido não ajuda a trazer brilhantismo para os números musicais. Se a intenção era ser um romance, mirou no romântico clássico, acertou o folhetim barato de revista erótica de banca, uma coisa meio Sabrina. Se a intenção era ser um filme com toques de comédia, devemos admitir que faz algumas tentativas com bons resultados, mas que se perdem no melodrama grudento da maior parte do longa. Por fim, se a intenção era fazer sucesso, tristemente tudo isso que critiquei antes será, sem dúvida alguma, elementos prontos para alavancar a bilheteria do filme. Afinal, é um longa-metragem estrelando Lady Gaga e Bradley Cooper, com muito romance, comédia, drama e um toque de melancolia sem-vergonha. Ah, tem também uma morte pra fazer todo mundo chorar. Pode ser dela, pode ser dele, pode ser do cachorro. Qualquer uma vai fazer o seu amigo vender o filme para você dizendo que foi um filme “lindo, maravilhoso, me fez chorar muito”. Mas não se engane. É um filme raso. Bem raso. Talvez seja por isso que a própria Lady Gaga canta uma música chamada “Shallow”.

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Pôster: InSync Plus, 2018

A star is born, dirigido por: Bradley Cooper; escrito por: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters (baseado nos roteiros de Moss Hart, de 1954, e de John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson, de 1976 – cujas histórias são baseadas numa história de William Wellman e Robert Carson).

Com: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Anthony Ramos, Rafi Gavron, Andrew Dice Clay.

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Hereditário

Lidamos com a morte em apenas dois momentos: quando alguém muito próximo falece, deixando-nos com uma dor particular e imensurável, e quando nós mesmos nos encontramos na mesma situação. Mas pensar sobre a morte é um caso mais amplo. Nas artes, por exemplo, há inúmeros exemplos de como autores, pintores, músicos, diretores e atores pensaram a morte e a interpretaram em seus mais diversos níveis e tipos. Desde os antigos gregos e romanos com seus mitos até as atuais formas de se narrar histórias – com o cinema e, mais atuante agora, as séries -, o ser humano fascina e é fascinado pela ideia de perecer: tudo termina por ali mesmo, tornando-se um imenso vazio sem precedentes, ou vamos para outro espaço e tempo?

No cinema, mais propriamente no cinema de terror, a morte é um tema universal e é representada de maneiras mil. O assassino em série que possui o superpoder de continuar ressuscitando em sequências que nunca acabam; a ameaça invisível de um espírito maligno que possui uma garota cuja vida depende de um exorcismo e da crença de uma mãe cética; a claustrofobia de uma única mulher em uma nave a esmo no espaço, à espera por ser dilacerada viva por um organismo hostil e alienígena que surgiu das entranhas de um ex-companheiro de viagem. O leque de variações de como a morte é representada e executada no cinema de terror é amplo, a ponto de nos apresentar exemplos verdadeiramente aterrorizantes e outros muito risíveis – e, muitas vezes, é capaz de nos fazer tremer através do riso, esta válvula de escape para nervos em frangalhos.

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Imagem: A24, 2018

Algo que já comentei em minha resenha sobre A bruxa, filme inclusive da mesma safra da produtora A24, o terror vem mudando um pouco sua identidade ao longo dos últimos anos. Sim, ainda temos inúmeros filmes produzidos com a intenção de assustar o público apenas com sustos na sala de cinema, mas que caem no esquecimento logo que as luzes se acendem; porém, vemos, hoje, um movimento que se preocupa mais com a tensão causada pela história contada através de imagem e de som do que se a plateia vai literalmente pular de susto em suas poltronas. Em A bruxa, a narrativa lenta e arrastada, aliada à fotografia e trilha sonora impactante, afastou muito público que buscava sangue e tripas, cenas óbvias e diálogos manjados. É uma relação interessante a do grande público com o terror, aliás: desejam filmes óbvios, mas reclamam destes; e quando têm exemplares que saem do esperado, reclamam também (até com mais veemência). Em parte, há a indústria cinematográfica, esta que moldou, ao longo das décadas, o público, a ponto de fazê-lo querer o que quer sem saber bem ao certo porque o quer; se a própria indústria continuasse apenas com essa linha de produção, minha argumentação pararia por aqui. Não é o caso, no entanto.

Exemplos como A bruxaCorra!Ao cair da noite provam basicamente duas coisas: 1) a indústria pode, sim, investir em filmes de terror que saem do óbvio e do esperado e 2) a consequência de tal decisão resulta em outra tese também provada com esses e outros exemplos: filmes de terror não são um subgênero fílmico, eles também podem criar, apresentar e provocar arte. Se O exorcista foi e ainda é um exemplo do filme que usa o terror para contar uma história demasiada humana, alguns filmes contemporâneos também possuem o cacife de aterrorizar sem apelar para o torture porn de um O albergue ou explorar um filme bem-sucedido (tanto como arte, quanto como mina de dinheiro) como Invocação do mal, a ponto de espremer a última gota do sumo com sequências sem fim e spin offs disso e daquilo, secando a fonte que deveria estar preservada. Como, enfim, juntar a concepção de morte, tão obrigatoriamente batida ao longo de anos e anos de cinema de terror, e conceitos que se afastam do óbvio para assustar, de verdade, um público?

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Imagem: A24, 2018

Comecemos pela divulgação. Vivemos em tempos modernos, e tempos modernos significam propagação rápida de fatos e notícias, mas principalmente de mentiras. Na era das fake news, o cinema pode (e, em determinados níveis, como é o caso aqui, até deve) tomar para si a ideia de enganar seu público. E aqui vai meu primeiro cumprimento a Hereditário (Hereditary, 2018) e seu time de publicitários: se o público deseja filmes de terror óbvios, nada melhor do que divulgar o filme com um trailer falso. Não que seu conteúdo não esteja no filme, pois está; mas a montagem das peças de divulgação do longa levam o espectador a ter uma outra impressão do filme: vou assistir a um filme de terror sobre espíritos, possessão e, invariavelmente, morte. Isso é verdade? Sim. Mas não da forma que é divulgada pelos trailers.

Se você já enganou o público com a campanha de marketing e provocou um burburinho o suficiente para atrair audiência, agora é esperar pela quebra de expectativa. Claro, há um relação de causa e consequência muito esperada na estratégia de se criar um trailer com uma montagem apelativa ao grande público: ao saírem do cinema, essas pessoas vão saber que foram enganadas. E é nesse ponto que reside o divisor de águas para o diretor, o roteirista e os produtores: perco grande parte do meu público, mas conquisto aqueles que foram ao cinema não pela divulgação, e sim pela arte cinematográfica. Dentro da indústria existe o risco envolvendo um fator essencial chamado dinheiro, mas, nos últimos anos, aqui e ali vemos lançamentos que se arriscam cada vez mais, mesmo com tal agravante rondando ameaçadoramente as produções. No caso de Hereditário, houve uma junção muito favorável à realização do filme: o diretor e roteirista estreante Ari Aster e sua condução lúcida, a presença forte e extremamente profissional de Toni Collette (não apenas como atriz, mas também como produtora) e o sinal verde da produtora A24, que já colheu outros bons frutos com outras produções do gênero.

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Imagem: A24, 2018

Com divulgação e público meio que garantidos, podemos então mergulhar em Hereditário como narrativa, alegoria e todos os outros aspectos que surgem a partir do próprio filme e sua execução. Falar sobre a história em si é um terreno perigoso para quem ainda não viu o filme, ou cenas impactantes se esvaem, mas o longa é, basicamente, um conto sobre medo. Medo não apenas no sentido geral de qualquer filme de terror, mas medos e suas infinitas extensões. A filha com medo da sociedade que a cerca, o filho com medo de não ser incluso em um grupo social, o pai com medo por não poder mais aguentar as pressões, a mãe com medo pois precisa lidar com perdas inestimáveis em um intervalo de tempo muito curto. O medo metafórico, o medo literal. O medo na urgência de uma garganta fechada pela alergia a nozes. O medo de encarar um diálogo familiar pois a atmosfera em um jantar em família é pesada demais para respirar – assim como na garganta fechada pela alergia. O medo de ver um copo se mexendo sozinho em cima de uma mesa ao constatar que existe o além e seus espíritos.

E se a protagonista, Annie (brilhantemente interpretada por Toni Collette), começa a perder o controle sobre o próprio trabalho (a confecção de miniaturas, sejam elas de casas, estruturas ou cenas do dia-a-dia), e, paralelamente, a cena que abre Hereditário quebra com a visão neutra da narrativa ao sugerir um subjetivismo partindo da própria protagonista, em algum momento também perderemos, como público, o nosso controle sobre os fatos que ali se desenrolam. Isso porque o roteiro do próprio Aster parece seguir, até determinado momento do longa, a estrutura clássica de um filme de terror, com as sequências impactantes aumentando sua intensidade aos poucos – primeiro, a decapitação da ave, depois a decapitação do humano (uma ironia, aqui, tanto imagética quanto narrativa); mas o eixo principal de Hereditary não está na intensidade que ali aumenta exponencialmente, está nos soslaios que o roteiro executa com o sobrenatural – e até com o maravilhoso. Então, ao mesmo tempo em que o público está cético com determinadas características que se apresentam em algumas cenas, logo depois a imagem nos prova que algo ali não é natural, não faz parte do real per se. Se estamos sob as rédeas de uma visão subjetiva, a narrativa não pode ser científica.

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Imagem: A24, 2018

Há, também, aliado a essa questão, o posicionamento da câmera em diversos momentos. Na própria cena inicial já citada, o enquadramento é proposital não apenas para mostrar um local de suma importância para os momentos finais do filme, mas também para sugerir esse acúmulo de camadas: o local está dentro da visão de uma janela, e o vemos através da abertura da janela, ou seja, nosso olho vê através de um outro “olho”, ou, por extensão, nossa visão enxerga aquilo que outra visão nos quer mostrar. O girar lento da câmera e seu mergulho dentro de uma outra abertura – agora já sugerindo mais literalmente a nossa submissão ao subjetivismo – indica, de maneira bem sutil, que estamos prestes a ver um filme de terror que não cairá no estilo de câmera tremida / na mão, mas que amedronta com a lentidão e o esticamento sem fim de tomadas e, por consequência, da tensão do público.

No entanto, fotografia vai além da câmera para assustar sua audiência. O olho vermelho da janela na escuridão, a sugestão de alguém estar parado no canto de um cômodo, mas estar escuro demais para definirmos se há realmente alguém ali, a imagem estática de uma casa da árvore que se quebra com o flutuar literal e silencioso de uma pessoa. A transição do dia para a noite e da noite para o dia em cortes bruscos, o choque com a imagem de carne em decomposição sendo devorada por pequenas criaturas rastejantes em um close lento e cirúrgico, a sutil mas impactante diferença entre feições no rosto de Anne ao sair do grito silencioso para a contemplação quase apática de alguém possuído por um espírito maligno. Todas essas nuances desfilam pela tela nesse vai-e-vem entre o real e o sobrenatural, o sobrenatural e o maravilhoso, atordoando psicologicamente a plateia que não sabe se fica boquiaberta ou se ri; a estrutura clássica da tensão que aumenta está ali o tempo todo na narrativa, mas dentro dela há variações com picos impactantes que vão desestabilizando não apenas quem assiste, mas também a própria tensão geral da narrativa.

Aliado e coroando todos esses elementos anteriores, temos as atuações. O quarteto principal, composto por Toni Collette como a mãe, Annie; por Gabriel Byrne como o pai, Steve; por Alex Wolff, como o filho, Peter; e, por fim, por Milly Shapiro como a filha, Charlie, é a força-motriz de Hereditário. Com todas as nuances possíveis, Toni Collette confere à Annie alguém não só atormentada por todo um passado familiar complexo e repleto de traumas, mas também que se esvai numa loucura cada vez mais iminente; sua atuação vai desde momentos mais intensos, como na cena de discussão à mesa do jantar, até sutilezas, como quando confessa algo ao filho que talvez choque mais do que determinadas cenas mais gráficas. Gabriel Byrne, por sua vez, traz a Steve uma calma e um equilíbrio contrastante ao resto da família; lógico, em determinado ponto ele também vai quebrar emocionalmente, e é interessante observar como a cena em que isso acontece é o ponto de partida para que, dentro da narrativa do filme, as coisas comecem a degringolar de vez. E se Peter é o clássico adolescente tentando encontrar sua turma, Alex Wolff projeta em seu rosto não apenas traços blasé de qualquer jovem entediado com a existência, mas de medo e pavor que o transformam em uma verdadeira criança aterrorizada na presença de elementos sobrenaturais. Milly Shapiro, o grande achado da produção, presenteia o público em praticamente todas as cenas em que aparece com seu jeito estranho de se portar, com sua mania de emitir muxoxos audíveis (um tique que assombra em diversos níveis a história do filme) e com seu olhar vazio.

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Imagem: A24, 2018

Além de todo o cuidado com as diversos detalhes, o design de produção trata de maneira excelente a composição dos ambientes internos com elementos importantes, como o estúdio de Annie e suas miniaturas e post-its lembrando-a de tarefas simples (uma piscadela para sua futura demência / perda de memória e, consequentemente, identidade); o quarto de Charlie e sua parede repleta de papeis e ilustrações; a escrivaninha de Peter, limpa, organizada e com cores que transmitem o equilíbrio e a seriedade do personagem; os pertences da falecida mãe de Annie, passado que serve de base para o início da narrativa e também como contato para a parte sobrenatural do longa; e, por fim, a casa na árvore, lugar banhado ora pela luz vermelho-sangue do aquecedor, ora pelo amarelo-sol no final da projeção.

E se Hereditário é uma ode ao Medo – não apenas a morte -, sua estrofe final, ou os últimos quinze minutos de filme, é o teste absoluto para o público. Gostando ou não da narrativa proposta pelo longa, é inevitável não se sentir tenso com a sequência que se inicia de maneira sutil ao mostrar um vulto branco passando pela porta do quarto de Steve e vai aumentando a intensidade conforme este caminha pela casa (em cenas cuja posição da câmera e o andar lento do personagem remetem muito a O iluminado, ainda mais com a presença da trilha sonora baseada em sintetizadores, reforçando ainda mais a sugestão entre ambos os filmes) até eclodir em uma desenfreada corrida por saídas (e que, invariavelmente, desembocam em espaços cada vez mais fechados). Os minutos finais, quebrando com todas as expectativas, vão permear por caminhos lentos e contemplativos, criando imagens arrepiantes não por aquilo que mostra, mas pelos elementos que sugerem – além da tensão gerada pelo silêncio, este que é cortado por um coro de vozes. O local da cena, como cereja do bolo, termina onde tudo começa, em uma rima visual / narrativa deliciosa.

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Hereditary, dirigido e escrito por: Ari Aster.

Com: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd.

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Séries

Mad men

Fui atraído pela ideia de iniciar Mad men (Idem, 2007-2015) com a proposta da série em retratar a rotina de uma agência publicitária americana nos idos dos anos 1960. Como formado na área de Letras, meu interesse pela palavra e pela imagem e seu mais variado uso pelas áreas do conhecimento humano invariavelmente passa pela propaganda. Ao saber que Mad men mostrava os bastidores do mundo publicitário, pensei, por um momento, que acompanharia os processos de criação de uma propaganda e as consequências de sua veiculação.

Pobre de mim.

Não que a série tenha me decepcionado nesse nível. Em diversos episódios, é possível conhecer os procedimentos utilizados para se convencer, em primeiro lugar, os executivos da empresa que pagarão pelos anúncios a serem produzidos, e, depois, o grande público, aquele que consumirá o produto vendido.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Porém, Mad men é uma narrativa profunda, vai muito além da casca publicitária, da rotina nova-iorquina do pós-guerra. Enveredar por seus episódios é aprofundar-se em personagens rasos e complexos – rasos em caráter, complexos psicologicamente; é ver-se em um redemoinho de reflexões sobre como nos consideramos meros produtos em uma loja – pior, em uma propaganda -, como nos tornamos os produtos que almejamos obter.

Alie, agora, todo esse pano de fundo com um tratamento visual apurado. Claro, seria no mínimo irônico assistir a uma série que tem como temática principal a imagem das coisas (coisas-objeto, coisas-produto, coisas-pessoa) se essa não prezasse por sua própria imagem.

Alie, também, a atuação de cada profissional ali presente para trazer à vida personagens, como já disse, muito rasos em suas imagens próprias, mas abismais em seus complexos e problemáticas pessoais. Alie, por fim, dois elementos que funcionam como combustíveis para a narrativa completar-se em uma obra audiovisual digna de prêmios – como todos que merecidamente colecionou – e, mais importante ainda, de nossa atenção: os contextos históricos de cada década pelas quais Mad men passa – os falsos inocentes e morais anos 60, os exóticos anos 70, os decadentes anos 80 – e, talvez acima de tudo em determinados episódios e cenas específicas, a apurada trilha-sonora.

O vazio

Talvez, além da imagem, a temática mais trabalhada ao longo das sete temporadas seja o vazio inerente ao ser humano. Presente em todos nós, em maior ou menor grau, o vazio tonifica-se aqui devido ao meio em que os personagens se encontram: cidade grande, rotinas automatizadas, meio capitalista de produção e consumo de itens descartáveis para uma sociedade refém do descartável. Dificilmente haverá, ali, alguém preocupado com algo além das próprias roupas, cabelos, sapatos, bolsas, maquiagens. Porém, o jogo temático de Mad men já começa por aí: achamos, como plateia, que ali não há personagens com personalidade, apenas fantoches manipulados por uma indústria fadada à falência.

Mas é o vazio que realmente importa.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Assim, em diversos episódios, é possível notar cenas escritas apenas para explorar esse vazio que emana do personagem, do meio em que se encontra, dos assuntos que trata com outros personagens ou tudo ao mesmo tempo. Vemos, portanto, cenas com o protagonista contemplando o horizonte cinza de Nova York a partir da janela de seu escritório; os céus a partir de um cenário externo, no campo; o mar a partir da praia onde finge estar em férias com a esposa; a piscina azul e convidativa do hotel no qual se hospeda para criar mentiras confortáveis a seus clientes e pessoas com quem deseja se relacionar para preencher vazios dentro de vazios. E os vazios encontram-se também, mais perigosos ainda, nos espaços fechados: o sócio tentando suicídio dentro do carro fechado, o sócio enforcando-se dentro do cubículo onde trabalha, as traições conjugais dentro de quartos de hotéis, dentro de carros, dentro do apartamento da vizinha. Não à toa, a própria abertura mostra o publicitário caindo em um redemoinho de propagandas (mentiras) em direção ao nada branco (vazio), para, logo depois, cortar a cena e dar um zoom out que sai das costas desse publicitário – e ele está, vejam só, contemplando, vejam só, o vazio novamente.

Mad men, então, ao trabalhar com esse vazio inerente, jogará com o público a partir de seus julgamentos morais. Apesar de casados, protagonistas e personagens secundários traem seus respectivos parceiros. Apesar de comprometidos com determinada empresa, protagonistas e personagens secundários encontram-se com a concorrência para possíveis acordos profissionais mais vantajosos. Apesar de possuírem determinadas convicções político-sociais e convicções religiosas, protagonistas e personagens secundários dançarão conforme a música ditar e o dinheiro cair na conta. Não há como negar que esse vazio é algo atraente, ainda mais quando alia-se a temática com o visual chic do decadentismo banhado a glamour vintage, com a presença de cigarros acesos, taças de vinho, ambientes esfumaçados e todo um clima de cinema noir.

Não há como negar também, como consequência de toda a construção narrativa da série, a atração que surge em nós para cada personagem.

Joan

Assim como Peggy, a qual tratarei com detalhes mais adiante, Joan Harris possui um arco narrativo de ascensão. Apesar de ser apresentada logo de início como alguém subalterna dentro da agência, sua posição ainda impõe um determinado poder sobre diversas personagens – essencialmente femininas -, o que cria um apelo certeiro ao público.

Há um misto de poder com fragilidade em  Joan.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Sua principal defesa dentro daquele meio social intricado é impor-se com palavras que corroem e olhos que perfuram. Aos homens, fica também reservado seu visual proeminente, com direito a cabelos e lábios vermelhos como fogo e peitos naturalmente avantajados, uma distração quase publicitária para homens heterossexuais com infindáveis dólares em suas carteiras.

Por dentro, porém, Joan encolhe-se diante da impossibilidade de manter um relacionamento fixo, idealizado por ela mesma em diversos momentos, mas que não passa de uma propaganda própria para se iludir – todos nós precisamos de um sonho inalcançável para acreditarmos em um sentido na vida, mesmo que esse sonho e, consequentemente, o sentido, não exista.

Roger

Cínico, realista e atraente por todos os motivos errados.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Dentre todos os personagens apresentados por Mad men, um dos principais sócios da inicialmente Sterling-Cooper talvez seja o mais honesto – mesmo que cultive, ao longo dos anos, a imagem do canalha sem conserto. Honesto pois, ao ser cínico, trabalha com acidez as verdades que muitas vezes precisam ser realmente ditas; ao ser realista, mantém-se no poder econômico no qual se encontra e, claro, não deseja perder; ao permanecer atraente, mesmo sendo mais velhos que os demais, trabalha a imagem-própria a seu favor.

O conjunto, portanto, é apelativo demais para se deixar passar batido.

Peter

Egoísta.

Não há adjetivo melhor para Pete Campbell.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Talvez poderíamos incluir aqui também a ambição como parte principal de sua composição como personagem, mas, mais cedo ou mais tarde, ela também transforma-se em egoísmo. Se seu cliente não está contente, é porque a agência não acredita em seu potencial; se decidem por alterar os trâmites de uma determinada negociação, é porque a conta é dele; se seu casamento desmoronou e a relação com sua filha é tênue, é porque ninguém o compreende.

O eterno adolescente.

Betty

Não há como não suspirar ao pensar em Betty Draper.

Ela é, com toda a certeza, a personagem-modelo para a ideia que comentei logo no início sobre Mad men trabalhar com a imagem de cada personagem para que pensemos justamente no vazio intrínseco à história.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aqui temos um arco clássico de ascensão e decadência. A fútil mulher suburbana, loira, rica, dona-de-casa e refém do marido e filhos. Impossível não olhar para Betty e sua existência e não pensar em Ana, a complexa, mas aparente fútil, personagem de Clarice Lispector para seu grandioso conto “Amor”. Um dia, Betty Draper também assiste ao cego mascando chicles. Um dia, os ovos na sacola de crochê de Betty também caem por causa do solavanco do bonde. Um dia, Betty Draper também entra em uma epifania.

E como é saboroso acompanhar o amor e o ódio que disputam lugar em nós enquanto acompanhamos sua subida e inevitável descida. Acompanhar seu fim pode deixar um gosto amargo, mas jamais indigno.

Peggy

Inicialmente a doce, inocente, ingênua e, muitas vezes, burra Peggy nos encanta com seu olhar cheio de brilho, daqueles que pertencem à adolescente forasteira, daquela de repente morando na cidade grande, trabalhando numa respeitosa e emergente agência de publicidade, secretária do já lendário e eternamente misterioso Don Draper.

Porém, o que parecia o enredo de A redoma de vidro, de Sylvia Plath, torna-se algo inesperado com a primeira quebra narrativa que a personagem sofre ao ver-se grávida e, sem (aparentemente) remorsos, consequente desejo de livrar-se do próprio filho – seu futuro profissional não comporta uma criança. E, ao longo das sete temporadas, o público acompanha mais e mais quebras narrativas em Peggy. Apesar de sua casca de personagem óbvia, Peggy nos prova que, cada vez mais, vai se tornando seu pior nêmesis: a figura de homem frio cristalizada em Don Draper.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aliás, a grande importância no enredo de Peggy é a necessidade (assim como Joan, em um menor nível) de tornar-se um homem – não literalmente, claro, mas ser considerada de igual para igual dentro do ambiente profissional no qual vai galgando novas posições conforme suas habilidades são demonstradas e provadas arduamente. Estamos, inicialmente, nos anos 1960, e nos anos 60 é preciso ser homem para ser alguém.

(Não que hoje seja diferente)

Também funcionando como alívio cômico – na maioria massiva das vezes, destilando um humor involuntário no público que prova mais uma vez a elegância da produção da série -, Peggy vai se equilibrar (e desequilibrar) na linha tênue entre submissa silenciosa e tirana irremediável. O poder sobe à cabeça de todos, é óbvio. E é divertido observar como ela vai lidar com tal fato.

Don Draper

Falar sobre Don Draper renderia muitas linhas. Mas tentarei ser conciso.

Sua imagem dentro da série é a canalizadora de todas as temáticas abordadas nos demais personagens ao longo das temporadas.

Frio, soturno, talentoso e atraente, Don Draper cresceu em ambientes e vivenciou situação ao longo da vida que se tornam ingredientes minuciosos na composição de seu eu publicitário. Ele precisa inventar verdades, como o subtítulo da adaptação brasileira do título nos diz, e, para isso, precisa saber mentir bem. E ele sabe.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Seu talento, portanto, é um constructo cuidadoso proveniente não apenas das estratégias que usa para convencer seus clientes a pagarem por mentiras a serem contadas sobre seus produtos (a mentira na mentira, um mise en abyme inevitável), mas também das mentiras que conta às suas esposas, às suas amantes, aos seus filhos, aos seus colegas de trabalho e, principalmente, a si mesmo.

Don Draper não é importante para a série apenas por ser homem, engomadinho, sexy, talentoso e um mentiroso nato. Don é uma propaganda viva. E como tem consciência disso, usará todas as artimanhas disponíveis em si próprio e ao seu redor para que isso cause qualquer resultado, seja ele direcionado à agência, à sua família, às suas amantes, à sua conta bancária ou a si mesmo.

Don Draper é, portanto, cada um de nós.

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Pôster: The Refinery (fotografia por: Frank Ockenfels)

Mad men, criada por: Matthew Weiner; escrita por: Matthew Weiner, Jonathan Igla, Kater Gordon, André Jacquemetton, Maria Jacquemetton, Erin Levy, Carly Wray, Lisa Albert, Semi Chellas, Robin Veith, Dahvi Walter, Bridget Bedard, Tom Palmer, Chris Provenzano, Marti Noxon, Brett Johnson, Cathryn Humphris, Janet Leahy, Jonathan Abrahams, Victor Levin, Tom Smuts, Jane Anderson, Rick Cleveland, Andrew Colville, Keith Huff, Tracy McMillan, Frank Pierson, Jason Grote, Heather Jens Bladt, David Iserson; dirigida por: Phil Abraham, Michael Uppendahl, Jennifer Getzinger, Matthew Weiner, Scott Hornbacher, Lesli Linka Glatter, Tim Hunter, John Slattery, Andrew Bernstein, Alan Taylor, Chris Manley, Jon Hamm, Ed Bianchi, Paul Feig, Barbet Schroeder, Daisy von Scherler Mayer, Lynn Shelton, Matt Shakman, Jared Harris.

Com: John Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, John Slattery, Kiernan Shipka, Robert Morse, Christopher Stanley, Jessica Paré, Jay R. Ferguson, Alison Brie, Jared Harris, Kavin Rahm, Mason Vale Cotton, Ben Fieldman, Mark Moses, Teyonah Parris, Stephanie Drake, Jared Gilmore, Talia Balsam, Marten Holden Weiner, Elizabeth Rice.

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Filmes

Me chame pelo seu nome

Talvez um dos sentimentos mais puros e cristalinos que um ser humano pode vivenciar é o amor verdadeiro. Apesar dessa ideia soar um tanto piegas, amar intensamente alguém pode trazer todas as sensações boas possíveis produzidas por nosso cérebro – se você pensar racionalmente -, assim como as dores imensas provenientes do coração – se lembrarmos de nosso campo sentimental. Amar, portanto, é uma via dupla recompensadora e dolorosa, calmante e destruidora. E a ideia de amar intensamente pela primeira vez é um tema inspirador de muitas obras em todas as artes, seja na música, na poesia ou, nesse caso, no cinema. Amar intensamente pela primeira vez durante um verão italiano, então, soa perigosamente clichê e, ao mesmo tempo, belo. Belo porque encanta, belo porque dói.

Ao longo de suas mais de duas horas de duração, Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017) cumpre com a missão de apresentar-nos uma história leve como água mineral, e, no entanto, permeada com tormentas e quedas d’água que passam, principalmente, pela cabeça do protagonista, Elio (interpretado pelo talentoso Timothée Chalamet), em seu aprendizado de verão sobre como amar é recompensador, sobre como crescer é doloroso. Em certo momento, seu companheiro de aventuras sentimentais, Oliver (interpretado pelo também talentoso Armie Hammer), pergunta o que ele faz lá, naquela cidade pequena italiana, durante todo o verão; “leio, transcrevo minha música”, é a resposta imediata. Um projeto de verão similar às águas onde Elio costuma se banhar – calmas, paradas e, nas palavras de Oliver, também congelantes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

A água, inclusive, é um elemento utilizado de maneira inteligente pelo roteirista James Ivory e pelo diretor Luca Guadagnino. Na primeira cena de socialização de Elio e Oliver, no jogo de vôlei com os adolescentes e jovens locais, o protagonista está prestes a entregar uma garrafa de água gelada (um alívio oposto ao sol escaldante de verão, principalmente pra quem está jogando vôlei) para um dos amigos quando Oliver, sem avisar, rouba a garrafa das mãos de Elio e toma um gole. Depois, será o momento em que Elio percebe a não-volta do sentimento que passa a nutrir por Oliver, então decide levá-lo para o seu “local”, como ele mesmo o define. O microcosmo de Elio é um oásis de água das montanhas represada no meio de campos verdejantes, água essa com nascente nas montanhas próximas, como o próprio protagonista faz questão de dizer – “tem algo que você não saiba?” é o questionamento de Oliver em outra cena; Elio está saindo da adolescência, diante de um homem mais velho e, tecnicamente, mais experiente: ele precisa provar-se, afinal. Por último, no arco dramático do casal Elio e Oliver, temos a presença das águas da montanha; porém, diferentemente da pequena represa particular e calma de Elio, essas águas são agitadas, perigosas – ameaçadoras até. É a metáfora de Ivory-Guadagnino avisando Elio que tempos conturbados estão próximos, mesmo que ele não saiba ou ignore, em estado de negação.

Assim, as alterações emocionais causadas pelo amor de verão de Elio e Oliver estarão presentes em muitos detalhes de Me chame pelo seu nome, desde as nuances na linguagem corporal trabalhada por Chalamet e seu Elio inseguro, passional e, algumas vezes, infantil, até a preocupação de Oliver, este que, ao notar o amor irrefreável surgindo entre ele e Elio, por diversas vezes hesita e até impede do jovem continuar demonstrando seus sentimentos de forma física, repetindo que conhece suas próprias atitudes e que não quer decepcioná-lo. As construções dos dois personagens, dessa forma, seguem um ritmo ao mesmo tempo parecido e particular, cada um a seu estilo: Elio, de início, esnobando a presença do mais velho forasteiro e, com o tempo, deixando-se levar pela paixão irrefreável que toma conta de si; Oliver, a princípio tomando suas decisões de maneira cautelosa (cautelosa em demasia, como na cena do vôlei), e mais tarde também entregando-se ao amor. Ambos, inclusive, irão mostrar um para o outro e, ao mesmo tempo, para eles mesmos, que também podem e conseguem atrair e se relacionar com garotas, um jogo de gato e rato que acaba aumentando ainda mais a tensão sexual e amorosa entre os dois rapazes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

E apesar de todo o retrato idílico que o amor de Elio e Oliver provoca ao longo do filme, a porção final, arrebatadora a seu modo, vem para nos lembrar do outro lado do amor verdadeiro: a dor. No início do filme, em uma cena muito rápida, a narrativa esbarra na citação de Heráclito sobre não podermos entrar duas vezes num mesmo rio – na segunda vez, mesmo que estejamos no mesmo rio que entramos anteriormente, suas águas já são outras, aquelas primeiras já passaram e estão há muito longe de nós; e, por consequência, nós também somos outras pessoas, também mudadas, também com outras águas fluindo em nós -, e, ao final, a metáfora da água, que começou parada, calma, passou pela água gelada, pelo suor, pelo sumo do pêssego e pelas cachoeiras revoltosas e ameaçadoras, agora transforma-se em flocos de neve, em uma paisagem homogênea e confortante – mas que não deixa de ameaçar Elio. Antes, porém, ele recebe uma das lições mais valiosas que um pai pode dar a seu filho: a natureza sempre arranja meios de atingir nossos pontos mais fracos. Em uma cena de monólogo inspirada, o pai de Elio (interpretado por Michael Stuhlbarg) emocionará não apenas o filho, mas todo o público que acompanha o longa.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

Tal qual um dos epigramas gregos mais verdadeiros à arte, “a beleza é dura, é cruel, é chocante”, tópico inclusive discutido entre o pai de Elio e Oliver enquanto contemplam slides de esculturas gregas e sua imitação perfeita da estética do corpo humano, Call me by your name é uma alegoria bela e cruel a seu modo. Assim como Oliver entra nas águas calmas e congelantes de Elio, em um batizado pagão e sem volta; assim como Elio penetra o pêssego buscando uma água mais doce e arrepende-se imediatamente de seu ato “impuro”; assim como nenhum dos dois permanecem os mesmos após um misturar-se à água do outro – inclusive misturando seus próprios nomes -, o público também não é o mesmo ao contemplar a cena final de Me chame pelo seu nome. Fria como a neve lá fora, indiferente como as chamas que crepitam diante do rosto belo e chocante de Elio, a arte da obra de Luca Guadagnino flui em nós, doce como um pêssego vibrante ao sol de verão, amarga como uma despedida sem volta.

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Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Call me by your name, dirigido por Luca Guadagnino, escrito por James Ivory (baseado no livro Me chame pelo seu nome, de André Aciman).

Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Vanda Capriolo, André Aciman.

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Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2017

É hora de dizer mais uma vez: ano novo, lista nova.

Como já é tradição aqui on blog, está na hora de colocar as cartas na mesa e escolher os dez filmes que mais me agradaram ao longo do ano passado. Tentei prezar diversos gêneros e, consequentemente, várias temáticas. No final da lista você encontrará um filme bônus (oficialmente ele ainda não estreou no Brasil).

Listas de anos anteriores: 2016, 2015, 2014

10º

Mulher-maravilha (Wonder woman)

2017, dirigido por: Patty Jenkins

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Pôster: B O N D, 2017

Um dos filmes mais elogiados de 2017, Mulher-maravilha soube escapar muito bem do estigma de ser “apenas mais um filme de super-herói”. Patty Jenkins e sua direção com um olhar cuidadoso para a imagem de representatividade da mulher dentro do universo proposto pela personagem da DC Comics fez do filme não apenas um manifesto, mas uma peça de entretenimento puro e muito válida, mostrando ao público todo um universo e construção de personagem que não perde para nenhum outro filme baseado em histórias em quadrinhos. A cereja do bolo, é claro, é a atuação plena de Gal Gadot.

Star Wars: os últimos jedi (Star Wars: the last jedi)

2017, dirigido por: Rian Johnson

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Pôster: LA, 2017

Esqueça a zona de conforto de J. J. Abrams e seu Episódio VII. Não que este seja ruim, mas Rian Johnson definitivamente deixou sua marca na saga Star Wars. Ousado, diferente e, ao mesmo tempo, resgatando os tão bem-vindos alívios cômicos da trilogia clássica, Os últimos jedi não apenas estabelece de vez a nova geração de Star Wars para as novas gerações dentro do público, como também deixa seu legado para o cânone criado por George Lucas. Não dê atenção para pessoas babacas e seus abaixo-assinados irrelevantes, The last jedi é filmaço de primeira categoria e diversão garantida.

Leia a resenha do filme aqui.

Corra! (Get out!)

2017, dirigido por: Jordan Peele

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Pôster: LA, 2017

Não espere que você saiba o que está acontecendo dentro desse filme. Corra! é imprevisível do início ao fim. E o roteiro vai jogar com você o tempo todo, subvertendo inclusive suas próprias obviedades. É um suspense? Sim. É um terror? Sim. É comédia? Doentia, mas sim. Para conferir Get out!, é bom estar com o estômago em dia, pois a atualidade dele vai dar uns belos socos no seu.

Leia a resenha do filme aqui.

Animais noturnos (Nocturnal animals)

2016, dirigido por: Tom Ford

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Pôster: B O N D, 2016

Animais noturnos não possui uma história complexa, muito menos efeitos especiais mirabolantes. Seu foco são seus personagens e como esses lidam com seus próprios sentimentos. A história dentro da história só complementa a força gerada por ressentimentos, ódio e, claro, vingança. Espere por composições de imagens estéticas e atuações primorosas de Amy Adams e Jake Gyllenhaal.

Leia a resenha do filme aqui.

Ao cair da noite (It comes at night)

2017, dirigido por: Trey Edward Shults

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Pôster: InSync Plus, 2017

Dentro de uma onda de filmes de terror cada vez mais autorais e que fogem do estereótipo de que terror equivale a um filme ruim, com personagens rasos e histórias mais finas ainda, Ao cair da noite não é um exemplo que irá deixar você satisfeito. Em nenhum momento ele entrega o que o público quer ou precisa ver. Seu suspense é baseado justamente naquilo que tememos por não sermos capazes de vê-lo. Angustiantes, claustrofóbico e visceral.

Dunkirk (Dunkirk)

2017, dirigido por: Christopher Nolan

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Pôster: WORKS ADV, 2017

Para quem estava acostumado com um Christopher Nolan entregando filmes do Batman com roteiros complexos e desenvolvimento profundo de personagens, ou mesmo filmes com conceitos complexos como A origem (Inception, 2010), Dunkirk pode parecer um longa incompleto, sem nexo. Mas não se engane: o protagonista aqui é a própria guerra enfrentada pelos personagens. Dunkirk é cinema puro: no som e na imagem. O ideal é assisti-lo com uma tela e sistema de sons à altura, para que a experiência seja completa e você se sinta, mesmo que por menos de duas horas, dentro de uma guerra. Terrível.

Leia a resenha do filme aqui.

O filme da minha vida

2017, dirigido por: Selton Mello

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Pôster: Vitrine Filmes, 2017

Está na hora de você parar com essa bobagem de que filme nacional é uma porcaria. Claro que muitos filmes produzidos no nosso país nem merecem ser chamados de “filmes”, tamanha acefalia nos vários exemplos que vemos por aí. O filme da minha vida, porém, vem para tirar de vez essa impressão e, consequentemente, injustiça que praticamos contra o cinema pensado e produzido aqui. Seguindo a imensa qualidade de seu longa anterior, O palhaço (2011), o ator Selton Mello dirige aqui um regionalismo com maestria e serenidade. Destaque para a belíssima fotografia que evoca, em seu tom sépia, uma nostalgia doce, mas, ao mesmo tempo, dolorosa.

A chegada (Arrival)

2016, dirigido por: Denis Villeneuve

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Pôster: Empire Design, 2016

Aparentemente o canadense Denis Villeneuve não consegue fazer um filme ruim. Aqui, o diretor nos apresenta o que poderia ser mais um filme de invasão alienígena, não fosse pelo fato de A chegada não colocar a invasão em si em primeiro lugar; o foco, aqui, é a linguagem: como vamos nos comunicar com esses seres? E como é a linguagem deles? Todos os segredos e enigmas do filme giram em torno da linguagem. Obra-prima, incluindo sua trilha-sonora arrepiante.

Leia a resenha do filme aqui.

It: a coisa (It)

2017, dirigido por: Andy Muschietti

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Pôster: cold open, 2017

A produção de It remonta ao início da década. Mudança de diretores, roteiristas e por aí vai. O que parecia impossível acontecer devido às circunstâncias foi, talvez, a principal supresa positiva dentro do cinema blockbuster de 2017. Baseado em uma das consideradas obras-primas de Stephen King, It: a coisa é uma homenagem não apenas aos grandes monstros e fantasmas das histórias de terror, mas à infância em si. Equilibrando muito bem as doses de sustos e horror com os risos (voluntários ou não), It com toda a certeza foi a melhor opção de entretenimento no ano que passou. Finalmente valeu a pena esperar anos e anos por um filme sair do papel. Estamos ansiosos desde já para o próximo capítulo da história, previsto para 2019.

Leia a resenha do filme aqui.

E aqui há a resenha para o livro de Stephen King.

Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight)

2016, dirigido por: Barry Jenkins

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Pôster: InSync Plus, 2016

Poético como versos doces ou música inspirada, arrebatador como um soco no rosto. Moonlight não apenas mereceu seu Oscar de Melhor Filme em 2017, era uma obrigação premiá-lo por sua coragem, sua narrativa fílmica exemplar e sua temática mais do que necessária. A discussão aqui não é apenas em relação aos LGBTs, mas também em relação aos negros e como eles – ainda, infelizmente – estão relegados às margens de nossa sociedade. Não espere por finais felizes.

Cena pós-créditos

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

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Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Sensação do final do ano, Me chame pelo seu nome está arrebatando críticos por todos os festivais em que passa. Queridinho das premiações agora no começo de 2018, o longa realmente não decepciona, seja por seu retrato fidedigno de um verão europeu rodeado por estudiosos, piscinas, praias e pêssegos saboreados de diversas formas, seja pela atuação monstra de Timothée Chalamet ao lado de Armie Hammer. Destaque também para as composições originais de Sufjan Stevens que permeiam o filme e ditam ainda mais o clima de primeiro-amor.

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Séries

Black mirror

O que mais nos assusta em Black mirror? A tecnologia avançada? As reviravoltas na maioria dos episódios? Ou a soma desses dois fatores e a capacidade inata do ser humano causar dor através de sentimentos mais profundos como o amor, o ódio, a inveja e a ganância? Parece não haver um consenso que responda tais questões, e esse talvez seja o ponto de maior sucesso da série britânica, responsável por índices grandes de audiência e de discussões pós-transmissão dos episódios desde sua estreia em dezembro de 2011.

O consenso, aqui, não deve necessariamente existir, já que, estruturalmente, Black mirror não se prende a um núcleo apenas de personagens e arcos dramáticos, trazendo uma nova história e sua respectiva (ou não) conclusão ao final de cada episódio. Assim, enquanto uma parcela da audiência vai se sentir frustrada com o desenrolar dos fatores em determinado capítulo, é bem provável que um outro grupo considere a mesma história um primor da narrativa moderna. E “frustração” parece ser a sensação mais buscada pelo criador e principal roteirista da série, Charlie Brooker, em seus espectadores.

Dentre tantos encontros e desencontros dentro dos consensos pertinentes à qualidade de Black mirror, é inegável que seu grande sucesso e consequente repercussão dá-se porque a série não se rende às pressões midiáticas para tornar-se, ao longo do tempo, mais “palpável” em busca de mais audiência. Black mirror é idealizada e, vejam bem, realizada para que você se sinta frustrado. E essa frustração pode vir de duas formas: a partir de uma história que não terminou da forma como você, mero espectador, gostaria que acabasse; ou a partir das conclusões que alguns episódios podem sugerir a você através dos temas e discussões levantados ao longo de seus roteiros.

Ou seja, ou nos frustramos porque o final não era aquele que gostaríamos, ou nos frustramos porque, dependendo do resultado das ações dos personagens, somos humanos como aqueles retratados na série, mesmo alocados em um espaço-tempo distópico, a par de uma tecnologia preponderante, e, dessa maneira, igualmente passíveis de errar e nos levarmos a consequências como as retratadas nas histórias da série. Assim, Black mirror começa a pesar em nossas costas quando passamos a perceber que o problema ali presente não é a tecnologia, nem o uso que os humanos fazem dela; o problema são os humanos, seres paradoxais a ponto de desenvolverem tecnologias impressionantes, mas ainda incapazes de utilizá-las de maneira exemplar, já que, apesar de evoluídos, ainda somos irracionais e passionais o bastante para nos frustrar das piores maneiras possíveis.

Com tudo isso em mente, os fãs da série e os novatos receberam de maneira bem negativa a notícia de que o Channel 4, rede televisiva britânica, não veicularia mais Black mirror além das duas primeiras curtíssimas temporadas – 3 episódios cada – e seu especial de Natal. O alívio (e surpresa também) veio com a confirmação de que a série voltaria para as telas do público, mas agora com a Netflix. Sintam a ironia. Por um lado, isso poderia ser uma boa notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas; já do outro, isso poderia ser uma péssima notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas. E a segunda possibilidade parece refletir agora na recém-lançada quarta temporada, no final de dezembro de 2017.

Dois anos após o especial de Natal transmitido pelo Channel 4, a Netflix anunciou a compra dos direitos da série e a produção de 12 episódios, que seriam divididos em duas novas temporadas. Apesar da qualidade dos seis primeiros, incluindo aí suas estruturas e o estilo peculiar de Black mirror apresentar personagens e histórias sem esperanças, tendendo para conclusões pessimistas e, por vezes, até niilistas – excluindo-se, aqui, obviamente, o drama com ares idílicos “San Junipero”, o alívio da terceira temporada -, os seis últimos episódios da mais nova temporada merecem uma análise mais pormenorizada. Já podemos afirmar, de antemão, que Black mirror não mantém mais sua uniformidade em relação à qualidade e à capacidade de nos surpreender. A questão principal, então, é: isso necessariamente é ruim?

Os episódios

Antes de partir para uma análise de cada episódio da quarta e mais recente temporada, aviso que não haverá spoilers aqui prejudicando as sessões de cada um depois, caso você ainda não os tenha visto.

Seguindo uma tendência já observada na temporada anterior, Charlie Brooker preparou episódios mais longos (o primeiro, “USS Callister”, com quase 1h20 de duração), deixando mais espaço para o desenvolvimento de personagens e, no caso do último capítulo, “Black Museum”, mais tempo de cena para o desenrolar dos três “contos” que ali se entrelaçam. Num mundo atual, onde a modernidade ordena uma agilidade para tudo o que produzimos e consumimos, é de se notar que Black mirror, ainda mais por comentar tópicos relacionados à tecnologia e, consequentemente, à sua efemeridade, traga episódios que ultrapassem a marca de uma hora, um verdadeiro suplício para diversas pessoas acostumadas com o ritmo frenético das produções dos últimos anos – ainda mais quando se fala em séries.

O foco, na 4ª temporada, ainda é as relações humanas em um futuro incerto, mas dominado pelo uso da tecnologia. Apesar de flertar com a ficção científica e elementos de narrativas distópicas (mais acentuado no quarto episódio, “Hang the DJ”), a intenção de Black mirror é escanear, de diversas maneiras, o comportamento humano, cercado e cerceado por seus sentimentos, tentando se equilibrar entre a razão e a emoção constantemente. Sendo a tecnologia um canalizador ou um energético para as decisões humanas, ela pode ser considerada, ainda, dentro da série, o “pano de fundo”, e não necessariamente a protagonista (como vemos no terceiro episódio, “Crocodile”).

  • “USS Callister”

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Imagem: Netflix, 2017

O primeiro episódio da 4ª temporada potencializa a visão de Black mirror de como a tecnologia possibilita, mas não estimula as atitudes negativas do ser humano. Isso fica claro a partir do jogo de aparências que o roteiro cria com o protagonista.

A princípio demonstrando, para o espectador, atitudes mais introvertidas e sua inegável subordinação ao provável antagonista do episódio, ele passa de mocinho a vilão em questão de minutos, e isso não é obra do personagem em si, mas do roteiro: estruturada a partir de uma homenagem a Star trek, e, por isso, filmada em um aspecto de tela mais largo, dando um ar mais cinematográfico para o episódio, a história vai montar o caráter do protagonista por meio da visão de uma das personagens, que tem sua visão de admiradora quebrada com o desenrolar dos acontecimentos. Tal visão – e sua mudança – é importante para o julgamento do público.

Apesar de não acentuar tanto seu “quê” de Black mirror, “USS Callister” possui méritos ao desenvolver um personagem com “síndrome de Deus” crível e, ao mesmo tempo, estereotipado, sem cair em um aspecto novelesco. É uma história que esbarra na imagem clássica do nerd antissocial e desmonta sem necessariamente, com isso, afirmar que tal imagem clássica seja o problema para as atitudes do personagem.

  • “Arkangel”

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Imagem: Netflix, 2017

O segundo episódio retrata um tema muito caro à literatura e ao cinema mundiais: a relação mãe e filho. Aqui, porém, teremos a adição da tecnologia como tempero para os problemas que vão explodir de maneira inevitável.

“Arkangel” é o primeiro episódio de Black mirror dirigido por uma mulher e, logo de cara, temos Jodie Foster no comando da produção. Talvez isso reflita na qualidade das atuações aqui, com Rosemarie DeWitt (de La la land, 2016) interpretando a mãe e Brenna Harding a filha, a dupla que conduz o ritmo e a história. A ligação tecnológica entre mãe e filha cria um cordão umbilical high-tech sem volta, potencializando a sensação de propriedade que Marie tem sobre Sara. E, diferentemente do episódio anterior, “Arkangel” traz alguns elementos que retomam a sensação amarga de que estamos acompanhando não apenas uma história comum, mas sim um episódio de Black mirror.

  • “Crocodile”

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Imagem: Netflix, 2017

Porém é aqui, com “Crocodile”, que o fundo do poço das emoções humanas se aproxima mais do espectador.

Com o roteiro mais bem estruturado da temporada, o episódio vai entrelaçar duas histórias, num ritmo que se torna cada vez mais pesado de acompanhar conforme os minutos vão passando. “Crocodile” é o exemplo máximo, na 4ª temporada, de que a tecnologia presente dentro da história está ali apenas como base, pois as ações da protagonista, Mia Nolan (interpretada pela ótima Andrea Riseborough), são os principais pontos do episódio, variando do medo ao mais profundo desespero.

É nesse terceiro episódio que Black mirror volta às suas origens, apresentando uma história que prende o espectador através, inicialmente, de uma tensão, passa pelo suspense e chega ao seu ápice com sequências sem volta, legando ao público  uma sensação de amargor e desesperança.

  • “Hang the DJ”

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Imagem: Netflix, 2017

Assim como o “San Junipero” da terceira temporada, “Hang the DJ” traz uma pausa saudável para o ritmo de histórias mais negativas, com seu pico em “Crocodile”.

Apesar de haver, aqui, ainda, aspectos mais melancólicos que endereçam mensagens bem claras a toda uma geração baseada em encontros amorosos ou sexuais promovidos por aplicativos de celular, “Hang the DJ” usa a motivação de revolução dentro de um ambiente opressor e distópico para desenvolver seus personagens. O casal protagonista desperta a simpatia do público em questão de minutos, e, com isso, passamos a sofrer junto com os personagens quando as regras do sistema em que vivem começam a influenciar demais em suas vidas.

  • “Metalhead”

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Imagem: Netflix, 2017

Já “Metalhead” é o grande escorregão de Charlie Brooker. São quarenta minutos de completo desperdício de vida.

Movido por uma protagonista que não se sustenta, já que o roteiro não entrega para o público motivações suficiente para que ela aja da maneira que age, um vilão ultra-tecnológico que também não apresenta nenhum propósito a não ser matar e coadjuvantes completamente inúteis (em todos os sentidos, dentro e fora da narrativa), o episódio é completamente esquecível.

“Ah, mas há referências à Revolução dos bichos, de George Orwell e uma fotografia em preto e branco muito bonita”. Pois é, mas e a relação disso tudo dentro dos significados da narrativa? Completamente rasa. Roteiro preguiçoso, personagens planos e uma cena final enervante (no pior sentido do termo).

  • “Black Museum”

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Imagem: Netflix, 2017

Após o desastre de “Metalhead”, “Black Museum” retoma a qualidade tão conhecida de Black mirror, trazendo tensão e aditivando ações humanas terríveis através da tecnologia.

O grande mérito do episódio não é, porém, seu final “surpreendente”, mas sim a estrutura de sua narrativa: com um personagem servindo de narrador para outras histórias dentro da história, “Black Museum” tem um ar de livro de contos de Stephen King, e uma das histórias contada pelo personagem, inclusive, poderia ter desenvolvimento próprio.

Essa história foi baseada num conto escrito por Penn Jillette, mas nunca publicado. O autor tentou publicá-la no final da década de 80, mas seu editor achou o conteúdo muito “sombrio”. Ele também tentou transformá-la em filme, na época, mas foi recusada novamente. Muitos anos depois, Jillette almoçou com Charlie Brooker e comentou sobre seu conto renegado. O criador de Black mirror gostou da ideia no mesmo momento e prometeu incluí-la, de alguma forma, na série. Cumprindo com sua palavra, Brooker baseou-se na história de Penn Jillette, intitulada “Pain addict”, para rechear grande parte de “Black Museum”.

E é “Pain addict” que devolve o tom de Black mirror para seu devido ritmo após o desastre em “Metalhead”.

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Pôster: LA, 2017

Black mirror, criada por: Charlie Brooker; escrita por: Charlie Brooker, William Bridges; dirigida por: Jodie Foster, Toby Haynes, John Hillcoat, Colm McCarthy, David Slade, Timothy Van Patten.

Com: Daniel Lapaine, Michaela Coel, Georgina Campbell, Rosemarie DeWitt, Douglas Hodge, Maxine Peake, Jesse Plemons, Andrea Riseborough, Joe Cole, Brenna Harding.

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Filmes

Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

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Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

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